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entrevista especial

- Publicada em 20h38min, 21/03/2021.

Não vão me expulsar, estou saindo do PTB, afirma vice-governador do RS

Buscamos um equilíbrio entre essas duas questões, a vida humana e a economia, afirma vice-governador

Buscamos um equilíbrio entre essas duas questões, a vida humana e a economia, afirma vice-governador


MARIANA ALVES/JC
Marcus Meneghetti
Depois do imbróglio envolvendo o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, a saída do vice-governador Delegado Ranolfo Vieira Júnior do partido parece irreversível. Inclusive, ele já trata a sigla como o seu "antigo partido".
Depois do imbróglio envolvendo o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, a saída do vice-governador Delegado Ranolfo Vieira Júnior do partido parece irreversível. Inclusive, ele já trata a sigla como o seu "antigo partido".
Após Jefferson disparar uma série de ofensas contra Ranolfo e o governador Eduardo Leite (PSDB) devido às medidas tomadas pelo Palácio Piratini para conter a pandemia de coronavírus no Rio Grande do Sul, o vice-governador recebeu o apoio da bancada de deputados estaduais e federais do PTB gaúcho, que devem se desfiliar da legenda junto com ele. "Pediram que não me desligasse formalmente do partido (por enquanto), para que fizéssemos uma saída conjunta e ingressássemos em um novo partido".
Ranolfo pode concorrer a governador pelo seu novo partido, que ainda não foi escolhido. Sobre isso, ele é categórico: "Sou candidato? Posso ser. Estou preparado? Sim. Estou trabalhando para isso? Não. Afinal, no momento, tenho que cuidar da pandemia".
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Ranolfo fez questão de lembrar que faz parte do núcleo duro do governo, do gabinete de crise, além de secretário estadual de Segurança Pública. Ele sustentou que a diminuição da taxa de contágio da Covid-19 no Estado permite a volta da cogestão da pandemia com as prefeituras. Também comemorou os números decrescentes de crimes graves no Rio Grande do Sul.
Jornal do Comércio - Na semana passada, o presidente nacional do PTB anunciou que iria expulsar o senhor do partido por ser vice de um governo que promoveu medidas restritivas ao comércio para conter o avanço da Covid-19. Jefferson também dissolveu a executiva estadual do partido, porque os deputados do PTB apoiaram o senhor. Depois disso, deve haver uma saída das principais lideranças da sigla. Como está esse processo?
Ranolfo Vieira Júnior - Para responder isso, preciso fazer uma breve recapitulação. Na sexta-feira passada, o presidente nacional do então meu partido deu uma entrevista a uma rádio de Porto Alegre, fazendo acusações de maneira muito ofensiva ao governador Leite, a mim, aos servidores da segurança, ao próprio PTB gaúcho.
JC - Ele usou, inclusive, expressões pejorativas...
Ranolfo - É típico de um presidiário, típico de quem já cumpriu pena, já esteve dentro do sistema penitenciário. Típico de quem vai, por exemplo, à cadeia para colher a assinatura para a ficha de filiação de alguém que está preso, como foi o que ele fez com o deputado (federal Daniel Silveira) que está preso.
JC - E, na segunda-feira passada, o senhor respondeu aos ataques de Jefferson...
Ranolfo - Então, na segunda-feira da semana passada, fiz uma manifestação de repúdio a tudo isso que ele anunciou, como a minha expulsão do partido. Ele não vai me expulsar, porque estou saindo do partido. Quero distância desse tipo de liderança. A bancada de cinco deputados estaduais do PTB e três federais - que é a maior seção do PTB no Brasil - fez uma nota de apoio a mim, dizendo que, se ele aplicasse qualquer medida contra mim, teria que aplicar ao partido no Rio Grande do Sul. Aí ele, imediatamente, foi às redes sociais e destituiu o diretório regional e disse que estava mandando todo mundo embora. Então, nesse momento, todos os deputados gaúchos estão inclinados a deixar o partido. Eles pediram que eu não me desligasse formalmente do partido (por enquanto), para que fizéssemos uma saída conjunta e ingressássemos em um novo partido. No momento, aguardo esse movimento. Aí, acabo formalmente saindo do PTB.
JC - O senhor e os deputados já têm destino?
Ranolfo - Não temos destino ainda. Claro, fiquei muito satisfeito, recebi centenas de ligações, mensagens de apoio, solidariedade das mais diversas áreas, dentre elas de outros partidos políticos.
JC - E convites?
Ranolfo - Convites também, o que me deixou muito lisonjeado. Por uma questão ética, não vou dizer quais foram, mas posso dizer que recebi convites de vários partidos, da esquerda à extrema-direita. Mas, como disse, nesse momento, estamos discutindo dentro desse grupo que vai sair do PTB para qual agremiação partidária nós iremos.
JC - Aqui no Rio Grande do Sul, o senhor faz parte do Gabinete de Crise do governo, que toma as decisões relacionadas à pandemia de Covid-19. Como avalia o desempenho do governo no combate a pandemia?
Ranolfo - Avaliando todas as medidas que tomamos ao longo desse período, vejo que conseguimos fazer o enfrentamento desse tema como deveríamos fazer. O sistema do distanciamento controlado, por exemplo, foi criado por nós no mês de maio de 2020. E serviu de modelo para vários outros estados da federação brasileira e até outros países. Durante a pandemia, fomos assessorados por evidências científicas, por técnicos de várias áreas, mas especialmente da área da saúde. Nós iniciamos em março do ano passado com 933 leitos de UTI no sistema público de saúde. Durante 30 anos, o SUS construiu 933 leitos de UTI. Nesse momento, contamos com 2.294 leitos de UTI. Ou seja, tivemos um crescimento de 157% nos leitos. São atitudes como essas que demonstram nossa preocupação no enfrentamento dessa questão, sempre buscando o primeiro valor, que é a vida humana, mas não se esquecendo da questão econômica. Buscamos um equilíbrio entre essas duas questões, a vida humana e a economia.
JC - O senhor tem acompanhado os esforços do governo gaúcho para adquirir a vacina contra Covid-19 direto com os laboratórios. Essa busca ocorre, em grande medida, pela demora no fornecimento das doses pelo Ministério da Saúde. Como o senhor avalia a atuação do governo federal quanto à vacinação?
Ranolfo - Em algumas coisas, o governo federal poderia ter agido de outra forma. Em nenhum lugar do mundo se desacreditou a doença. Essa postura foi muito equivocada. O segundo ponto foi não estimular ou, muitas vezes, desestimular o respeito aos protocolos sanitários. Entre eles, o uso da máscara. Por fim, temos o principal ponto: a vacina. Lá atrás, (o presidente Jair Bolsonaro) disse que quem tomasse a vacina poderia virar jacaré. Até essa fala aconteceu. (Também disse que) as vacinas não poderiam ser chinesas. Se não fosse a Coronavac (a primeira a ser aplicada no Brasil), como estaríamos? Chegou a cogitar, em determinado momento, que quem quisesse vender a vacina viesse ao Brasil. Argumentou que o País tem 200 milhões de clientes para a vacina, sabendo que o mundo tem 7 bilhões de habitantes, e todo mundo está querendo a vacina. Hoje vigora a lei mais antiga do mercado: a da oferta e da procura. Infelizmente, quem entrou atrasado na busca pelas vacinas vai sofrer os reflexos disso. Essas são minhas três observações sobre o governo federal. Também tenho que reconhecer algumas coisas importantes que foram feitas, como o auxílio emergencial às pessoas que ficaram desempregadas, a ajuda federal aos estados e municípios, com valores a serem aplicados na saúde e até mesmo para contemplar a redução que os estados tiveram nas suas arrecadações.
JC - Como o senhor avalia os efeitos da flexibilização das restrições nos sistema de saúde?
Ranolfo - Tudo que nós fazemos é com base na ciência. Até duas semanas atrás, nossos indicadores apontaram o pico da doença, mostrando que todo o Estado entraria na bandeira preta (do distanciamento controlado), que indica o risco máximo de contaminação. Naquele momento, nós estávamos com uma RT (taxa de transmissão da doença) de 2,35. Isso quer dizer que cada infectado estava passando a doença para 2,35 pessoas no Rio Grande do Sul. Em outras palavras, cada 100 infectados estavam passando a doença para 235 pessoas. Então, tínhamos que parar naquele momento. Hoje, a taxa de contágio diminuiu significativamente para 1,41 (o que significa que cada 100 pessoas transmitem a Covid-19 para outras 141). Outra coisa importante de analisar é o ciclo da doença Covid-19: inicia com a contaminação, a RT; em seguida, vêm as internações em leitos clínicos; depois, vem a internação em leitos de UTI; e o último ponto do ciclo é o óbito. Ou seja, o óbito é um indicador tardio.
JC - Está dizendo que o número recorde de mortes por Covid, que tivemos na semana passada, são consequências da taxa de contaminação de 2,35...
Ranolfo - Exatamente. Ainda devemos passar por um período longo com taxa de óbitos alta, exatamente por esse ciclo da doença. Como reduzimos a RT para 1,41, já estamos começando a sentir uma redução na procura pelos leitos clínicos. Se analisarmos a situação baseado no ciclo da doença, veremos que a infecção já reduziu, há uma estabilização da demanda por leitos clínicos, o próximo passo deve ser a (diminuição da demanda por) UTI, e o último passo deverá ser a redução dos óbitos. Diante desse quadro, entendemos que dá para iniciar uma flexibilização, que acontece justamente através da chamada cogestão com os municípios, que permite que os municípios apliquem protocolos sanitários da bandeira anterior. Se tivéssemos condições de permanecer mais 60 dias fechados em casa, não tenho dúvida que seria a melhor coisa do mundo para o combate à doença, seria a melhor coisa do mundo para a saúde. No entanto, como ficaria a economia? Então, a gente deve tentar equilibrar. É difícil, mas é o que estamos fazendo.
JC - O senhor também acumula a pasta de Segurança. Como tem sido a fiscalização das normas sanitárias?
Ranolfo - Lançamos a operação Te Cuida RS, exatamente para fiscalizar a utilização dos protocolos sanitários. Temos um balanço de 5.300 locais fiscalizados; 209 festas clandestinas encerradas; 2.315 ocorrências de dispersão de aglomerações; e 30.173 pessoas abordadas para orientação. Nossa orientação é o diálogo, a conscientização para que as pessoas sigam as regras sanitárias, não se aglomerem em via pública. Se a pessoa não atende as orientações, infelizmente temos que fazer a condução para uma delegacia, registrar um procedimento policial e remeter ao Ministério Público.
JC - Nos últimos anos, índices de criminalidade também caíram. 
Ranolfo - Em 2019, tivemos o melhor ano da década (passada) em todos os indicadores de criminalidade. Em 2020, tínhamos um grande desafio: manter esses índices decrescentes. Lançamos novos números em fevereiro. Por exemplo, comparando o número de homicídios em fevereiro de 2017 e fevereiro de 2021, tivemos uma redução de 54%. Em fevereiro 2017, tivemos 289 mortes por homicídio; em fevereiro de 2021, tivemos 133. Latrocínio, que é o roubo resultado em morte, reduziu 88%. Se analisarmos os roubos de veículos, veremos que, em fevereiro de 2017, aconteceram 1.619 roubos de automóveis; em fevereiro de 2021, foram 470; isso representa uma redução de 71%.
JC - Porém, aumentaram os crimes virtuais...
Ranolfo - Temos verificado estelionatos praticados no meio digital, golpes pelo Whatsapp etc.
JC - O senhor é um dos nomes cotados para ser o sucessor do governador Leite, que já disse que não vai à reeleição. O senhor acredita que pode representar a continuação do projeto desse governo, nas eleições de 2022?
Ranolfo - O governador já disse várias vezes que não será candidato à reeleição. Se fosse, teria todo o meu apoio. A segunda questão é: quem tem mais legitimidade do que o vice-governador para dar mais seguimento a esse projeto? Então, é normal e natural que (o candidato) possa ser o vice-governador, que está dentro do governo, participando das decisões. O terceiro aspecto é que, dentro do meu partido anterior, o PTB, o anseio era esse, de que eu disputasse a eleição.
JC - Existe também a possibilidade de o governador Leite concorrer ao Planalto. O que mudaria no cenário estadual?
Ranolfo - Isso leva ao quarto ponto. Há possibilidade de o governador concorrer a presidente. Se isso se concretizar, ele terá que sair do governo em março. Quem assume? O vice-governador. Eu, sendo governador, só posso me candidatar à reeleição, não posso me candidatar a nenhum outro cargo, nem deputado federal, nem senador, nem nada. Então, esse é o contexto.
JC - Gostaria de concorrer?
Ranolfo - Posso dizer o seguinte: Delegado Ranolfo é candidato? Posso ser. Está preparado para ser? Sim. Está trabalhando para isso? Não. No momento, tenho que cuidar da pandemia. Não posso misturar política e pandemia. Hoje, minha energia está voltada ao combate à pandemia, à consolidação dos indicadores de criminalidade. Vamos deixar a pauta política para o ano da eleição.

Perfil

Ranolfo Vieira Júnior (PTB) é natural de Esteio e tem 54 anos. Servidor público há mais de 30 anos, é delegado de polícia desde 1998 e dirigiu o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) por seis anos. Entre 2011 e 2014, foi chefe de polícia do Rio Grande do Sul, durante a gestão do governador Tarso Genro (PT), época em que criou o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa. No período, presidiu o Conselho Nacional de Chefes de Polícia Civil do Brasil. Em 2014, concorreu à Assembleia, ficando como suplente do PTB. Coordenou a bancada do PTB no Parlamento. Foi secretário de Segurança Pública e Cidadania de Canoas em 2017, na gestão de Luiz Carlos Busato (PTB). É formado em Direito, tem especialização em Gestão de Segurança na Sociedade Democrática e foi professor da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) em Canoas e da Academia da Polícia Civil (Acadepol-RS). Empossado vice-governador na gestão de Eduardo Leite (PSDB), também assumiu a pasta de Segurança Pública. Faz parte do Gabinete de Crise do governo, que tem tomado as decisões sobre o combate à pandemia no Rio Grande do Sul.
 
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