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Líbano

- Publicada em 21h26min, 05/08/2020. Atualizada em 14h32min, 06/08/2020.

Alerta sobre nitrato de amônio que causou explosão no porto do Líbano é ignorado desde 2013

Responsáveis pela administração aduaneira pediram remoção da carga explosiva ao menos seis vezes

Responsáveis pela administração aduaneira pediram remoção da carga explosiva ao menos seis vezes


/AFP/JC
Atualizada às 14h37min de 06.08.2020
Atualizada às 14h37min de 06.08.2020
Nesta quarta-feira (5), os libaneses acordaram ainda atônitos com a megaexplosão que atingiu a área portuária de Beirute na terça-feira (4). A detonação - ao que tudo indica, acidental - de 2,7 mil toneladas de nitrato de amônio, usado em bombas e fertilizantes, armazenadas em um hangar, levou os libaneses a se perguntarem o que uma carga altamente inflamável fazia ali. Como resposta à tragédia, o governo libanês ordenou, nesta quarta-feira, a prisão domiciliar de autoridades do porto. O número de vítimas fatais já chega a 145, o de feridos, ultrapassa os 5 mil. Porém, o número de mortos deve aumentar, pois há dezenas de desaparecidos.
Segundo a rede televisão árabe Al Jazeera, a análise de registros e documentos públicos mostra que altos funcionários libaneses sabiam há mais de seis anos que o nitrato de amônio estava armazenado no Hangar 12 do porto de Beirute. E que eles estariam cientes dos perigos que isso representava.
A causa apontada pelas autoridades como a mais provável para a detonação da explosão seria um curto-circuito, que levou ao incêndio e a explosão em um depósito de fogos, que acabou atingindo o local onde estavam as 2,7 mil toneladas de nitrato de amônio. O produto torna-se explosivo exposto a temperaturas acima de 300 graus.
A carga chegou ao Líbano em setembro de 2013, a bordo de um navio de propriedade russa com uma bandeira da Moldávia. O Rhosus, de acordo com informações do site de rastreamento de navios, Fleetmon, estava indo da Geórgia para Moçambique.
O navio foi forçado a atracar em Beirute depois de enfrentar problemas técnicos. Mas as autoridades libanesas impediram a embarcação de navegar e o navio foi abandonado por seus proprietários e tripulação. A carga perigosa do navio foi descarregada e colocada no Hangar 12 do porto.
Meses depois, em 27 de junho de 2014, o então diretor da Alfândega Libanesa Shafik Merhi enviou uma carta endereçada a um "juiz de assuntos urgentes", pedindo uma solução, segundo documentos compartilhados on-line e divulgados pela Al Jazeera.
Os funcionários aduaneiros enviaram pelo menos mais cinco cartas nos três anos seguintes - em 5 de dezembro de 2014, 6 de maio de 2015, 20 de maio de 2016, 13 de outubro de 2016 e 27 de outubro de 2017 - pedindo orientação. Eles propuseram três opções: exportar o nitrato de amônio, entregá-lo ao exército libanês ou vendê-lo à uma empresa libanesa de explosivos privada. Uma carta enviada em 2016 diz que "os juízes não responderam" a pedidos anteriores.
A carta, obtida pela Al Jazeera, alega: "Em vista do sério risco de manter esses produtos no hangar em condições climáticas inadequadas, reafirmamos nosso pedido de solicitar à agência marítima que reexporte esses produtos para preservar a segurança do porto e daqueles que trabalham aqui, ou em concordar em vendê-lo para a Lebanese Explosives Company."
Mais uma vez, não houve resposta. Um ano depois, Badri Daher, o novo diretor Aduaneiro, escreveu a um juiz mais uma vez. Na carta de 27 de outubro de 2017, Daher pediu uma decisão sobre o assunto em vista do "perigo de deixar esses produtos no local". Quase três anos depois, o nitrato de amônio ainda estava no hangar.
O premiê libanês, Hassan Diab, afirmou que "todos os responsáveis por essa catástrofe pagarão o preço". Já o presidente Michel Aoun, que decretou estado de emergência por ao menos duas semanas, chamou o fracasso em lidar com o nitrato de amônio como "inaceitável" e prometeu a "punição mais severa" aos responsáveis.
Muitos libaneses foram rápidos em apontar o motivo da negligência: a imensa corrupção e a má gerência de um estado quebrado, administrado por uma classe política corrupta. O porto da cidade é conhecido localmente como "Caverna de Ali Baba e os 40 Ladrões", pela grande quantidade de fundos estatais que foram roubados.
As alegações incluem desvios de bilhões de dólares em receita tributária, que nunca chegaram ao tesouro do Líbano, esquemas para subestimar as importações, bem como acusações de suborno sistemático e generalizado para evitar o pagamento de impostos alfandegários.

Com danos em casas e prédios devido à explosão, 300 mil pessoas estão desabrigadas no Líbano

Mais da metade de Beirute teve danos, que são estimados em US$ 5 bi
Mais da metade de Beirute teve danos, que são estimados em US$ 5 bi
/JOSEPH EID/AFP/JC
Como a explosão no porto de Beirute danificou muitas casas e prédios, cerca de 300 mil pessoas ficaram desabrigadas. Autoridades libanesas ainda aguardam uma avaliação mais precisa feita por especialistas e engenheiros, mas os danos, que se estendem a mais da metade da área da capital são estimados em US$ 5 bilhões (R$ 26,4 bilhões).
A tragédia pode afetar também o abastecimento de comida, pois o porto de Beirute era a principal entrada de produtos no país. Havia silos de cereais perto do local da explosão, e milhares de toneladas se perderam. O governo disse que tem estoques de trigo para um mês de consumo, o que deve ser suficiente para evitar uma grande crise.
O governador Marwan Abboud, chorando, comparou a destruição à causada pelas explosões nucleares em Hiroshima, 75 anos atrás. "A situação é apocalíptica. Beirute nunca viveu isso em sua história."
A intensidade das explosões chegou a ser detectada pelo Serviço Geológico dos EUA, que monitora atividades sísmicas em todo o mundo. O impacto em Beirute foi registrado como equivalente a um terremoto de magnitude 3.3.
O sistema de saúde, já sobrecarregado pelo atendimento a paciente contaminados pelo coronavírus, agora luta para conseguir prestar primeiros socorros às vítimas da explosão. Países como França, Alemanha, Turquia, Rússia, Qatar e Irã anunciaram o envio de assistência médica, profissionais de saúde, hospitais de campanha, equipamentos cirúrgicos e equipes de busca e salvamento. Brasil, Estados Unidos e Reino Unido também já ofereceram apoio ao governo.
Localmente, uma rede de solidariedade também começou a se fortalecer nas redes sociais. Perfis em diferentes plataformas têm feito publicações para ajudar a localizar os desaparecidos e para oferecer moradia aos desabrigados.
O país atravessa sua pior crise econômica em décadas, marcada por depreciação monetária sem precedentes, hiperinflação, demissões em massa e restrições bancárias drásticas, que alimentam há vários meses o descontentamento social.
 

Embaixada brasileira sofreu avarias em janelas e móveis; Bolsonaro oferece ajuda ao Líbano

O Ministério das Relações Exteriores confirmou que a Embaixada do Brasil em Beirute foi atingida pelo impacto das explosões, mesmo estando localizada no centro da capital. Uma brasileira, esposa de um adido de Defesa da embaixada, segundo o ministério, sofreu ferimentos, mas passa bem.
Segundo o governo brasileiro, o impacto não causou danos estruturais ao prédio. "De modo geral, as salas voltadas para o local da explosão foram mais afetadas, com janelas estilhaçadas, desabamento do forro do teto, mobília e computadores seriamente danificados", esclareceu o Itamaraty.
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que o governo brasileiro fará "gesto concreto" para ajudar os libaneses. "O Brasil vai fazer mais que um gesto, algo concreto para atender em parte aquelas pessoas que estão numa situação complicada", afirmou em seu discurso, também manifestando condolências aos libaneses.
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