Porto Alegre, sexta-feira, 05 de junho de 2020.
Dia Mundial da Ecologia e do Meio Ambiente.

Jornal do Comércio

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POLUIÇÃO

05/06/2019 - 03h44min. Alterada em 05/06 às 07h11min

Uma incógnita que paira pelo ar da cidade

Fumaça do cigarro polui quatro vezes mais do que o aconselhável

Fumaça do cigarro polui quatro vezes mais do que o aconselhável


/MARCO QUINTANA/JC
Eduarda Endler
O que tem no ar que respiramos? A resposta é infeliz: não se sabe. Diferente de outras cidades, Porto Alegre não possui mais um sistema para monitorar a poluição do ar, pois os equipamentos foram desativados em 2017 por conta da falta de manutenção e calibragem, que prejudicavam a entrega de dados confiáveis.
O que tem no ar que respiramos? A resposta é infeliz: não se sabe. Diferente de outras cidades, Porto Alegre não possui mais um sistema para monitorar a poluição do ar, pois os equipamentos foram desativados em 2017 por conta da falta de manutenção e calibragem, que prejudicavam a entrega de dados confiáveis.
Segundo informações da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (Smams), os equipamentos não vinham sofrendo manutenção com a frequência necessária desde 2015, optando-se, então, pelo desligamento das estações dois anos depois. Atualmente, a Smams tem como principal instrumento de controle da qualidade do ar o licenciamento ambiental.
Em 2015, o Instituto Saúde e Sustentabilidade (ISS) divulgou um estudo em parceria com a Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio), que apontava a capital gaúcha como a segunda cidade mais poluída do País, apenas atrás do Rio de Janeiro.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a poluição do ar mata 50 mil pessoas no Brasil a cada ano. O ISS afirma que apenas 11 estados do Brasil monitoram o ar, e apenas 1,7% das cidades brasileiras possuem estações para este fim. Na Região Sul, somente 13 das 1.191 cidades realizam esse controle. No Rio Grande do Sul, o ISS registra apenas 20 estações, e a Capital não está entre elas.
Neste 5 de junho celebra-se o Dia Mundial do Meio Ambiente e a Organização das Nações Unidas (ONU) traz como temática deste ano a poluição do ar, convidando a sociedade a assumir o compromisso com a qualidade do ar e a chamar os amigos para fazerem o mesmo, compartilhando essa intenção nas redes sociais. A ONU coloca como exemplo a mudança nos meios de locomoção, sugerindo o uso do transporte público ou de caronas compartilhadas, andar mais de bicicleta ou a pé, trocar o carro por um híbrido ou elétrico e desligar o motor do carro quando estiver estacionado.
Para a professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Ufcspa), Cláudia Rhoden, quando se fale em meio ambiente, existem três termos que devem estar unidos: "Não tem como escapar da poluição do ar. A poluição da água, tenho como optar em não beber aquela água. Do ar, não tem. Eu acho que não dá para dissociar meio ambiente, educação e saúde. É um tripé. Se as pessoas não tiverem consciência do que significa a relação, ninguém vai ligar, o ar respira com mortes súbitas".
Cláudia explica que quando se fala em poluição, é preciso saber quais são os compostos em relação à saúde humana. A partícula que pode entrar nos pulmões é chamada de componente particulado, que é poeira resultante dessa poluição, uma das mais prejudiciais ao homem. Sem estações de monitoramento em Porto Alegre e com apenas equipamento de medição da qualidade do ar da própria universidade, chamado DustTrack, a população é prejudicada. "Qual a importância de uma estação de monitoramento? Se formos a São Paulo, por exemplo, existem dados da qualidade do ar e isso é importante como uma opção do cidadão para a tomada de atitudes", lamenta a professora.
Como exemplo de cuidado, ela cita a atividade física. "Tem dias que os níveis de poluição estão ruins. Então, eu não devo correr, porque quando a gente corre a gente tem o aumento da frequência respiratória, então, acaba inalando mais poluentes. E aqui não se tem essas medidas mais. Quando discutimos essa questão de poluição do ar, a gente fala que é uma questão de saúde pública", salienta.
De acordo com a OMS, a taxa de poluição deve ser reduzida para 10 mg/m3 (microgramas por metro cúbico). Quando aceso um cigarro no ambiente, por exemplo, o número pode chegar a 42,9 mg/m3, como mostra o experimento feito pela professora,  a pedido da reportagem, no Laboratório de Poluição Atmosférica da Ufcspa. 

Saúde X poluentes: pacientes expostos têm cursos mais graves de doenças pulmonares

Descuido em questões ambientais pode causar problemas de saúde pública
Descuido em questões ambientais pode causar problemas de saúde pública
/JOÃO MATTOS/ARQUIVO/JC
Eduarda Endler
Para o professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Ufcspa), Sérgio Amantéa, até pouco tempo questões sobre meio ambiente e poluição do ar eram ignoradas. Segundo ele, no entanto, doenças que tinham menor frequência entre a população obtiveram um crescimento no número de casos."Sabíamos que existia o componente genético, mas se percebeu o componente ambiental, que tem um papel importante no aumento da doença", explica. Segundo ele, pacientes expostos à poluição têm cursos mais graves de doenças, como asma, bronquiolite ou pneumonia.
Questionado se a população está mais doente por questões ambientais, Amentéa afirma que esta é uma ligação perigosa. "Sabemos que a doença é resultado de múltiplos fatores. Acreditamos que o poluente, de alguma maneira, é um fator a mais para influenciar a saúde da população. O efeito da poluição é medido a longo prazo, mas acreditamos que tenha um papel importante, sim."
Em questão aos mais prejudicados pela poluição, o médico explica não ter uma resposta exata, devido a inúmeros fatores.
"Quando se é criança e se está exposto a determinado poluente, se imagina que vai ter uma vida inteira submetido ao mesmo ambiente ou talvez pior. O adulto, dependendo da idade, de onde vive e atividade em que atua, pode ter sido muito insultado pelo poluente e até ter dano direto com relação a isso, como quem trabalha em zona carvoeira. Uma série de estudos mostram que essas pessoas têm maior dano à saúde. Mas  não sei responder o que faz mais mal, se é ser adulto e conviver em ambiente poluído ou ser criança e ter toda a perspectiva pela frente. Quando criança, acredito que a gente poder mudar. E acreditamos que exista uma nova consciência que possa interferir nisso", relata.
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