Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, sexta-feira, 12 de março de 2021.
Dia do Bibliotecário.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 12 de março de 2021.
Notícia da edição impressa de 12/03/2021.
Alterada em 12/03 às 03h00min

Quantos nomes de dramaturgas brasileiras lembramos?

Na semana do Dia Internacional da Mulher, o Theatro São Pedro teve a iniciativa de divulgar 25 cards, em seu Instagram, contendo referências a dramaturgas brasileiras do passado e do presente. Esta iniciativa certamente é significativa, tendo-se em vista a dificuldade que, em geral o dramaturgo - e imagine-se a dramaturga - tem para divulgar seu trabalho. E no caso de quem escreve para teatro, sobretudo se o próprio dramaturgo não for um produtor ou um diretor, a dificuldade de publicar seus textos ou vê-los encenados é quase insuperável, anda que mais recentemente tenham surgido algumas iniciativas específicas de editoras dedicadas à divulgação da dramaturgia contemporânea.
Na semana do Dia Internacional da Mulher, o Theatro São Pedro teve a iniciativa de divulgar 25 cards, em seu Instagram, contendo referências a dramaturgas brasileiras do passado e do presente. Esta iniciativa certamente é significativa, tendo-se em vista a dificuldade que, em geral o dramaturgo - e imagine-se a dramaturga - tem para divulgar seu trabalho. E no caso de quem escreve para teatro, sobretudo se o próprio dramaturgo não for um produtor ou um diretor, a dificuldade de publicar seus textos ou vê-los encenados é quase insuperável, anda que mais recentemente tenham surgido algumas iniciativas específicas de editoras dedicadas à divulgação da dramaturgia contemporânea.
Há cerca de três anos, tive a oportunidade de propor à Editora da Pucrs a publicação de uma coleção de textos de dramaturgas contemporâneas do Estado. A coleção reunia um grupo que se auto-organizou enquanto As dramaturga, e a série de livros, no formato de bolso, acabou ganhando o prêmio daquele ano, do Instituto Estadual do Livro, o que muito me alegrou.
Quem procure, contudo, nomes de dramaturgas ao longo do século XIX, no Brasil, como de resto no mundo inteiro, vai ter dificuldades. Muitas vezes, as dramaturgas, tanto quanto as romancistas, viram-se obrigadas a assinar suas obras com pseudônimos masculinos, que acabaram se celebrizando. No caso brasileiro, os cards destacam duas pioneiras, Maria da Cunha Zorro (1862-1917) e Anna Aurora de Amaral Lisboa (1860-1951). Sobre a primeira, temos alguns registros contraditórios sobre seu nascimento ter ocorrido em Portugal, São Paulo ou Porto Alegre, conforme as fontes consultadas. Mas sua dramaturgia teve espaço em Porto Alegre e suas peças chegaram a ser encenadas no Theatro São Pedro.
Quando fazia pesquisas para a tese de doutorado sobre folhetins publicados na imprensa porto-alegrense, entre 1850 e 1900, encontrei uma obra dramática de Anna Aurora do Amaral Lisboa. Chamou-me a atenção o inusitado da plataforma utilizada pela escritora. Professora, foi pioneira do que hoje conhecemos como cursos supletivos para adultos (na época, sobretudo de alfabetização). Feminista, escreveu obras com caráter acentuadamente pedagógico, como A culpa dos pais e As vítimas do jogo, além de textos de ficção, poemas e ensaios bastante contundentes.
O teatro infantil abriu espaço significativo, dentre outras, para Lúcia Benedetti, que pode ser considerada pioneira, mas quem se afirmou, de fato, foi Maria Clara Machado, criadora de O tablado, que formou atores e atrizes extraordinários, além de uma dramaturgia inteligente, sensível e criativa para os pequenos, propondo temas surpreendentes, como em Pluft, o fantasminha, a respeito de um fantasma-criança que tem medo de gente, ou relendo clássicos como Chapeuzinho vermelho, que ela abrasileirava com uma nova e divertida perspectiva.
Nos anos 1960, em pleno terror da ditadura implantada pelo golpe de 1964, e sobretudo após o Ato Institucional de 1968, o famigerado AI-5, três jovens dramaturgas se revelaram e se impuseram com desassombro, propondo perspectivas críticas ao contexto político mas, ao mesmo tempo, com um vezo claramente feminista. Foram elas Consuelo de Castro, Isabel Câmara e Leilah Assunção. Talvez esta última tenha se fixado mais em nossa memória, com textos provocativos como Fala baixo se não eu grito, além de outros trabalhos como Jorginho, o machão. Isabel Câmara, por seu lado, dentre outros trabalhos, escreveu As moças, em que discutia a questão das mulheres na sociedade preconceituosa brasileira. Consuelo de Castro foi talvez a mais especificamente militante política, com produções como À flor da pele, seu texto mais conhecido e encenado. Tive a sorte de assistir a todos estes espetáculos, na época de suas estreias e depois, em montagens locais.
Há outros nomes: Edy Lima celebrizou-se com A farsa da esposa perfeita, embora seus sucessos tenham sido livros dirigidos às crianças. Luisa Barreto Leite desenvolveu trabalho admirável, tanto no teatro, quanto no cinema e na televisão. Nestas primeiras décadas do século XX, tivemos dramaturgas de passagem, como Clarice Lispector, e outras que, embora essencialmente romancistas, produziram excelente obra dramática, como Raquel de Queiroz.
Podemos falar, ainda, das jovens dramaturgas gaúchas da atualidade. Mas o espaço terminou, o que mostra que há muito a se escrever sobre elas. Eis o bom empurrão para a nossa curiosidade a que o Theatro São Pedro nos levou.
 
Comentários CORRIGIR TEXTO