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Entrevista

Notícia da edição impressa de 16/07/2018. Alterada em 15/07 às 23h00min

Clovis Tramontina: 'Queremos que as pessoas vivam experiências'

Processos modernos e investimento nos funcionários são os maiores valores da Tramontina, diz o empresário

Processos modernos e investimento nos funcionários são os maiores valores da Tramontina, diz o empresário


/MARCELO G. RIBEIRO/JC
Tudo na vida deste gigante da indústria brasileira acontece pela missão que assumiu: o trabalho e, por consequência, a Tramontina, empresa fundada há 107 anos pelo avô. O que era uma pequena ferraria em Carlos Barbosa (RS) tornou-se um dos maiores complexos industriais da América Latina, em que oito mil funcionários produzem mais de 18 mil itens em 10 fábricas espalhadas pelo País - oito no Estado, uma em Belém (PA) e outra em Recife (PE). É pela expansão, consolidação e crescimento desse grande projeto que o empresário Clovis Tramontina se movimenta.
Aos 63 anos, ele quer inovar. Depois de uma longa tradição exclusivamente industrial, com um único varejo funcionando na matriz, em Carlos Barbosa, em 2013 liderou a expansão da marca para as fronteiras comerciais, para ter contato direto com o consumidor, oferecendo a ele um pouco da vivência do universo Tramontina. Ao mesmo tempo, quer as unidades fabris sempre na vanguarda da tecnologia e da inovação. Nos próximos dias, deve entrar no ar o desafio do e-commerce, mais um passo em direção ao consumidor. Mesmo assim, ao ser provocado para falar da sua liderança no setor, desconversa. "Não me vejo como líder. Sou apenas simples, sincero e verdadeiro", sentencia.
Entre casos de viagens, histórias familiares, memórias e ideias, Tramontina falou sobre o novo momento da empresa e sobre o futuro dos negócios e do País.
Jornal do Comércio - A Tramontina é uma indústria que percebeu a importância da relação com o consumidor. Como foi esse processo?
Clovis Tramontina - Tenho 37 anos de carreira na área comercial da Tramontina. E a verdade é que tudo mudou nesse período. O comércio era totalmente diferente, a internet não existia, ainda havia o armazém, e as grandes redes de supermercado começavam a surgir na década de 1980. Vender era fazer uma bonita exposição e chamar gente para a loja. O mercado não era aberto, então se vendia qualquer coisa. Em 1990, quando se abriu o mercado, mudou tudo. A concorrência mundial começou. Hoje, comemos uma legítima massa feita na Itália aqui em Carlos Barbosa, assim como se pode comprar uma faca Tramontina em Papua, Nova Guiné. O mundo ficou plano.
JC - Como a empresa viu a necessidade de investir em unidades próprias de varejo?
Tramontina - Você imagina a Tramontina, uma empresa centenária que tem foco totalmente industrial. Nós tínhamos somente os varejos de Carlos Barbosa e de Farroupilha, duas lojinhas pequenas, de fábrica. Lá por 2009, 2010, começamos a discutir mais seriamente a possibilidade de investir no varejo próprio. Queríamos mostrar a enorme gama de produtos a ser exposta. Assim criamos as T-Stores Tramontina. Elas são uma espécie de laboratório para que os varejistas possam enxergar oportunidades de melhorar o seu ponto de venda e o seu mix de produtos. Queremos que as pessoas vivam experiências ao visitar o espaço, que é uma Disney para quem gosta de casa e cozinha.
JC - As lojas não representam uma concorrência com os varejistas?
Tramontina - Não é a nossa intenção. No começo, foi um ruim com os clientes lojistas, sim (risos). Mas depois que eles entenderam a proposta, não houve mais conflitos. Pelo contrário. Aumentou a venda para o varejo nos mercados onde estão as T-Stores.
JC - A chegada da internet também alterou a relação da marca com o consumidor?
Tramontina - Quando chega a internet muda tudo de novo. Queremos que o e-commerce seja oportunidade para que as pessoas conheçam a gama de produtos. As gôndolas e as lojas não são elásticas, não dá para botar mais produtos do que comporta o espaço físico. Mas no e-commerce podemos ter os 18 mil produtos que a Tramontina fabrica. Assim, fortalecemos a marca, oferecendo ao consumidor uma experiência estendida, que começa na T-Store e continua no e-commerce. Ou vice-versa. É uma ampliação da venda.
JC - Qual o futuro da companhia, que já cumpriu o seu primeiro século de história?
Tramontina - Nosso futuro é a internacionalização, pois o mercado lá fora é muito grande. Já temos 16 estruturas no exterior e um núcleo internacional em Porto Alegre que prospecta novas oportunidades. No Brasil, o mercado é limitado. E já temos a liderança aqui, que queremos manter, enquanto crescemos lá fora. Para isso, uso um ensinamento que aprendi com o meu pai, o Ivo, já falecido, e com o seu Ruy Scomazzon, sócio do meu pai e meu padrinho de batismo, que é estar sempre na vanguarda em termos de fábrica. Equipamentos e processos modernos e investimento nas pessoas são os maiores valores da Tramontina, que nunca iremos abandonar. É muito fácil andar por qualquer setor da empresa e encontrar gente com mais de 40 anos de trabalho, gente que não tem outra assinatura na carteira profissional. Esse é o nosso segredo.
JC - Como a Tramontina enfrenta a concorrência com os importados, especialmente os chineses?
Tramontina - O produto chinês, quando chegou aqui, era muito ruim. Hoje não. São baratos e cada vez melhores. Os produtos coreanos eram os piores, mas hoje já têm muita qualidade. Concorrer com eles vai ser cada vez mais difícil. Por isso, o Brasil precisa fazer o dever de casa, diminuindo o custo do País e reduzindo o tamanho do Estado. Também precisamos de infraestrutura. A Região da Serra exporta grande parte dos produtos manufaturados do Rio Grande do Sul, mas não tem uma estrada. Se projetarmos uma rodovia hoje, ela só ficará pronta, com otimismo, em cinco anos. Como estaremos escoando a produção até o porto do Rio Grande em cinco anos? Da porta da fábrica para dentro, somos competitivos em qualquer lugar do mundo. O problema é da porta para fora.
JC - A carga tributária contribui para o alto custo dos produtos brasileiros, como os da Tramontina?
Tramontina - Quem compra um produto Tramontina paga impostos duas vezes. Nós, empresários, pagamos para que tudo esteja formalizado. E quem compra paga impostos sobre os mesmos produtos. Então, a reforma fiscal no Brasil não precisaria necessariamente baixar impostos. Bastaria simplificar. As fábricas não têm que pagar imposto. Quem tem que pagar é o consumidor final. Por que hoje, todas as alíquotas e toda a burocracia acabam, de qualquer maneira, se refletindo no custo final do produto. E o consumidor paga do mesmo jeito, sem saber.
JC - A reforma trabalhista já teve reflexos no setor produtivo?
Tramontina - Sim, certamente. As reclamatórias diminuíram e, o mais importante, foi melhor para o trabalhador. A flexibilidade é boa para todo mundo. Pergunta para as trabalhadoras de Carlos Barbosa se elas queriam o intervalo de 15 minutos obrigatório no meio do expediente? Claro que não. Elas foram protestar em frente ao sindicato para acabar com isso. Elas querem é flexibilidade, possibilidade de cumprir a sua jornada e ir para a casa mais cedo.
JC - O senhor vê um futuro político promissor para o País?
Tramontina - Na Rússia, Putin está aproveitando o momento para fazer as reformas necessárias. Se ele terminar bem essa Copa, e vai terminar, a popularidade volta a crescer. Aqui, por outro lado, a situação política está incerta. Nós não temos um candidato! Política é política, tem que ser, e as posições radicais não acrescentam. Nós, empresários, queremos que os governos deem certo para que possamos trabalhar. Lula foi o grande líder que poderia ter mudado o País, mas não o fez. Faltam lideranças, inclusive na área empresarial. Mas vejo avanços também. Desejo um País mais justo, mais organizado, com menos polêmicas e mais reformas.
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