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15 anos sem brizola

- Publicada em 21h25min, 20/06/2019. Atualizada em 21h24min, 20/06/2019.

Não havia condições de resistir ao golpe, avalia Bastos

Amigo de Leonel Brizola, jornalista Carlos Bastos acompanhou de perto o Movimento da Legalidade

Amigo de Leonel Brizola, jornalista Carlos Bastos acompanhou de perto o Movimento da Legalidade


/MARCELO G. RIBEIRO/JC
Marcus Meneghetti
Há 15 anos, em 21 de junho, morria o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, ex-prefeito de Porto Alegre, ex-deputado federal e estadual, Leonel Brizola (PDT). Amigo próximo do ex-governador, o jornalista Carlos Bastos - ex-editor de Política do Jornal do Comércio - participou do Movimento da Legalidade, liderado por Brizola, em 1961.
Há 15 anos, em 21 de junho, morria o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, ex-prefeito de Porto Alegre, ex-deputado federal e estadual, Leonel Brizola (PDT). Amigo próximo do ex-governador, o jornalista Carlos Bastos - ex-editor de Política do Jornal do Comércio - participou do Movimento da Legalidade, liderado por Brizola, em 1961.
O episódio retardou o golpe militar em três anos e garantiu que, diante da renúncia de Jânio Quadros (PTN, 1961), o vice João Goulart (PTB), Jango, assumisse a presidência. Na época, Bastos acompanhou a posição de Brizola, contrária à posse de Jango no sistema parlamentarista. Em 1964, também apoiou o fundador do PDT na ideia de resistir ao golpe.
Entretanto, nesta entrevista ao JC, revela que, com o tempo, passou a concordar com Jango, tanto na decisão de aceitar o parlamentarismo quanto na de não resistir ao golpe. "Depois que soube que a esquadra americana estava no mar territorial brasileiro (a chamada Operação Brother Sam, em 1964), percebi que o jogo já estava jogado", admite. Além desta entrevista, o JC republica na próxima semana uma série de artigos de Carlos Bastos, escritos logo após o falecimento de Brizola. 
Jornal do Comércio - Como jornalista, o senhor cobriu a gestão Brizola na prefeitura de Porto Alegre (1956-1958) e no governo do Estado (1959-1963). Qual a lembrança que têm desse período?
Carlos Bastos - O Brizola era um realizador de obras. Na prefeitura, já implantou muitas escolas. Também fez o aterro do Beira-Rio. O Guaíba vinha até onde hoje é a avenida Praia de Belas. Toda aquela região onde fica o Marinha do Brasil e o estádio do Internacional foi aterrado na gestão do Brizola. Como governador, criou a Caixa Econômica Estadual, a siderúrgica Aços Finos Piratini. Também na administração dele foi criado o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul). Construiu ainda a Estrada da Produção, que sai de Canoas e vai até o norte do Estado, Palmeiras das Missões, Ijuí. E, claro, implementou uma quantidade surpreendente de escolas. Enfim, os grandes fatos dos governos dele foram, na parte política, o Movimento da Legalidade; e, na parte de realizações, a construção de um número impressionante de escolas.
JC - Aliás, o senhor acompanhou de perto a Legalidade.
Bastos - Eu trabalhava na Última Hora e fiquei todo o período da Legalidade na assessoria de imprensa do Palácio (Piratini), que foi onde funcionou a Rede da Legalidade.
JC - Trabalhou no mesmo estúdio onde Brizola fazia os discursos.
Bastos - No estúdio, assisti a todos os discursos do Brizola.
JC - Como era o ambiente dentro do Palácio?
Bastos - Na frente do Palácio, durante todo o período da Legalidade, tinha sempre umas 5 mil pessoas. Lá dentro, tinha muitos jornalistas, inclusive estrangeiros. Tinha alemães, americanos, ingleses, espanhóis, argentinos. Eu permaneci ali todos aqueles dias da Legalidade. Eu só ia para casa para tomar banho, trocar de roupa e voltava. Fazia as refeições ali perto, na Praça da Matriz. E, como disse, sempre tinha uma multidão na frente do Palácio. Nos dois primeiros dias, não era uma multidão. Mas, a partir do terceiro, sim, quando os tanques do Exército vieram da Serraria e todo mundo achou que iam atacar o Palácio. Eles vieram para ficar ali atrás do quartel do Terceiro Exército.
JC - Com a ordem para o Terceiro Exército atacar o Palácio Piratini, como foi a tensão na sede do governo?
Bastos - Essa foi a cena que mais me impressionou em toda a minha vida. O Brizola anunciou a ordem para o Terceiro Exército bombardear o Palácio, no célebre discurso das 11h da manhã do dia 26 de agosto (veiculado na cadeia de rádios da Legalidade). O que me impressionou foi que, quando ele começou a falar no estúdio do Piratini, por volta das 11h, tinha umas 5 mil pessoas na Praça da Matriz. Ele falou durante uma hora. Quando terminou o discurso, tinha 50 mil pessoas. Eu me emociono ao lembrar disso. A politização do povo gaúcho era impressionante. Ele estava anunciando que veio ordem para o Terceiro Exército bombardear o Palácio Piratini. E, mesmo assim, juntou 50 mil pessoas na frente do Palácio. A causa era nobre: cumprir a constituição e garantir a posse do vice-presidente João Goulart, diante da renúncia do presidente Jânio Quadros.
JC - Foi nesse momento que as pessoas receberam armas e foram feitas trincheiras no Piratini?
Bastos - Nem todas as pessoas receberam armas. Mas muita gente. Principalmente, as que estavam dentro do palácio. Também foram feitas trincheiras ao redor e no teto do Palácio, onde havia um pátio.
JC - O senhor recebeu uma arma também?
Bastos - Eu fiquei com um revólver Taurus, que eu nunca usei. Depois do movimento, devolvi.
JC - Felizmente, o comandante do Terceiro exército, General Machado Lopes, descumpriu a ordem de atacar o Piratini...
Bastos - Logo depois do discurso do Brizola, o Machado Lopes foi ao Palácio e aderiu ao movimento da Legalidade. Ele tinha conversado com o Brizola por telefone, no dia da renúncia do Jânio. O Brizola ligou para ele, sondando qual seria a posição dele. Ele disse no telefone: "eu sou um soldado, sigo o Exército". Então, quando aderiu ao Movimento da Legalidade, na verdade, ele mudou de posição.
JC - O que o senhor acha que fez o general Machado Lopes mudar de ideia?
Bastos - O que levou ele a mudar de posição? Creio que foi o fato de todos os comandantes do Estado terem aderido à Legalidade, com exceção do de Bagé. Todos comandantes de unidades importantes, todos genreais do Terceiro Exército estavam solidários com o movimento da Legalidade. Então, ele foi mais ou menos empurrado a essa decisão.
JC - E o rompimento de Brizola com Jango?
Bastos - Na prática, não houve um rompimento. Eles divergiram de posição. Isso ficou evidente, porque o Brizola não aceitava o parlamentarismo. O Jango aceitou. Embora o Brizola divergisse disso, nunca se manifestou contra. Mas, acompanhando os episódios dentro do palácio, reparei uma coisa: o Brizola não falou mais nada na rede da Legalidade, depois que o Jango aceitou o parlamentarismo. Antes, ele falava três, quatro, cinco vezes por dia. Então, o Brizola divergiu, mas não confrontou.
JC - Então, eles só romperam em 1964...
Bastos - Isso. A briga feia foi no golpe de 64, na reunião na casa do comandante do Terceiro Exército. O Jango não quis resistir e o Brizola queria a resistência. Mas o rompimento mesmo aconteceu no Uruguai, no exílio. Tanto que o Brizola foi para lá no avião do Jango. Interessante que o Brizola era casado com a Neuza, irmã e muito próxima do Jango. Mas as duas famílias permaneceram afastadas no Uruguai, por 10 anos, mesmo morando na mesma cidade.
JC - Qual a sua opinião? Em 1961, Jango deveria ter aceitado o parlamentarismo? E, em 1964, deveria ter resistido?
Bastos - No momento em que tudo aconteceu, eu era partidário de não aceitar o parlamentarismo e também de resistir em 1964. Mas, depois que soube que a esquadra americana estava no mar territorial brasileiro (a chamada Operação Brother Sam), percebi que o jogo já estava jogado. Essa é a verdade. Percebi que o movimento não teria condições de chegar a Brasília em 61. E, em 64, não havia condições de resistir. Uns quatro anos antes da morte do Brizola, disse para ele: "governador, naquele momento fui solidário a sua posição, mas hoje eu divirjo". Mas o Brizola era durão. Quando ele pensava uma coisa, não mudava de opinião. "É, mas tu estás enganado. Dava para resistir em 61 e 64; se o Jango não aceitasse o parlamentarismo, a gente chegaria a Brasília".
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