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Porto Alegre, quinta-feira, 06 de junho de 2019.

Jornal do Comércio

Internacional

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Venezuela

Edição impressa de 06/06/2019. Alterada em 06/06 às 03h00min

Mortes de crianças expõem crise na Venezuela

No dia do velório de Erick, amigos e manifestantes levaram brinquedos para enfeitar seu caixão

No dia do velório de Erick, amigos e manifestantes levaram brinquedos para enfeitar seu caixão


MARVIN RECINOS/AFP/JC
Entre as tantas tragédias da crise humanitária venezuelana, a mais recente a levar as pessoas a protestar nas ruas é a sequência de mortes de crianças que esperavam transplante de medula no Hospital José Manuel de los Ríos, em Caracas. A principal instituição médica infantil do país, assim como as demais estatais da Venezuela, foi perdendo sua capacidade de atender crianças com distintos tipos de câncer ao longo do tempo. Ainda que tenha 420 leitos e, até pouco tempo atrás, capacidade de manter o atendimento com a casa lotada, o hospital, agora, por falta de recursos, atende somente 86 pacientes.
Apenas em maio, morreram quatro crianças que esperavam um transplante de medula: Giovanni Figuera, de seis anos, Robert Redondo, sete, Yeiderberth Requena, oito, e, o mais recente, Erick Altuve, 11. Também em maio morreram Yoider Carrera, de dois anos, e Nicole Díaz, de três, que não aguardavam por um transplante, mas com tipos de câncer para os quais o hospital não tinha tratamento.
Uma multidão acompanhou o velório de Erick. Os pais das outras crianças, mortas ou à espera de transplante ou tratamento, já vinham convocando manifestações na porta do hospital havia cinco meses. A morte do menino parece ter sido a gota d'água.
Após os protestos, o presidente Nicolás Maduro afirmou que o corte de verbas para o hospital ocorre devido às sanções norte-americanas e por cumplicidade da oposição venezuelana, que as estariam estimulando. "Este discurso é absurdo, uma vez que foi Maduro quem não quis renovar um convênio que tínhamos com o governo da Itália, que nos ajudou com mais de 80 transplantes nos últimos anos", diz à reportagem da Folha de S.Paulo a deputada Manuela Bolívar, do partido Vontade Popular.
Manuela contou também que os pais estão recolhendo várias acusações contra os diretores do hospital, que, segundo eles, estariam desviando remédios - até mesmo medicamentos para aliviar a dor das crianças. A médica italiana Enrica Giavatto, que cuidava das crianças venezuelanas na Itália quando o convênio ainda existia, disse que "a situação é desesperadora". "Não tem uma solução. Pouco a pouco, os outros vão morrer também."
A saúde na Venezuela hoje funciona em duas instâncias: a pública, que está colapsada, e a privada, que tampouco funciona muito melhor, porque "quem precisa fazer uma intervenção ou uma cirurgia precisa conseguir, no mercado negro, todo o material necessário, da bata usada pelos médicos ao bisturi e até a anestesia", conta o médico Franco Sorge. E o mercado negro, segundo ele, alimenta-se de drogas e materiais trazidos do exterior ou desviados dos hospitais públicos, por funcionários e até mesmo por diretores. "Formou-se um negócio, uma máfia por trás da venda ilegal desses remédios", denuncia.
A história de Erick comoveu o país, pois era um menino pobre, que vivia na favela do Petare, em Caracas, e tinha um linfoma não Hodgkin. No dia de seu velório, amigos e manifestantes levaram brinquedos para enfeitar seu caixão.
"Maduro diz que não há dinheiro para cuidar das crianças, mas acaba de gastar € 50 milhões na compra de uniformes militares, e outros € 7 milhões para produzir fuzis. Nosso convênio com a Itália custava ao governo € 10 milhões. Então não é possível dizer que falta dinheiro por conta da sanção dos Estados Unidos", diz Manuela.
O barulho nas ruas fez com que Maduro anunciasse que quatro dos 26 menores internados no hospital viajarão a Cuba para se tratar, "devido à generosidade do povo cubano, sempre solidário com a irmã Venezuela". A questão é que os outros 22 ficarão no hospital e, sem transplante, segundo os médicos, também morrerão. Os protestos de rua em apoio às crianças estão sendo convocados na internet com a hashtag #NiUnNiñoMas.
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