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Entrevista

- Publicada em 18h41min, 04/06/2020. Alterada em 10h09min, 05/06/2020.

É preciso apontar soluções, defende Lara Lutzenberger

Reciclagem é um dos fundamentos básicos da ecologia, defende Lara

Reciclagem é um dos fundamentos básicos da ecologia, defende Lara


/MARCO QUINTANA/JC
Osni Machado
Filha do pioneiro da ecologia José Lutzenberger, a bióloga Lara Lutzenberger seguiu os passos do pai e, hoje, comanda a empresa Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico, além de presidir a Fundação Gaia. Lara ainda se emociona ao falar da trajetória do pai e dos 40 anos da Vida, que transforma resíduos industriais em produtos como adubo."A reciclagem é um dos fundamentos básicos da ecologia", salienta.
Filha do pioneiro da ecologia José Lutzenberger, a bióloga Lara Lutzenberger seguiu os passos do pai e, hoje, comanda a empresa Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico, além de presidir a Fundação Gaia. Lara ainda se emociona ao falar da trajetória do pai e dos 40 anos da Vida, que transforma resíduos industriais em produtos como adubo."A reciclagem é um dos fundamentos básicos da ecologia", salienta.
A empresa, recentemente, ampliou sua atuação para tratar os resíduos da CMPC, que quadruplicou a produção de celulose em Guaíba. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Lara destaca o ensinamento prático de Lutzenberger na defesa pelo meio ambiente."Não basta criticar, é necessário mostrar soluções. Foi nessa ótica que ele empreendeu o diálogo. E daí surgiu todo este trabalho, que amadureceu até os dias atuais. E, hoje, é a essência da empresa Vida, é o foco do nosso trabalho."
Jornal do Comércio - Como surgiu a empresa Vida?
Lara Lutzenberger - A empresa tem 40 anos, dos quais 32 de experiência no que se tornou o seu foco: a reciclagem de resíduos de indústrias de celulose. A consolidação nessa área surgiu da aproximação de meu pai com a então Riocell, sucessora da combatida Borregard, em Guaíba. Na busca de soluções para o enfrentamento do passivo ambiental da indústria, ele foi convidado a contribuir - desafio que ele prontamente acolheu por conta de sua postura propositiva. Meu pai tinha claro que a crítica pela crítica é improdutiva.
JC - Como?
Lara - Sua trajetória militante foi pautada pela busca de soluções ao enfrentamento dos problemas que ele apontava. Alguns colegas ambientalistas tinham dificuldade em entender essa postura, confundindo-a com permissividade. Nada mais equivocado, pois só através da abertura ao diálogo e da busca concreta por soluções é que se faz possível avançar. Engenheiro-agrônomo e com excelente formação em ciências naturais, logo teve a ideia de fechar o ciclo produtivo, retornando ao campo a matéria orgânica dispensada pela indústria. Fez experimentos, investigou e projetou um sistema de fermentação e secagem que tornou isso possível.
JC - Como funciona esse trabalho?
Lara - Resíduos sólidos da indústria de celulose são compostos por cascas, cavacos, rejeito de digestor, lodo da ETE (estação de tratamento de efluentes), lama de cal e cinzas. No lugar de acumular volumes gigantescos dessas substâncias em aterros, ou, pior, despejá-las no leito de rios, estes passaram a ser beneficiados para retornarem ao campo, serem utilizados em jardins e em novos processos industriais, como nas indústrias papeleiras, cimenteiras e de compensados, por exemplo, ou, ainda, na geração de energia como biomassa de caldeiras. Considerando que a agricultura e a jardinagem também demandam o uso de fertilizantes, na ausência dessa opção, o extraem da natureza gerando novo impacto. Em paralelo aos estudos para o aproveitamento dos resíduos, ele recuperou a área de entorno da planta fabril em Guaíba, aterrada e feia, transformando-a em um lindo parque. Ele sanou o problema dos resíduos e deixou a fábrica bonita, tornando-a exemplo para o mundo.
JC - Nos 18 anos da morte de Lutzenberger, a Vida mostra de que as ideias dele seguem vivas?
Lara - Sem dúvida, vivas e aplicadas! A empresa Vida foi iniciada por ele e se orienta pela materialização da sua visão sistêmica, atualizada aos dias de hoje. Está mais do que nunca claro que orientar nossos negócios pela dinâmica ecológica é o único caminho seguro de gerar renda e prover bens sem comprometer a sustentabilidade planetária. A reciclagem é um dos fundamentos básicos da ecologia. No Rincão Gaia, sede da Fundação Gaia - Legado Lutzenberger, resultado de décadas de regeneração ambiental, oferecemos aos visitantes experiências de reconexão com a vida. Lamentavelmente, a imensa parte da humanidade, incluindo muitas de nossas lideranças nacionais e mundiais atuais, vivem como se só nós importássemos, arruinando com o resto e nos autoinserindo em um contexto de pura miséria.
JC - Quais os principais serviços prestados pela Vida?
Lara - A empresa Vida se especializou em viabilizar uma economia circular no âmbito da produção de papel e celulose de base florestal. Indústrias de celulose se diferenciam nos volumes e nas características dos resíduos gerados, bem como nos contextos geográficos e nas matrizes produtivas regionais, demandando soluções individualizadas. Nossa equipe estuda esse conjunto de variáveis, projeta processos e estruturas viáveis para cada caso, assume a operação das respectivas centrais de reciclagem e a comercialização de resíduos e produtos derivados.
JC - A sede da Vida em Eldorado do Sul foi triplicada quando a CMPC ampliou a fábrica de Guaíba. Qual é o tamanho hoje?
Lara - A CMPC quase quadruplicou sua produção, quando da recente ampliação, mas a geração de resíduos não chegou a triplicar, por conta da evolução dos equipamentos na indústria. Nossa empresa tem 15 hectares em Eldorado do Sul, onde temos a planta fabril para peneiramento, ensacamento e venda dos produtos oriundos da reciclagem. A área das centrais de reciclagem vinculadas à CMPC soma 70 hectares, com estrutura para a fermentação e a secagem dos resíduos manejados pela Vida. Temos 228 funcionários.
JC - Quanto foi investido na ampliação da Vida?
Lara - Somando recursos da CMPC e da Vida, foram investidos cerca de R$ 60 milhões para operar os dois hortos destinados ao beneficiamento dos resíduos da CMPC. A maior parte dos investimentos é feita pelas indústrias, e não pela Vida, que projeta e opera, mas não é proprietária das respectivas centrais de reciclagem.
JC - Além da CMPC, há outras plantas industriais que são clientes da empresa Vida?
Lara - Sim, a CMPC é nosso trabalho mais antigo e emblemático, tudo começou ali. Mas estamos também junto à Veracel/Suzano e à Stora Enso, no sul da Bahia, iniciando trabalhos junto à nova planta de Três Lagoas/Suzano, em Mato Grosso do Sul, e com perspectivas de inserção na planta de Imperatriz/Suzano, no Maranhão.
JC - Algum investimento?
Lara - Sim, em Três Lagoas e em Imperatriz, mas, neste momento, ambos processos estão bastante paralisados por conta da pandemia da Covid-19.
JC - Quais são os projetos para o futuro da empresa?
Lara - Seguir prestando serviço que prime pela qualidade e que seja efetivo e responsável na destinação dos resíduos das indústrias.
JC - E a reciclagem do lixo em casa pela população?
Lara - É o que há de mais simples para diminuir a contaminação e o desperdício gerado pelos nossos padrões de consumo. Mas coooomo custa fazer com que todos participem... Tantas campanhas e ainda estamos em patamares de reciclagem pífios.
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