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Porto Alegre, terça-feira, 19 de março de 2019.

Jornal do Comércio

Cultura

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cinema

Edição impressa de 19/03/2019. Alterada em 19/03 às 01h00min

Cláudio Guerra admite crimes cometidos na ditadura militar em documentário

Ex-delegado e hoje pastor, Cláudio Guerra admite em documentário mortes de nove pessoas

Ex-delegado e hoje pastor, Cláudio Guerra admite em documentário mortes de nove pessoas


ARTHOUSE/DIVULGAÇÃO/JC
Cláudio Guerra analisa cada uma das fotografias de vítimas da ditadura que são projetadas diante dele. "Esse foi executado por mim", diz ele, casualmente, apontando para um rosto. "Já esse aqui foi incinerado por mim." O olhar, impassível, avança sobre outras imagens. "Esse aqui também."
É assim, com frieza chocante, que o homem assume ter executado pelo menos nove e queimado os corpos de 12 pessoas ligadas a movimentos de esquerda durante o período em que trabalhou como delegado e agente do SNI (Serviço Nacional de Informações) e do Dops do Espírito Santo, nos anos 1970. O depoimento é registrado no documentário Pastor Cláudio, em cartaz no Cinebancários, em Porto Alegre, com sessão às 19h.
Durante pouco mais de uma hora, Guerra relembra, em entrevista a Eduardo Passos, psicólogo e ativista de direitos humanos, os assassinatos e os desaparecimentos pelos quais foi responsável. Chega a simular o momento em que deu um tiro à queima-roupa em Nestor Vera, integrante do Partido Comunista Brasileiro. O jornalista estava preso a um pau-de-arara, "mais morto do que vivo".
"Esse me marcou. Ele estava ajoelhado. Atirei na cabeça. Foi um gesto de misericórdia", descreve Guerra. É a única vez durante o documentário que ele admite ter sentido pena. As outras execuções, afirma, foram "atos impessoais". Estava, afinal, "cumprindo ordens".
Cláudio Guerra falou à Comissão da Verdade, em 2014, e deu depoimentos para o livro Memórias de uma guerra suja, publicado em 2012 por Rogério Medeiros e Marcelo Netto. Mas vê-lo no cinema é diferente, argumenta a diretora Beth Formaggini, que filmou a entrevista durante quatro horas, em 2015.
"Palavras faladas têm peso porque você vê as frestas entre elas. A forma com que ele fala evidencia as violações cometidas. Causou incômodo em toda a equipe. É a verdadeira banalidade do mal", define a cineasta.
Inicialmente oficial de Justiça de Minas Gerais, Guerra conquistou a confiança dos militares porque "odiava o comunismo". Pelas suas contas, executou "uma ou duas pessoas no Rio". Em São Paulo, foram três. Uma delas estava parada no ponto de ônibus. Houve também vítimas em Recife e Belo Horizonte. Não sabia o nome de ninguém. O objetivo, diz, era dificultar a elucidação dos crimes em caso de eventual investigação.
As ordens jamais eram documentadas. Chegavam de forma oral, por meio do seu chefe direto, o militar Freddie Perdigão Pereira, integrante da Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), um centro clandestino de tortura e assassinato. Os corpos chegavam de lá até a Usina Cambahyba, em Campo dos Goytacazes (RJ), embalados em sacos pretos, onde eram incinerados. Antes disso, Guerra abria os sacos e olhava para as vítimas, só "por curiosidade".
"Precisamos lembrar que o Brasil ainda é um país terrivelmente cruel do ponto de vista dos direitos humanos. O próprio Cláudio diz que os financiadores do golpe de 1964 estão na ativa. Se não encararmos essas questões, corremos o risco de voltar àqueles tempos", alerta Beth.
O nome do longa se refere ao fato de que Guerra, hoje, é bispo evangélico. No início da projeção, o entrevistado pede para ser chamado de pastor, função da qual diz se orgulhar. Em seguida, levanta da cadeira e retorna com uma grande Bíblia, que mantém sobre o colo durante toda a conversa com Eduardo Passos. O ato, aparentemente banal, provocou ansiedade entre quem estava no estúdio, revela o psicólogo:
"Quando desmontamos o set e o Cláudio foi embora, confessei à equipe ter sentido medo de haver uma arma dentro da Bíblia. Para a minha surpresa, todos admitiram ter pensado a mesma coisa", relembra Passos.
Na análise do psicólogo, Guerra se coloca como vítima. O ex-delegado, por exemplo, afirma se sentir perseguido até por parte da direita, que o considera um traidor. Diz, ainda, provocar medo em pessoas que não sabem que ele mudou "para melhor".
Em entrevista à Agência Globo, Cláudio Guerra evitou falar em remorso ou arrependimento. "Eu não faria hoje o que fiz no passado. Fiz porque eu era um soldado. Obedecia ordens. E por razão ideológica. Eu realmente acreditava que o comunismo era uma ameaça. Sinto tristeza de ter participado. Nosso País não merece nada disso", afirma o pastor, que nega ter dado os depoimentos "pelos holofotes", e sim para que seus erros sirvam de exemplo para a geração atual.
A cineasta Beth questiona a Lei da Anistia de 1979, que beneficiou Cláudio Guerra. "Desaparecimento político é um crime eterno. Uma mãe que não enterrou o filho continua esperando-o entrar pela porta. Pessoas como o Cláudio deveriam estar presas ou, no mínimo, ser julgadas", finaliza.
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