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opinião econômica

- Publicada em 05 de Agosto de 2024 às 18:57

Determinantes da riqueza

Michael França, economista, doutor em Teoria Econômica pela Universidade de São Paulo; foi pesquisador visitante na Universidade Columbia e é pesquisador do Insper.
Michael França, economista, doutor em Teoria Econômica pela Universidade de São Paulo; foi pesquisador visitante na Universidade Columbia e é pesquisador do Insper.
A percepção dos chineses em relação às causas da pobreza e riqueza tem se transformado nas últimas décadas. Um artigo recente publicado na revista The Economist chamou a atenção para o fato de eles terem passado a responsabilizar o sistema econômico, não a falta de esforço, pela desigualdade.
Pesquisas conduzidas por Scott Rozelle e Martin Whyte sugerem que, na década de 1990, os chineses aceitavam a crescente desigualdade do país, na esperança de que teriam oportunidades de ascensão social no futuro próximo. No entanto, essa expectativa não se concretizou, o que pode ter provocado uma mudança gradual em suas crenças.
Em 2004, os chineses acreditavam que a principal razão pela qual as pessoas eram pobres estava ligada à falta de capacidade e esforço. No mesmo período, habilidades e talento eram apontados como os principais fatores de riqueza, seguidos pela educação, com o trabalho duro ocupando a terceira posição como fator explicativo para o sucesso econômico.
Cerca de 20 anos depois, as principais razões apontadas para a pobreza passaram a ser a injustiça e as oportunidades desiguais. Em relação à riqueza, as conexões pessoais são vistas como o fator determinante, seguidas por crescer em uma família rica e ter acesso a boas oportunidades.
Essa mudança de percepção não parece ser passageira. Pelo contrário, reflete um gradual despertar para os verdadeiros motores que impulsionam as disparidades ao redor do mundo. Durante muito tempo, propagou-se a ideia de que o indivíduo era o único protagonista de sua história. Atualmente, pesquisas têm mostrado que fatores fora de seu controle desempenham um papel maior do que se acreditava anteriormente.
Nos Estados Unidos, um conjunto de pesquisas conduzidas por Raj Chetty, dentre outros pesquisadores, tem indicado que o sonho americano não é fruto apenas do trabalho árduo. No país visto como a terra das oportunidades, a loteria do nascimento também passou a ditar os rumos de grande parte das histórias individuais ("Social capital I: measurement and associations with economic mobility").
O contexto parece ser ainda pior no Brasil. O estratificado país das capitanias hereditárias nunca perdeu seus laços aristocráticos. Diogo Britto e coautores mostram que crianças nascidas de pais mais pobres apresentam 46% de chance de permanecer nessa condição quando adultas ("Intergenerational Mobility in the Land of Inequality").
No caso dos chineses, muitos perceberam que as oportunidades não eram tão acessíveis quanto pareciam. À medida que o forte crescimento econômico do país começou a desacelerar, a população tornou-se impaciente com as dificuldades de ascensão social. Essa percepção contribuiu para um reconhecimento progressivo de que fatores como conexões e privilégios de classe sobressaem na explicação do sucesso econômico.
O lento despertar também foi influenciado pelo avanço do nível educacional e pelo acesso a diversos meios de comunicação. A educação amplia as possibilidades de conscientização sobre temas anteriormente negligenciados. A maior disponibilidade de internet e de meios de comunicação alternativos, embora altamente censurados pelo governo chinês, trouxe aos cidadãos perspectivas que ajudaram a questionar e, em parte, dissipar suas crenças na meritocracia.