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Porto Alegre, sexta-feira, 25 de outubro de 2019.

Jornal do Comércio

Economia

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mercado financeiro

Edição impressa de 25/10/2019. Alterada em 24/10 às 21h39min

Crise acaba com era de ouro do café no Brasil

A produção cafeeira era responsável por cerca de 70% das exportações brasileiras

A produção cafeeira era responsável por cerca de 70% das exportações brasileiras


/ACERVO MUSEU DO CAFÉ/DIVULGAÇÃO/JC
Marcelo Beledeli
A crise deflagrada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York em outubro de 1929 teve reflexos imediatos em praticamente todos os países. Seus efeitos se espalharam principalmente por duas vias: prejuízos no conectado sistema financeiro internacional e a redução do comércio global, tanto pela escalada do protecionismo quando pela redução de compras do mercado norte-americano, que era o maior do mundo.
A crise deflagrada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York em outubro de 1929 teve reflexos imediatos em praticamente todos os países. Seus efeitos se espalharam principalmente por duas vias: prejuízos no conectado sistema financeiro internacional e a redução do comércio global, tanto pela escalada do protecionismo quando pela redução de compras do mercado norte-americano, que era o maior do mundo.
O Brasil foi altamente afetado, devido ao seu caráter agroexportador. E, em 1929, o carro chefe da economia brasileira era o café. Na fase inicial da Depressão, o café representava cerca de 70% das exportações brasileiras, e os EUA eram nosso maior consumidor, comprando cerca de 80% da produção. "Em 1929, a receita em moeda estrangeira que o Brasil fazia era basicamente através do café", lembra Simão Davi Silber, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
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A economia baseada na cultura cafeeira já tinha sintomas de problemas quando a crise surgiu. O elevado preço do café, que provocou entre 1920 e 1925 nova e acentuada expansão do plantio, fez com que, a partir de 1927, a oferta ultrapassasse a procura, iniciando-se a acumulação de estoques. A safra de 1927-1928 chegou a 27 milhões de sacas - quase o dobro da obtida seis anos antes -, o que representou um excedente de 12 milhões de sacas sobre as exportações. Para restabelecer o equilíbrio entre a oferta e a procura e sustentar os preços, o Instituto do Café de São Paulo recorreu à compra dos excedentes. E a safra relativamente pequena de 1928-1929, conjugada com a expansão da procura mundial, ajudou a estabilizar os preços.
"Para proteger o café, o governo fazia aquisição dos excedentes, para vender em tempos mais propícios. Isso saia caro para o País, que tinha que fazer empréstimo externo para bancar essa política. Era a 'socialização dos prejuízos, para proteger o café, a sociedade pagava a conta", lembra o professor Pedro Fonseca, da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). "O governo conseguia administrar isso, pois tinha crédito no exterior. O que a crise veio fazer foi acabar com a possibilidade de financiamento externo", destaca.
No segundo trimestre de 1929, calculava-se que a safra de 1930-1931 estaria em torno de 30 milhões de sacas, o que indicava a necessidade de outra intervenção caso se desejasse manter os preços. No entanto, a simultaneidade da safra volumosa com a depressão econômica teve como conseqüência uma pressão baixista inusitada, fazendo com que o preço da saca do café, que era cotada a 200 mil réis, em janeiro de 1929, desabasse para 21 mil réis um ano depois, provocando falências de produtores, demissões de trabalhadores e redução do salário da mão-de-obra agrícola.
No plano político, a crise acabou dando suporte aos grupos que criticavam o governo federal, considerado muito influenciado pelos interesses dos cafeicultores paulistas. Apesar do candidato apoiado por São Paulo, Júlio Prestes, ter vencido a eleição de 1930, o agravamento das dificuldades econômicas gerou maiores condições de apoio à oposição. Com isso, a Revolução de 1930 é facilmente vitoriosa, e o governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, é colocado no poder.

Getúlio Vargas cria medidas radicais para conter a recessão

Governo promoveu queima de estoques de café em na Baixada Santista em 1931

Governo promoveu queima de estoques de café em na Baixada Santista em 1931


MEMÓRIA SANTISTA/DIVULGAÇÃO/JC
Getúlio Vargas encontrou uma situação calamitosa. No quadriênio de 1927 a 1930, a receita total de exportação do Brasil elevou-se a US$ 422 milhões de dólares, tendo o café participado com 69%, ou US$ 293 milhões de dólares. De 1931 a 1934, a queda de preços fez com que a média da receita cafeeira fosse de US$ 156 milhões de dólares, pouco mais da metade do que fora atingido no quadriênio anterior. Outras exportações também sofreram com a crise, fazendo com que o total da receita de exportação baixasse para US$ 232 milhões de dólares, sendo que o café representou cerca de 67% desse total.
Uma das primeiras ações que o novo governo tomou foi uma intervenção ainda mais radical do que os governos anteriores. A fim de parar a pressão baixista nos preços, o governo compra 18 milhões de sacas de café. No entanto, ao contrário da República Velha, não vai estocá-las. Em junho de 1931, as sacas são queimadas na Baixada Santista, eliminando fisicamente os estoques. Essa medida seria repetida em 1938 e 1944, diante de novas baixas dos preços.
Além disso, o governo foi forçado a decretar uma moratória da dívida externa, que chegou a ser publicada na capa do jornal New York Times. O pagamento dos serviços da dívida por três anos seria novamente anunciada em 1937.
Outra medida que teve grande impacto foi a entrada do Brasil na guerra protecionista de vários países da época, através de política cambial. A moeda da época, o mil-réis, foi desvalorizada, tornando a importação de artigos estrangeiros proibitiva. "Essa depreciação vai ser um estímulo ao aumento da indústria nacional, a fim de suprir o mercado interno", lembra Silber, professor da FEA-USP. Grande parte dos produtos que vinham de fora passou a ser fabricados no País. Isso abriu caminho para o término da recessão no Brasil, em 1932, com o crescimento da indústria.
"A indústria já tinha começado a se desenvolver no Brasil, mas, a partir dos anos 1930, vamos começar um grande avanço industrial, com esse setor ganha espaço econômico e político", destaca Adalmir Marquetti, do Programa de Pós-Graduação em Economia da Pucrs. Dessa forma, no fim dos anos 1930, a produção industrial brasileira já era o dobro do que era em 1929, abrindo o caminho para o abandono da política concentrada no café e criando as condições para o crescimento econômico da segunda metade do século XX.
 

Recessão de 2014 foi pior para a economia do Brasil do que a de 1929

Apesar de ter sido a crise mais brutal da economia capitalista no século XX, o Brasil sofreu menos com a quebra da bolsa de Nova York em 1929 do que em outras ocasiões de recessão. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 2,1% e 3,3% em 1930 e 1931, respectivamente, em 1932 já registrava crescimento de 4,35% em 1933, seguido por altas de 8,9% e 9,2% em 1934 e 1935. Dessa forma, a economia do país conseguiu se recuperar em quatro anos.
Em comparação, após a crise de 2014, o PIB brasileiro caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016. Com isso, os crescimentos de 1,1% registrados em 2017 e 2018 não conseguiram recuperar sequer as perdas do primeiro ano da crise. Se correta a previsão da pesquisa Focus do Banco Central, de crescimento de 0,88% em 2019 e de 2,0% em 2020, a economia brasileira só deverá se recuperar em 2021, sete anos após o início da crise. "Espantosamente, o efeito do crash de 1929 no Brasil foi muito menor do que a recessão de 2015/2016. A gente saiu muito mais rápido da Grande Depressão do que dessa última crise", lembra Simão Silber, da USP.

Dificuldades públicas e bancárias afligem o Rio Grande do Sul

Acima, à direita, prédio onde foi instalado o Banrisul em 1928 (prédio gêmeo ao Theatro São Pedro)

Acima, à direita, prédio onde foi instalado o Banrisul em 1928 (prédio gêmeo ao Theatro São Pedro)


ACERVO DO MUSEU DE PORTO ALEGRE JOAQUIM FELIZARDO/DIVULGAÇÃO/JC
Em 1929, o Rio Grande do Sul já enfrentava dificuldades financeiras. A crise internacional vai elevar os problemas, gerando as primeiras quebras de bancos no Estado em mais de 30 anos (o "drama bancário", como foi chamado na época), situação que vai ajudar a consolidar o futuro Banrisul como principal instituição financeira gaúcha.
Durante a década de 1920 o endividamento do Estado estava elevado, devido às ações intervencionistas do governador Borges de Medeiros em 1919 e 1920, quando o governo gaúcho encampou o Porto de Rio Grande e a Viação Férrea. Além disso, devido à guerra civil de 1923, entre chimangos (borgistas) e maragatos (liderados por Joaquim Francisco de Assis Brasil), as contas públicas estavam quase em caos, com elevação de gastos e atraso de impostos. Para compensar as perdas causadas com o conflito, Borges aumenta ainda mais o endividamento, autorizando a emissão de títulos públicos, sem teto máximo, com juros de 8% ao ano.
Quando Getúlio Vargas assume o governo estadual, em 1928, ele pede autorização à Assembleia Legislativa para contratar empréstimo de US$ 42 milhões de dólares, ao juro de 6%, com prazo de amortização de 40 anos. Conforme lembra o historiador Gunter Axt, "a conjuntura era favorável, pois havia disponibilidade de capitais no mercado financeiro internacional, e o Brasil recuperara credibilidade com o programa de estabilização de Washington Luís". A operação de crédito destinou-se ao resgate da dívida flutuante, à conversão das dívidas interna e externa, contratada ao juro de 7 e 8%, e à criação de um banco hipotecário e de crédito rural - o Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Bergs, depois Banrisul).
Inicialmente projetado para operar apenas como banco hipotecário e agência reguladora do mercado, tal qual um banco central regional, o Bergs acabou tornando-se um concorrente das demais instituições financeiras locais. O primeiro a sofrer essa competição foi o Banco Pelotense. Fundado em 1906, era o maior banco gaúcho, com 29 agências no Rio Grande do Sul, quatro em Minas Gerais, duas no Paraná e uma no Rio de Janeiro. Durante as décadas de 1910 e 1920, o Pelotense acabou se tornando o banco oficial do governo gaúcho, realizando empréstimos para as políticas estatais.
No entanto, essa ligação com o governo acabaria prejudicando o banco, que incorporou a seu patrimônio uma grande quantidade de títulos da dívida pública de difícil resgate. Além disso, a diretoria sofria pressões políticas, como realizar socorro de pecuaristas endividados devido à queda do preço da carne em consequência da Primeira Guerra Mundial. Com a percepção de que era mal administrado, o Pelotense já vinha sofrendo descrédito na praça durante a segunda metade dos anos 1920.
A chegada de Vargas ao governo estadual também não ajudou. O novo governador tinha razões pessoais para não gostar do banco. Em 1921, seu sogro, Antonio Sarmanho, gerente do banco em São Borja, suicidou-se, em razão de pressões da diretoria devido à irregularidades na agência local. Sarmanho devia ao banco 104 contos de réis, o equivalente ao dobro dos emolumentos totais da Junta Comercial naquele ano.
 

Falta de confiança leva à quebra de bancos no Estado

Sede do Banco Pelotense, que teve que ser liquidado em 1931

Sede do Banco Pelotense, que teve que ser liquidado em 1931


WIKIMEDIA COMMONS/DIVULGAÇÃO/JC

Quando a crise explode em Nova York, em outubro de 1929, o primeiro efeito no Rio Grande do Sul é o cancelamento de um segundo empréstimo internacional que o Rio Grande do Sul buscava com bancos dos Estados Unidos. Confiando na chegada dos recursos, o governo gaúcho havia imobilizado em aplicações de longo prazo os fundos públicos, da Viação Férrea e dos municípios. Antes da criação do Bergs, esses fundos tinham sempre no Pelotense aplicações em curtíssimo prazo.

A primeira instituição a enfrentar problemas foi o Banco Popular. Fundado em 1919, por iniciativa da Arquidiocese de Porto Alegre, possuía mais de 1,5 mil acionistas. No início de 1930, rumores de anormalidade em sua atuação levaram à uma "corrida bancária", com depositantes buscando as agências para sacar os recursos em suas contas. O volume de recursos solicitados chegou a atingir cerca de metade do capital realizado no banco. Com isso, o Banco Popular pediu falência em 16 de abril de 1930.

Como o Bergs, que tinha imobilizados seus recursos em investimentos de longo prazo, não conseguiu cumprir seu papel de "banco central regional" e socorrer o Banco Popular, logo o pavor tomou conta dos clientes do Banco Pelotense, que já enfrentava redução de capital devido à perda do status de banco oficial do governo. Até março de 1930, o Pelotense viu sumir cerca de 72 mil contos de réis de seus cofres, dos quais 30 mil eram relativos aos fundos da Viação Férrea e os outros 42 mil eram depósitos particulares que fecharam suas contas.

Após a falência do Popular, os acionistas controladores do Pelotense elaboraram dois planos, um para recuperação do banco, com aporte de capital e ajuda financeira do Estado, outro prevendo sua liquidação. A primeira proposta não encontrou receptividade por parte de Getúlio Vargas e de seu sucessor, Flores da Cunha. Portanto, o banco foi liquidado em janeiro de 1931. Na ocasião, agências do banco tiveram que ser protegidas por forças militares para evitar depredação.

O principal beneficiado foi justamento o Bergs. Em meio à crise de confiança desencadeada pelo Crash de Nova York, muitos depositantes preferiam a segurança das garantias estatais. Estava aberto o caminho para a consolidação do futuro Banrisul.

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