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Reportagem especial

- Publicada em 02 de Setembro de 2023 às 11:39

'Fronteira da Paz' e da gastronomia: novos projetos revigoram turismo em Livramento e Rivera

Produtores rurais, culturais e turísticos chamam a atenção para um terreno rico em possibilidades gastronômicas e descobertas naturais

Produtores rurais, culturais e turísticos chamam a atenção para um terreno rico em possibilidades gastronômicas e descobertas naturais


/Cerro Chapéu/Divulgação/JC
Lívia Araújo, especial para o JC*
Lívia Araújo, especial para o JC*
A "Fronteira da Paz" de Sant'Ana do Livramento e Rivera, no Uruguai, vive um despertar para além do turismo de compras: produtores rurais, culturais e turísticos chamam a atenção para um terreno rico em possibilidades gastronômicas e descobertas naturais. Para isso, contribuem a soma de terra, clima e tradição que criam um "terroir" propício a vinhos, queijos de ovelha, azeites e a valorizada carne de cordeiro, sem esquecer também da exaltação à cultura pampeana.

Trem do Pampa usará Veículo Leve sobre Trilhos, que percorrerá um circuito de 20 quilômetros a partir da Estação Férrea de Livramento

Trem do Pampa usará Veículo Leve sobre Trilhos, que percorrerá um circuito de 20 quilômetros a partir da Estação Férrea de Livramento


/Pauta Conexão/Divulgação/JC
Segundo o tradicional dicionário francês Le Robert, a palavra "terroir" significa um "conjunto de terras de uma mesma região que fornece um produto agrícola característico". O termo acabou por fazer parte do jargão da produção de vinhos como um todo, sendo um "vinho de terroir" o produto originário de um local com características marcantes: uma soma de clima, solo e técnicas de cultivo que resultam em uma bebida ímpar como uma impressão digital.
É essa a ideia que tem valorizado cada vez mais os produtos oriundos da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, na região da campanha gaúcha, e motivado produtores de culturas que vão além do vinho a se unirem não só entre si, mas também com representantes de setores como turismo e cultura, para fazer consolidar a fronteira como um destino de turismo e investimentos. E em dimensão binacional.
O epicentro dessa movimentação é a chamada Fronteira da Paz, que liga quase que umbilicalmente as cidades de Sant'Ana do Livramento, no lado brasileiro e Rivera, no lado uruguaio. Além da população de ambos os municípios, que têm uma nacionalidade quase à parte, representada pelo documento que reconhece seu caráter fronteiriço e que lhes permite trabalhar em ambos os lados da linha que corta os países, a fronteira recebe um fluxo intenso de turistas-consumidores que buscam os produtos dos free shops de Rivera. A cada fim de semana, são cerca de 20 mil pessoas que "atravessam a rua" para circular pela Avenida Sarandí e ruas circundantes.
Ainda que um grande afluxo de moeda - dólares, pesos uruguaios e reais - garanta a prosperidade do comércio tanto de Rivera quanto de Sant'Ana do Livramento, outros segmentos se beneficiam da presença desse contingente, que aos poucos, mas de maneira crescente, vai além do mero consumo para dar atenção a uma terra de tradições arraigadas e sabores marcantes.
Atenta a essa movimentação, a cadeia do turismo vem gradualmente se estruturando e se qualificando para poder direcionar ao menos parte do fluxo de visitas para essas atrações. A primeira agência de Livramento especializada na parte receptiva, a Corticeiras, busca chamar atenção para a cultura da Campanha como um diferencial. "Trabalhamos muito com a questão da autenticidade do Pampa. Afinal, aqui foi o palco principal da Revolução Farroupilha, então é natural essa identidade", explica Viviane Maciel, que comanda a agência junto com a sócia Vera Reis.
Além do foco no turismo histórico e rural e de pacotes que descem Uruguai adentro, o turismo enogastronômico é uma das principais demandas da agência. Livramento tem, desde 2012, um roteiro especializado no tema: é a Ferradura dos Vinhedos, circuito que reúne grandes produtores de uva e vinho como Almadén-Miolo e Salton, pequenos produtores do fruto, mas também outras culturas que criaram uma interdependência com o setor vitivinícola como a produção de azeite e de queijo, como a OlivoPampa, o Terroir da Vigia e o Rancho Canela do Mato, e até um parque de águas termais, o Amsterland. Em média, a agência Corticeiras leva ao roteiro um público médio de 300 pessoas por mês, entre visitantes avulsos e grupos organizados.
O fluxo de visitação à Ferradura dos Vinhedos deve ficar ainda mais intenso com o início das operações do Trem do Pampa, empreendimento da Giordani Turismo, que criou na Serra Gaúcha o já famoso Trem do Vinho. O passeio, que está em fase final de implantação, será feito em um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que percorrerá um circuito de 20 quilômetros a partir da Estação Férrea de Livramento, transportando os turistas nos vagões Tannat e Cabernet. Com a operação do Trem do Pampa, a Giordani espera gerar cerca de 70 vagas de emprego diretas e indiretas.

Falta de infraestrutura é barreira a ser vencida

O desenvolvimento do turismo enogastronômico em Sant'Ana do Livramento, no entanto, ainda esbarra em questões de infraestrutura, qualificação e burocráticas. Viviane Maciel, sócia da agência Corticeiras, aponta, por exemplo, que ainda é difícil percorrer toda a Ferradura, pela ausência de pavimentação nas estradas vicinais. "A gente acaba acessando as pontas direita e esquerda do roteiro, porque é onde está a rodovia. Há todo um trecho de 22km entre as propriedades que não tem asfalto", lamenta.
Outra questão é a da qualificação local. A produtora cultural Angélica Seguí é uma "doble-chapa" que coordena, desde 2016, um projeto pessoal voltado justamente à sensibilização e qualificação de agentes culturais efetivos e potenciais, com o Fronteira Criativa, ciclo de palestras e oficinas voltadas à indústria criativa. "O artesão que faz facas, ou a artesão que produz moda autoral em lã, ou que aprendeu com a avó um ponto específico às vezes não compreende que também faz parte de uma indústria, que inclusive pode ter programas e fundos financeiros específicos para ampliar o alcance do seu trabalho", observa.
Faz parte do projeto, por exemplo, a capacitação para a captação de recursos via leis de incentivo e outros mecanismos. Nos últimos 10 anos, segundo Angélica, menos de 1% do financiamento à cultura veio para Livramento e acessar esses recursos, segundo a produtora, pode "fazer com que nossa cultura também consiga dialogar com a globalização", pontua.
Na visão da cônsul-geral do Brasil em Rivera, Ana Lélia Benincá Beltrame, iniciativas como essa são bem-vindas, mas para gerar resultados perenes, precisam ser encaradas como políticas de longo prazo não apenas pelos governos e instituições, mas pelos diferentes segmentos empresariais da região. "O turismo de compras é muito interessante, mas é um setor que tem altos e baixos, porque depende do dólar. O comércio até se sustenta quando o dólar está alto, porque pode dar férias coletivas ou demitir. Mas a comunidade, em geral, precisa de mais estabilidade no fluxo turístico. Os hotéis, por exemplo, têm um custo muito alto. Se perdem funcionários, fica muito difícil retomar depois", explica.
A diplomata também aponta que a faixa de fronteira entre Brasil e Uruguai, pelo caráter umbilical entre as populações dos dois lados, se beneficiaria com uma diminuição ainda maior de barreiras burocráticas e legais que possam, mesmo assim, garantir segurança aos negócios e fluxo de produtos e serviços.
"Há aqui um projeto para a criação de um ônibus urbano internacional, que circule entre as duas cidades. Caso realmente haja público para isso, é uma operação complexa. Pois em ambos os países é uma concessão pública, que teria de ser feita para a mesma empresa. Como se cobraria a passagem, como seriam geridas as gratuidades?", exemplifica.
No entanto, a cônsul aponta avanços como a existência da "identidade de fronteiriço", que permite que brasileiros e uruguaios possam viver e trabalhar livremente nos municípios da faixa de fronteira.
 

Rivera reinaugura aeroporto em novembro, mas operação binacional ainda não foi assinada

Sander destaca a importância da ausência de taxas para voos ao Brasil

Sander destaca a importância da ausência de taxas para voos ao Brasil


/Lívia Araújo/especial/jc
Com a assinatura, em Montevidéu, do memorando de entendimento que viabilizará a binacionalização da estrutura do aeroporto de Rivera pelos governos uruguaio e brasileiro, no mês de agosto, o prefeito do município, Richard Sander, disse que a reinauguração do local deve ocorrer no início de novembro.
Sander afirmou, em entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio, que as obras do aeroporto já chegaram à pista principal, que passa por uma ampliação, e aos acessos laterais, além da reconstrução do prédio principal.
Ainda não temos informação de quais linhas e empresas irão operar, mas ajuda o fato de que os concessionários dos aeroportos de Carrasco, em Montevidéu, e Laguna del Sauce, em Punta Del Este, têm relações com todas as companhias brasileiras”, pontuou.
Em março, o Jornal do Comércio já havia noticiado que a Azul estuda a possibilidade de iniciar operações em Rivera, com a binacionalização do equipamento, o que permitiria que brasileiros tomassem voos de Rivera para o Brasil sem o pagamento da taxa de embarque internacional, beneficiando principalmente a população da vizinha Santana do Livramento.
Além disso, de acordo com o governo brasileiro, o uso compartilhado do aeroporto permitirá que as empresas aéreas brasileiras operem com voos domésticos, mais baratos que os internacionais, a partir da cidade uruguaia. A expectativa é baratear o preço das passagens aéreas para voos que conectem o extremo sul gaúcho e o Uruguai ao restante do Brasil.
A partir da reabertura do aeroporto, o ministro brasileiro dos Portos e Aeroportos, Márcio França, apontou a realização de obras adicionais, desta vez para a adequação do local à operação binacional.
Sander avaliou como “fundamental” a conectividade entre Rivera, Montevidéu e Porto Alegre.
“Atualmente, o trajeto entre a capital uruguaia e a gaúcha acaba demorando entre 12h e 14h por causa do trânsito de caminhões. Aqui no Uruguai há, em média, um caminhão a cada cinco quilômetros”, apontou. “Para quem vem à fronteira a negócios (de Porto Alegre), um aeroporto é muito importante, pois pode vir e voltar no mesmo dia gastando duas horas de voo. Um empresário não tem dois dias para perder”, concluiu.

Qualidade do vinho da fronteira abarca Brasil e Uruguai

Gutierrez produz vinhos tintos no Uruguai com certificação vegana

Gutierrez produz vinhos tintos no Uruguai com certificação vegana


/LÌvia AraÚjo/Especial/JC
"A Campanha gaúcha é a melhor região do Brasil para a produção de vinhos". O veredito é do produtor francês Gaspard Desumont que, em busca de um lugar onde pudesse desenvolver uvas viníferas e outras culturas e produtos, já passou por diversos países.
Oriundo do mercado financeiro mas tendo sempre trabalhado para vinícolas em seu país natal, Desurmont descobriu seu "terroir" no Brasil, mais especificamente na fronteira, onde deparou com as características de relevo, solo e clima que dão a personalidade aos vinhos da região: invernos frios, verões quentes, pouca chuva e amplitude térmica extensa.
É essa equação que está nos rótulos da "Vinhética", marca que aposta no manejo sustentável e justo de produção de uvas e vinificação, e que também trabalha com as safras de outros pequenos produtores locais, para quem oferece consultoria e transferência tecnológica na produção. "É a sabedoria de quem produz que agrega valor ao que vendemos", justifica Desurmont, que tem atualmente um portfólio de 10 rótulos que incluem espumantes, tintos, varietais e rosé "com sotaque francês", vinificados em Caxias do Sul.
A Vinhética também tem dois rótulos de vinhos naturais produzidos sob o selo de sua propriedade em Sant'Ana do Livramento, o Terroir da Vigia, que futuramente terá cinco rótulos. "Queremos chegar, em três anos, à produção anual de 25 mil garrafas com o selo da Vigia, e o mesmo volume para os rótulos da Vinhética", planeja Desurmont.
A região de Livramento já possui notoriedade na qualidade das uvas, fornecendo para a própria indústria vinícola da Serra gaúcha, mas também contando com diversas marcas produzidas localmente e amplamente reconhecidas, como a Guatambu, de Dom Pedrito. A cidade é a casa de marcas tradicionais como a Almadén (adquirida em 2009 pela Miolo Wine Group), Nova Aliança e a local Cordilheira de Santana, além dos vinhedos da Salton.
Mas novos produtores têm obtido sucesso no cultivo de variedades diferenciadas, para além das mais comumente trabalhadas na região, como a tinta Tannat ou a branca Sauvignon Blanc. No caso do Terroir da Vigia, as variedades incluem Alvarinho, Baga e Petit Verdot.
A uva arinarnoa, porém, é a menina dos olhos de outro produtor, o empresário e engenheiro agrônomo Cláudio Escosteguy, que trouxe ao mercado em 2016 a primeira safra do Almabaska, nome que indica identidade familiar, mas também da própria uva. A empresa tem outros três sócios: Célia, esposa de Cláudio, além de Sílvia e Álvaro Arteche.
Começando com uma produção própria completamente artesanal, a qualidade alcançada por esses primeiros ensaios entusiasmou os sócios a buscarem empresas da Serra para a vinificação das safras vindouras, uma das grandes surpresas do portfolio é um blend. "A arinarnoa tem um corpo mais leve que casa muito bem com o tannat, que é mais encorpada, com taninos mais selvagens", explica.
Hoje, a vinificação acontece na Serra gaúcha, materializando as quatro diferentes propostas da Almabaska: os vinhos tranquilos como arinarnoa e tannat, os espumantes - comercializados sob a marca Arlequina, os tannat produzidos com mínima intervenção e os vinhos jovens, como o rosé. No total, são 13 rótulos com uma venda média anual de duas mil garrafas. Mas, segundo Escosteguy, a projeção é de chegar a quase cinco mil garrafas até o fim de 2023, vendidas, em média a R$ 70,00 mas com rótulos que vão de R$ 35,00 a R$ 120,00. As características tão favoráveis à produção vitivinícola presentes no lado brasileiro também acontecem em Rivera, que conta com duas vinícolas de portes diferentes.
A pequena Bodega Viñas Del 636 funciona no formato atual desde 2011, quando foi adquirida pelo enólogo Thiago Gutiérrez Landó. O trabalho é totalmente dividido entre Gutiérrez e seu pai, Jorge, que foi o pioneiro na produção vinícola com safras totalmente artesanais desenvolvidas a partir de 1995. O nome da vinícola elude ao marco fronteiriço de número 636 localizado na propriedade, delineada pela separação imaginária entre Uruguai e Brasil.
O negócio evoluiu para abarcar as evoluções tecnológica da cadeia do vinho, mas Gutiérrez mantém uma produção pequena, que frequentemente gera cerca de mil garrafas por variedade, a depender da safra. Outra característica artesanal da 636 é a "mínima intervenção" no caso dos vinhos tintos. "A gente não faz mais a clarificação ou filtragem para manter ao máximo a expressão da uva, do terroir. E, como os clarificantes são de origem animal, ao não utilizá-los, o vinho pode ser classificado como vegano", explica.
O selo, portanto, também ajuda a expandir o público consumidor dos rótulos da bodega, cujo principal canal de venda são as visitas para degustação e a realização de almoços harmonizados na "Experiencia 636", onde 90% da frequência é de turistas brasileiros. Nas visitas, o consumidor pode saborear o rótulo mais valorizado da bodega, o Sinergía, blend das variedades tannat, merlot e cabernet sauvignon, "que foram colhidas no mesmo dia e começaram a vinificação juntas no mesmo tanque", conta Gutiérrez.
Na mesma vizinhança, está a Cerro Chapéu - nome que pegou emprestado da localidade homônima -, com uma produção que chega aos 300 mil litros por ano, mas que igualmente tem contado com a força do enoturismo para valorizar os diferenciais da propriedade. A vinícola surgiu em 1975 em Rivera, na divisão do espólio da Juan Carrau, uma das vinícolas mais tradicionais do país.
O período pós-pandemia mudou a antiga política de visitas da bodega, então restrita ao acompanhamento dos sócios da Cerro Chapéu. O sinal para essa virada estava na caixa de e-mails, conta a gerente do mercado comercial brasileiro, Mileni Campos. "As mensagens eram todas para turismo, perguntando sobre visitas, almoços especiais. Era uma necessidade latente". Assim, Mileni também acabou se tornando coordenadora de turismo.
A vinícola passou a abrir diariamente às visitações, que descobrem um diferencial único entre vinícolas da América Latina: a produção do vinho, da fermentação ao engarrafamento, utiliza a gravidade e a estrutura foi construída dentro do próprio cerro. Além dessas atrações, a Cerro Chapéu vende, exclusivamente no museu, rótulos do próprio acervo da família, desenvolvidos ao longo da trajetória da vinícola. A empresa conta atualmente com 27 rótulos.

Capital Nacional da Ovelha amplia rebanhos para corte e leite

Gaspar e Graciela encontraram no Pampa o melhor ambiente para produzir

Gaspar e Graciela encontraram no Pampa o melhor ambiente para produzir


/Terroir da Vigia /Divulgação/JC
Em tempos áureos da cultura de ovinos na Campanha gaúcha, somente o município de Sant'Ana do Livramento possuía um rebanho de cerca de 1 milhão de cabeças. Ainda que produtos como carne e leite fossem ganhos colaterais, o principal destino comercial desses animais era a tosquia - entre Brasil e Uruguai, a lã para vestuário e cama era um dos principais ativos da região.
A adoção da fibra sintética pelo mercado têxtil esvaziou pastos principalmente no lado gaúcho da fronteira. Em 2021, em todo o Estado, havia pouco mais de 3 milhões de cabeças, dos quais quase 300 mil estão em Livramento, a cidade com a maior população da espécie, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e reconhecida como "Capital Nacional da Ovelha" em maio deste ano.
Com o passar dos anos, a carne passou a ser o produto ovino mais trabalhado. Em 2013, segundo o panorama do setor realizado pela Secretaria Estadual da Agricultura, pouco mais de um terço do rebanho se destinava ao corte, seguido da lã, com cerca de 25% e apenas 0,6% para o leite, sendo o restante dedicado ao uso misto.
De acordo com o produtor santanense e engenheiro agrônomo Atílio Ibargoyen, dono da Fazenda Palomas, a "virada" se deu com um manejo de rebanhos mais voltado a extrair mais qualidade da carne. Segundo ele, a carne de cordeiro era um "utilitário para alimentar as pessoas do campo". O abate e o manuseio eram rústicos, e com frequência de animais velhos, o que resultava em uma carne tida como "dura" e sem maior requinte no preparo.
Ibargoyén viveu isso na prática. Depois de se dedicar 21 anos ao turismo rural, tendo a carne de cordeiro como a principal atração em sua propriedade, a partir de 2016 o produtor resolveu se dedicar exclusivamente à ovinocultura de corte e lançou a marca Fazenda Palomas Carnes, comercializando sua produção sob peças da raça Île de France.
Da produção total de 1.200 quilos mensais, até 15% são comercializadas na própria fazenda. Os outros 85% são destinados principalmente a restaurantes como o Bateau Îvre. "Os restaurantes são uma aposta que está dando certo, porque, além de ser uma compra com um certo volume e regularidade, são os chefes de cozinha que podem nos dar um retorno mais preciso sobre a qualidade da carne e outras necessidades", analisa.
Para alcançar essa qualidade e, consequentemente, proporcionar um crescimento de demanda, Ibargoyén aponta o encurtamento da cadeia produtiva, com animais precoces, e uma alimentação totalmente a pasto. Entre os produtos mais vendidos pela fazenda, estão cortes de paleta, carré, assado de tira e o pernil em três versões: com osso, desossado e achuletado.
No caso do leite de ovelha, embora pesquisas apontem que a produção brasileira do insumo corresponda a bem menos de 1% do total do leite produzido no Brasil, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais são atualmente os maiores produtores. Foi exatamente a partir do Estado que foi introduzida, em 1992, a raça leiteira Lacaune, que segue sendo a principal. Na Campanha, no entanto, a grande população de outras raças, como a crioula, faz com que essas também sejam utilizadas para a produção de leite.
É o caso do Terroir da Vigia, que, além da vitivinicultura, dedica-se à produção artesanal de queijo de ovelha desde 2017. Quem toca o processo é Graciela Bittencourt, jornalista de formação e que administra a propriedade junto com o marido Gaspar Desurmont. "Temos um rebanho bem misto, com as raças Lacaune, Crioula e Ideal, mas estamos tentando um cruzamento para chegar a uma nova raça, possivelmente fruto da Crioula, que tem rusticidade, e Lacaune, que produza um bom leite", projeta Graciela.
O plano se baseia no fato de que o produto que simboliza a essência do Terroir da Vigia é o queijo etchekoa feito de leite cru. "Esse é de verdade um queijo de terroir, que, por não ser pasteurizado, é impossível copiar, já que ele é característico das ovelhas que pastam no bioma pampa e estão suscetíveis ao clima da região e à alimentação praticada aqui", explica. Com a pasteurização, esses aspectos se perdem. O etchekoa, queijo típico do país basco, foi vencedor da medalha de bronze no Prêmio Queijo Brasil, que aconteceu em Blumenau (SC), no mês de julho. A versão pasteurizada do etchekoa, além de uma versão mais delicada, chamada de Balido, conquistaram a medalha de ouro no mesmo concurso.
Essas variedades fazem parte de um portfólio atual de oito queijos autorais. A meta, segundo Graciela, é chegar a uma produção mensal média de 400 kg mensais. Por enquanto, o Terroir da Vigia fornece quase toda a sua produção para pessoas jurídicas, entre restaurantes e comércios, mas está nos planos, para o próximo ano, abrir a propriedade para visitação e ter ali mesmo um ponto de venda dos produtos da casa.
 

Chefes de cozinha propõem releituras dos sabores tradicionais

Cristina e Ana Cláudia elaboram menus para eventos e restaurantes locais

Cristina e Ana Cláudia elaboram menus para eventos e restaurantes locais


/LÍvia AraÚjo/Especial/JC
A reinvenção e surgimento de novas vocações agrícolas na fronteira, como a carne de cordeiro e o leite de ovelha, e o cultivo de olivas e uvas viníferas encontra na gastronomia sua principal manifestação. Seja em eventos de grande porte como o festival Fronte(i)ra ou em restaurantes e encontros pontuais, esses ingredientes encontram terrenos também para combinações e pouco usuais.
Algumas dessas criações são obra das chefes Ana Cláudia Heidel e Cristina Theiss, que se estabeleceram na fronteira em 2022. Dividindo a vida e a profissão, as profissionais uniram suas experiências trabalhando em consultorias gastronômicas para instituições como Senac e Embrapa, ministrando cursos na área e elaborando menus.
Natural de Santo Ângelo e artista plástica de formação, Ana Cláudia buscou a profissionalização gastronômica no final dos anos 2000, e recebeu uma de suas primeiras oportunidades na cozinha do Palácio Piratini, onde fez parte de um grupo de trabalho, coordenado pela chef Jussara Dutra, que pesquisou a fundo as raízes da culinária no Rio Grande do Sul. Isso despertou em Ana uma paixão pela experimentação culinária com sabores típicos do Estado para além da carne, como a erva mate e o butiá.
Posteriormente, ela praticou essas fusões em cozinhas como a do restaurante Alma RS, do Parador Casa da Montanha em Cambará do Sul - e, agora na fronteira, começou a comandar a cozinha do Convívio, projeto que estreou no Rancho Canela do Mato, em Sant'Ana do Livramento, e que já tem desenvolvidos no menu itens como a ambrosia de bergamota, ou a quiche de abóbora cabotiá e charque.
No caso de Cristina, a mudança de carreira foi ainda mais radical: ela trocou a vida intensa das passarelas internacionais, onde fez parte do cast da Ford Models em desfiles mundo afora, pela vida na cozinha, não menos exigente, mas que a fez se reconectar com os sabores da infância em São Bento do Sul (SC), "Todas as nossas refeições eram feitas com ingredientes in natura, colhidos em casa", relembra. Atualmente, ela comanda a cozinha do Solar Café e Gastronomia, nos arredores do Parque Internacional, onde, além do dia a dia, elabora menus para os eventos do Solar Dom Pedro, casa tradicional da região.
Até agora, criar com os ingredientes da fronteira tem permitido que eles sejam vistos com "um novo olhar", nas palavras de Ana Cláudia. Um exemplo está em um doce completamente inesperado: a mousse de azeite. "É uma sobremesa, então você rompe algo que já está lá no teu cérebro, que enxerga um uso único para esse ingrediente, mas que acaba se ampliando em um outro entendimento de sabor", analisa a cozinheira. "São menus em que se pode utilizar o azeite como atração principal da entrada à sobremesa, provocando os sentidos de quem experimenta", completa Cristina.
São experiências que já podem ser feitas com produtos que vêm ganhando notoriedade na região, como o azeite Ouro de Sant'Ana, desenvolvido pela fazenda OlivoPampa, ou o Pé do Cerro, desenvolvido por Cláudio Escosteguy na Coxilha dos Vinhedos. Outro produto elogiado pelas chefes é a carne de cordeiro fronteiriça, que tem "um nível absurdo de qualidade", segundo Ana, expressada na versatilidade de cortes como o lombo, o filé mignon, e até mesmo partes outrora negligenciadas como o espinhaço, chamado de "lamb neck", e a língua, que atualmente é considerada uma iguaria.
Com isso, Ana Cláudia e Cristina acreditam ter uma "responsabilidade" para com os produtos da fronteira. "Queremos sempre fazer com que o público descubra um território que muitas vezes é invisível", vislumbram.
 

Na 8ª edição, Festival Fronteira fortalece união binacional de vocação enogastronômica

João Ucha e Ana Aprato optaram por cultivar cogumelos no meio urbano

João Ucha e Ana Aprato optaram por cultivar cogumelos no meio urbano


/Lívia Araújo/especial/jc
Sant'Ana do Livramento e Rivera consolidam, desde 2013, uma tradição que gradualmente vem construindo uma rede multissetorial: são empresários de áreas como turismo, comércio e serviços, produtores rurais e da indústria vitivinícola e de alimentos, restaurantes, universidades, entidades de classe, além das prefeituras dos dois municípios. É o Festival Fronte(i)ra, escrito de forma a contemplar as versões castelhana e portuguesa da mesma palavra.
Neste ano, o festival aconteceu entre os dias 28 de julho e 5 de agosto, no Parque Internacional, e reuniu, ao todo, um público de cerca de 40 mil pessoas que participaram de 108 atividades, segundo a organização do evento. Muitas dessas atrações são voltadas a pensar o desenvolvimento do turismo e da agroindústria brasileira e uruguaia, com o auxílio de fóruns de discussão setoriais, minicursos de qualificação, concursos de gastronomia, roteiros turísticos e eventos em escolas públicas e bairros periféricos.
Nada disso é por acaso. A CEO do Fronte(i)ra, Jussara Dutra, aponta que o festival, que começou em 2014 como um encontro de 42 chefes de cozinha brasileiros e uruguaios, e evoluiu justamente para se voltar à valorização da cultura fronteiriça em seus diferentes aspectos, capitaneada pela enogastronomia. Atualmente, ela caracteriza como "o maior evento de integração da fronteira Brasil-Uruguai". Segundo Jussara, essa simbiose se encontra em todos os âmbitos do festival e também da porta para dentro. "Não tem nenhuma comissão, grupo de trabalho, que não seja binacional, além da própria programação, em que todas as atividades têm a participação dos dois países", salienta.
A ideia de "integração", de acordo com Jussara, também se estende a compreender os atrativos da fronteira como resultado da interlocução de várias frentes, incluindo o turismo de compras. "Esse comércio que lida com milhares de pessoas ao longo do ano também é um agente do desenvolvimento, mas é preciso investir em qualificação. Porque o turismo envolve desde a pessoa que limpa a rua, o vendedor da loja, o dono do comércio, o dono da vinícola. Essa é a cadeia. Nenhum destino turístico se constrói sem planejamento estratégico", alerta.
Uma das principais facetas do festival é a feira de produtos locais e regionais que acontece na confluência entre os dois municípios, trazendo ao público local e aos turistas uma amostra das tradições gastronômicas e alimentares da fronteira: carne, queijo, vinhos, azeite de oliva, além do artesanato e agricultura familiar. Muitos pequenos produtores têm nos dias do festival não só o potencial de vendas, mas também de exposição e divulgação.
Um desses produtos vem se popularizando na preparação de pratos, literalmente se "misturando" a outros ingredientes mais comuns na tradição alimentar dos fronteiriços, como o arroz. Nesse sentido, o risoto com mix de cogumelos desidratados é o carro-chefe das vendas da Mundo Gaia Cogumelos durante o festival.
O diferencial na produção do Mundo Gaia é que, ao contrário de culturas como a das olivas, da noz-pecã ou da uva, os fungos podem se desenvolver no meio urbano, em ambientes em que o controle de temperatura e umidade são cruciais para a proliferação e a qualidade do produto.
Em um prédio no bairro Fluminense, em Sant'Ana do Livramento, o casal João Luiz Dias Ucha e Ana Carolina Aprato produzem cerca de 12kg mensais de diferentes variedades de cogumelo shimeji, que são vendidos em packs in natura ou na versão desidratada tanto por meio de assinatura para o consumidor final, ou a restaurantes. Porém, nas semanas que precedem o festival, boa parte da produção é reservada para atender o público do evento.

Propriedade aposta em produtos e serviços com espírito 'slow'

Eduardo e Keli abriram hospedagem para viajantes solo, casais ou grupos que buscam tranquilidade

Eduardo e Keli abriram hospedagem para viajantes solo, casais ou grupos que buscam tranquilidade


/Juliana Freitas/Divulgação/JC
Uma propriedade no Cerro da Vigia, área rural de Sant'Ana do Livramento, se propõe a ser uma antítese do turismo de compras que promove um fluxo de intenso de consumo e circulação. Para isso, inspira-se em parte no movimento slow food para promover um local de experiências tranquilas e saborosas. O Rancho Canela do Mato, que começou com a venda de cestas de alimentos orgânicos, vem investindo também em hospedagem e gastronomia, que absorve uma parte da própria produção, para atender à demanda crescente por um turismo interessado em aprofundar o conhecimento sobre a própria Campanha gaúcha, chegando ao vizinho Uruguai.
São 79 hectares dos quais uma parte é dedicada à produção agroecológica de verduras, legumes e frutas, que compõem a oferta de produtos de um empório online iniciado em 2017; outros cinco hectares com grandes pomares, como os de oliveiras, nogueiras e parreiras de uva bordô de mesa, além de um arrendamento para pasto de gado, o que fornece o esterco utilizado na compostagem. O nome "canela do mato" foi dado em homenagem a uma árvore que cresceu em um amontoado de pedras perto da sede da propriedade, e que acabou virando local de visitação e contemplação para parte dos frequentadores, e é a logomarca do projeto.
A proposta vem sendo desenvolvida por um casal que não construiu sua vida profissional no campo, mas se voltou a ele há pouco mais de sete anos para poder desenvolver um conceito de vida e trabalho "bom, limpo e justo". "Esse é a visão ontológica da propriedade", teoriza Keli Oliveira, uma professora universitária que, a partir da formação em Turismo, migrou para a área de alimentação sustentável, mas "encontrou sua turma" quando foi fazer um curso sobre slow food na Itália. Seu marido, Eduardo Wanderer, atuou no banco De Lage Landen como diretor de operações no Brasil e gerente geral nas unidades mexicana e chilena da instituição e hoje, além de prestar consultoria financeira a startups, também administra - e vive - o Canela do Mato.
O casal conta que a pandemia, além de intensificar a venda de orgânicos, também lhes deu a oportunidade de ampliar a possibilidade de visitas. "Antes, a gente abria a propriedade para o 'sábado-feira', em que os clientes podiam vir 'fazer a feira' e colher seus próprios alimentos, mas as pessoas passaram a nos pedir para ficar mais tempo", narra Eduardo. O Canela do Mato começou a oferecer um menu para piqueniques e almoços especiais, cujos produtos - pães, geleias, biscoitos, entre outros, passaram também a ser vendidos no empório.
É o entusiasmo da adesão desses convivas - e também uma demanda reprimida para hospedagem - que motivou Keli e Eduardo a investirem em dois novos empreendimentos: a Casa Ócio, aberta em julho para receber casais interessados no contato com a natureza; e o restaurante Convívio, que estreou há pouco tempo e cuja cozinha é comandada pela chef Ana Cláudia Heidel.
Atualmente, a propriedade recebe cerca de 30 pessoas por fim de semana, das quais 40% são de famílias uruguaias, além de alunos do ensino básico e de cursos superiores como agronomia e enologia, que vêm conhecer o sistema agroecológico de produção. "As pessoas que recebemos, de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, até do Ceará, vêm em busca da história do vinho da campanha. E, de certa forma, essa região é a 'última fronteira' a ser desbravada pelos turistas no Estado", comenta Eduardo.
Nesse sentido, o produtor não tem a pretensão de necessariamente atrair o público do turismo de compras e nem entende que a ampla oferta de rótulos importados nos free shops atrapalhe a produção vitivinícola local. "Nosso público é o que busca uma experiência gastronômica de alta qualidade, com produtos locais", pontua Keli.

*Lívia Araújo é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista. Já atuou nas redações da Gazeta do Povo, DCI e Jornal do Comércio e passou pela Diadorim Editora.