'É preciso abraçar a diversidade', defendem gestoras da ThoughtWorks

Caroline Cintra e Marta Saft são diretoras-presidentes da ThoughtWorks Brasil e personagens da série Mentes Transformadoras


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Autoria:
Patricia Knebel
Colaboração:
Patrícia Comunello
Caroline Cintra e Marta Saft são diretoras-presidentes da ThoughtWorks Brasil

Caroline Cintra e Marta Saft são diretoras-presidentes da ThoughtWorks Brasil

EDUARDO TAVARES - ARTE /JC

Poucas empresas transitam com tanta propriedade por temas como diversidade e impacto social da tecnologia como a ThoughtWorks, consultoria global de software com sede em Chicago (EUA) e que, em 2019, completou dez anos de atuação no Brasil, trajetória que iniciou no Tecnopuc, em Porto Alegre. A companhia lidera o ranking da Love Mondays como a mais amada do Brasil e, no início de dezembro, recebeu o Prêmio de Destaque na Promoção da Diversidade e Inclusão na América Latina no Chambers and Partners Diversity and Inclusion Awards, de Londres. Se para muitas companhias falar sobre esses temas hoje em dia virou mais estratégia de marketing do que vocação, na ThoughtWorks, a defesa dos direitos das populações que foram historicamente oprimidas está muito presente na cultura da empresa. Para falar sobre esse tema tão atual, o quarto episódio do Mentes Transformadoras traz a dupla de diretoras-presidentes da ThoughtWorks Brasil, as gaúchas Caroline Cintra e Marta Saft.
> PODCAST: Ouça este episódio e os anteriores
Marta Saft é formada em direito, pós-graduada em direito empresarial e tem MBA em Gestão de Business Law. Começou a carreira como advogada empresarial e foi consultora nessa área até 2012, quando iniciou sua trajetória na ThoughtWorks. Foi a responsável por implementar o departamento jurídico da empresa no Brasil.
Caroline Carbonell Cintra é bacharel e mestre em Ciência da Computação pela Ufrgs. Há 20 anos é consultora de tecnologia, tendo trabalhado com clientes de indústrias como Oracle, DBServer e HP. Nos últimos seis anos atua como executiva na ThoughtWorks Brasil.
> VÍDEO: Confira as ideias dessas Mentes Transformadoras
Jornal do Comércio – Qual o desafio de liderar, sendo mulher e de forma compartilhada, uma empresa de um setor ainda tão masculino?
Marta Saft – Liderar como mulher é desafiador no mundo de hoje. Em dupla, a gente reforça o nosso sistema de apoio. Em frente e ao lado, temos um espelho para os nossos desafios, inseguranças e até para as nossas forças – às vezes, esse mundo tão machista falha em reconhecer as nossas forças. É importante olhar para o lado e ter alguém que consiga empatizar com a gente, especialmente quando se lidera em um ambiente que pede por mais diversidade e por um olhar mais generoso com a diferença. Junto vem uma responsabilidade muito grande, especialmente para liderar para um coletivo que é extremamente diverso, sem perder de vista as necessidades de outras mulheres e de outros grupos minorizados que queremos contemplar em uma gestão que seja um pouco mais justa.
Caroline Cintra – Hoje se fala muito do ambiente de tecnologia e do ambiente de negócios, e o quanto precisamos nos reinventar. Há uma pressão grande, todo mundo está preocupado com a disrupção tecnológica e como os negócios vão sobreviver. Liderar como mulheres em um ambiente que historicamente tem um arquétipo masculino significa desafiar a forma de trabalhar e pensar sempre em como trazer mais autonomia, como construir as coisas em cocriação e pensar em ecossistemas. Mudar o status quo é sempre difícil. Do mesmo jeito que a gente reinventa negócios e formas de trabalhar, reinventa-se líderes e posturas.
JC – Como funciona a gestão compartilhada, já que a liderança pressupõe a tomada de decisões importantes e compatibilizar isso entre duas cabeças nem sempre é algo simples?
Marta – Quando a gente pensa em uma liderança que serve, fica mais fácil entender o modelo de liderança compartilhada. Não estamos liderando pela gente, nos despimos de ego e tentamos realmente pensar no coletivo. Estamos tomando decisões por uma organização. A liderança compartilhada não é para tomarmos decisões mais rápidas, mas para buscarmos decisões que são melhores, que contemplem todos os elementos que compõem os ambientes complexos com uma perspectiva que vai além da minha individual.
Caroline – Há uma jornada de construção que começa antes de a gente estar trabalhando juntas nesse papel, e que envolve conhecer e entender qual é o propósito da empresa onde trabalhamos, o que estamos buscando, o que os nossos clientes precisam e o que a nossa gente tem que desenvolver. Quando olhamos para esses valores e propósitos, vamos naturalmente nos acertando nas decisões. Isso envolve trazer perspectivas diferentes, até olhares diferentes de carreira e de vida.
JC – Hoje em dia se fala muito no poder das novas tecnologias exponenciais. Mas, como lidar com o impacto social disso e evitar que elas aumentem as desigualdades?
Caroline – Todas nós, tecnologistas, temos que ter uma consciência social muito bem formada. Precisamos pensar sobre como funciona o jogo da vida, as cartas que estão marcadas, quem está fora do jogo e olhar para a sociedade pensando o que é justo e o que precisa ser buscado. Como a gente traz para esse jogo os grupos que são historicamente discriminados? Como criar times diversos, incluindo mais mulheres, pessoas negras, LGBTQI+? Falar de diversidade virou mainstream. Mas, é preciso ter consciência social, até porque, é muito fácil pegar uma narrativa de diversidade e transformar ela em apoio do status quo.
Marta – A tecnologia não é neutra. Ao mesmo tempo que novas tecnologias surgem trazendo grandes expectativas, tem-se a impressão que espaços estão sendo fechados. Esses espaços tanto podem ser encurtados pela tecnologia como aumentados. Pessoas que antes não tinham acesso ao conhecimento, hoje conseguem com um computador e conexão à internet se qualificar. Mas, quando começa essa hiper automatização das coisas, a marginalização também ocorre muito mais rápido. Como tecnologistas, por mais que estejamos aqui olhando para o sucesso das nossas clientes, tentando entender como usar essas tecnologias de ponta, pois detemos uma ferramenta que é muito poderosa. É necessário ter consciência de que a aplicação de tecnologias que estamos criando pode ser para o bem ou para o mal. Não podemos perder a consciência de que pessoas estão sendo impactadas pelas tecnologias que estão sendo criadas.
JC – Como evitar a criação de algoritmos com viés?
Caroline – Devemos começar com muita consciência social, porque se a gente entende quais são os preconceitos que existem, quando automatizarmos os algoritmos e, portanto, as decisões, faremos isso com mais consciência. Temos a ideia de que, porque algo está em uma máquina, é objetivo. Mas, na verdade, tem preconceito inerente.
Marta – Tudo leva a um caminho em que teremos estruturas de governança dos algoritmos, que ajudarão a entender o que é aceitável e o que não é, a reconhecer de forma institucional quais são os vieses existentes e, assim, evitar que acabem embutidos nessas novas tecnologias. Sim, como a tecnologia é produzida por humanos, está sujeita a falhas. Precisamos de pessoas que se importem com isso e que estejam dispostas a dispender energia e tempo para criar ambientes mais equitativos. Ouvimos muitas conversas sobre diversidade que têm como foco neutralizar as diferenças, tratar as pessoas de uma forma igual. Mas, a gente acredita profundamente que o caminho é reconhecer que há desigualdade e os fatores externos e históricos que fizeram, por exemplo, com que eu, uma mulher branca, não partisse de uma jornada do mesmo lugar que uma mulher negra. Reconhecer quais são os desníveis no terreno, dentro e fora das nossas organizações, é importante porque vai dizer muito como endereçar essas situações.
JC - Como a diversidade impacta os negócios?
Caroline - Quando a gente pensa nas clientes que a gente tem, mais da metade da população sendo mulheres, mais da metade sendo negros, então é muito fácil de perceber que as clientes finais dos sistemas que estamos criando e dos projetos com os quais estamos engajadas é este público diverso. Faz sentido que os times que estão produzindo esses sistemas também sejam diversos.
Marta – Existem exemplos bem conhecidos, como de soluções de reconhecimento facial que, quando vão para o mercado, não são capazes de identificar pessoas negras ou com cor de pele de tom mais escuro porque o time que criou era de pessoas brancas. Eles testaram internamente, e quando o produto chegou para a população usuária final, não pode servir ao seu propósito, pois o time de desenvolvimento não considerou uma parcela importante da população. Do ponto de vista de negócio, é preciso ter pessoas diferentes trazendo suas experiências para colocar em um produto que vai ao mercado.
JC – A ThoughtWorks tem uma visão de mundo muito diferente da maioria das empresas. Qual o sentimento de vocês quando observam no que está sendo feito dentro da empresa e no mercado de uma forma geral?
Caroline – Eu me ressinto bem mais com a sociedade do que como mercado. A verdade é que nós não estamos livres das influências da sociedade, isso está em todas as pessoas. Por mais que se crie um ambiente que é consciente sobre diversidade, privilégios e exclusão, isso está na gente. Pelo que a gente cresceu vendo, pela visão de mundo, pela sensibilidade que a gente não tem, pelos privilégios que a gente tem e não enxerga quando falta para os outros. Quando olho para o mercado, vejo que tem muita gente sensibilizada. É importante que a cultura da organização abrace a diversidade. Isso não significa ter pessoas diferentes e todas se portando da mesma forma, mas respeitar formas de vestir, de falar, trejeitos e estilos de músicas. É preciso considerar a diferença para criar espaço para que as pessoas tenham voz. Olho para o mercado e vejo muita intenção, mas falta mais jornada.
Marta – É uma musculatura que a gente cria. A diversidade e a inclusão precisam ser exercitadas. Ninguém entra aqui construído, e não se prende essa temática de um dia para a noite. Para todas nós, ainda é uma jornada. É um trabalho que precisa partir de um lugar de humildade. A gente tem no DNA desejo de compartilhar. Gostamos de pensar que estamos aqui para inspirar e para construir um caminho.
Gostou deste conteúdo? Confira abaixo as próximas entrevistas da temporada. Saiba mais sobre o projeto Mentes Transformadoras e confira os outros episódios clicando aqui. Acesse a primeira temporada clicando aqui.
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Quem são as Mentes Transformadoras:

  José Galló, Presidente do Conselho de Administração da Lojas Renner
  Andreas Blazoudakis, Fundador e CEO do Delivery Center
  Caroline Cintra e Marta Saft, Diretoras-presidentes da ThoughtWorks no Brasil
  Cassio Bobsin, Fundador e CEO da Zenvia
  Gilson Trennepohl, Diretor-presidente da Stara
  Clovis Tramontina, Presidente do Conselho de Administração da Tramontina
  Marciano Testa, Fundador e CEO do Agibank
  Soraia Schutel, cofundadora da Sonata Leadership Academy
  Gustavo Goldschmidt, Fundador e CEO do Superplayer
  Cesar Paz, Empreendedor serial e co-fundador do Poa Inquieta
  Julio Ricardo Mottin Neto, Presidente do Grupo Dimed/Panvel
  Cleber Prodanov, Reitor da Feevale

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Reportagem publicada em 18/12/2019 pelo

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