'O pensamento criativo é a base da transformação', defende Cesar Paz


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Autoria:
Patricia Knebel
Colaboração:
Patrícia Comunello
Cesar Paz é empreendedor serial e cofundador do Porto Alegre Inquieta

Cesar Paz é empreendedor serial e cofundador do Porto Alegre Inquieta

NÍCOLAS CHIDEM/JC

Não é reproduzindo as mesmas ações de sempre que iremos resolver os velhos problemas. É preciso criatividade, senso crítico e senso prático para agirmos localmente e realizar as transformações que as empresas e as cidades precisam, defende o empreendedor serial e cofundador do Porto Alegre Inquieta, Cesar Paz. “O pensamento racional e o criativo sempre vão conviver, mas, se queremos transformar, temos que utilizar a base do pensamento criativo, que é a que nos leva para lugares diferentes”, projeta.
Paz é o personagem do décimo episódio da segunda temporada do Mentes Transformadoras. A série de vídeos e podcasts entrevista personalidades que falam sobre o cenário atual do mercado, os novos modelos de negócios que estão surgindo e os desafios deste mundo cada vez mais conectado.
> PODCAST: Ouça o episódio com Cesar Paz e os anteriores
PERFIL: Empreendedor serial, professor universitário, engenheiro e mestre em design estratégico, já trabalhou com estratégia digital para as principais marcas do mercado brasileiro incluindo Bradesco, Toyota, GM, Natura e Embraer. É um dos fundadores do movimento coletivo Porto Alegre Inquieta. Foi também fundador da AG2 Publicis e da Associação Brasileira de Agentes Digitais (ABRADi). Foi eleito pela plataforma Proxxima um dos 10 profissionais mais inovadores do mercado brasileiro.
> VÍDEO: Confira as ideias dessa mente transformadora
Jornal do Comércio – Como a inovação está ditando as transformações que estamos vivendo hoje em dia? 
Cesar Paz – Vivemos impactados por uma transformação brutal. E não só de tecnologias emergentes, mas de comportamentos que estão associados às inovações que chegam em uma dimensão gigante e exponencial. Essas transformações vêm acontecendo ao longo dos anos e, a partir do meio da década de 1990, tivemos um primeiro grande processo de inversão de paradigma, com a definição da arquitetura de internet. Passamos as duas últimas décadas basicamente refinando o processo de construção desse novo ambiente de conteúdo, informação e de tecnologia. Agora, o que se vê é a construção de um novo paradigma, que é o da Inteligência Artificial. A partir daí começamos a projetar diferentes ambientes, projetos e tecnologias que derivam dessa visão, afetando completamente o nosso comportamento.
JC – Como esse novo cenário impacta a comunicação?
Paz – Essa visão de evolução da tecnologia na relação com o humano é incrível, porque a gente trabalha sempre com a ficção, correndo atrás do que vai se tornar realidade. Hoje em dia se fala muito, por exemplo, de interface de voz ou de Internet das Coisas. Imagina as coisas se conectando à nuvem, incorporando de alguma forma Inteligência Artificial e a interface de voz, que é o elemento básico de comunicação e desenvolvimento de todas as sociedades? A partir daí você passa a ter um modelo realmente disruptivo na sua forma e na sua essência mais básica de como a gente se relaciona com a informação. Se hoje eu tenho um desenho que é fundamentalmente de tela multi touch para acessar informação, conteúdo e serviço, posso já enxergar que, ali na frente, poderemos ter essas telas substituídas por uma visão de design conversacional. Existe, sim, de alguma forma, um processo de superestimar isso tudo, mas a verdade é que a gente vem confirmando boa parte do que a ficção nos propôs.
JC – As empresas estão conseguindo se aproveitar dessas tecnologias para se comunicar bem com as pessoas?
Paz – As empresas, de uma forma geral, também são reféns desse processo de transformação. É lógico que quando a gente fala de empresas emergentes, elas já nascem dentro de uma lógica de se apropriar bem de todos esses novos elementos de comunicação, que estão muito baseados no design de experiência, na parte racional de toda a comunicação e nas tecnologias de desenvolvimento e de mídia. Mas, no caso das tradicionais, que seguem uma lógica de comunicação de várias décadas, existe sempre um desafio muito grande de se apropriar das novas disciplinas que compõem os modelos de comunicação para refazer toda a sua lógica de produzir comunicação. Isso nunca é fácil.
JC - Não te parece que básico da comunicação das empresas com os consumidores segue sendo negligenciado?
Paz – Cada vez mais a construção de uma marca envolve experiência. Eu tenho certeza que muitas empresas, no afã de racionalizar o processo de comunicação, esquecem elementos básicos. Existe um campo gigantesco que é o da emoção, que não pode ser esquecido. A gente constrói as nossas relações com as marcas, e consequentemente, nossos comportamentos e hábitos de consumo a partir de experiências positivas e prazerosas vividas. Se comemos um determinado tipo de iogurte no café da manhã, é porque existe uma conexão com a marca daquele produto, mesmo que esse não seja um processo racional. Ao mesmo tempo, há uma nova forma de se fazer comunicação a partir de um lado muito racional, pautado pela ciência de dados, pelo Business Intelligence, mas isso não é suficiente, pois a comunicação tem também um lado emocional. Então, sim, algumas marcas acham que todo o processo de comunicação, que é um processo complexo, pode ser racionalizado. E isso é um engano.
JC – Essa mesma transformação está impactando as cidades. Você é otimista com o que está acontecendo em Porto Alegre?
Paz – Vivemos em Porto Alegre um momento de alinhamento dos astros a favor de um processo necessário de transformação de território, da cidade, de uma visão que não é só de tecnologia, mas de inovação no seu sentido mais amplo a partir da utilização básica do pensamento criativo. É um momento rico, no qual a cidade dialoga sobre esses temas por meio da participação importante da sociedade organizada. Precisamos construir esse tecido social que clama por um projeto que independa de visão político-partidária, que seja de longo prazo e tenha sustentação para transformar essa cidade, em que os sistemas básicos funcionem, como educação, transporte e saúde.
JC – Como o POA Inquieta se conecta com esse movimento?
Paz – Estamos seguindo exemplos de cidades que já fizeram esse processo de transformação. Costumamos destacar sempre lugares como Vancouver, Barcelona, Montreal, Vale do Silício. Mas, no caso do Porto Alegre Inquieta, a inspiração foi Medellín, que é uma cidade latino-americana que saiu, em 20 anos, de um patamar de cidade mais perigosa do mundo para se tornar, em diferentes critérios, uma das mais criativas. Tudo isso a partir de uma visão completamente inclusiva de transformação e desenvolvimento. O processo de construção do POA Inquieta é o da inovação organizacional e social enquanto coletivo. A inovação tem que estar expressa em diferentes dimensões. O caminho é utilizar o pensamento criativo para não reproduzirmos as coisas da mesma forma. Existem duas formas de pensar: a do pensamento convencional, que reproduz a mesma coisa sempre, e o criativo, onde a ideia é fazer algo a partir de novos elementos. Essas duas formas de pensamento convivem e vão continuar convivendo. Só que, se queremos transformar, temos que utilizar a base do pensamento criativo, que é a que nos leva para lugares diferentes. O pensamento criativo sempre vai estar pautado por senso crítico, criatividade e senso prático. Só a partir deste tripé é que conseguiremos entregar coisas objetivas, seja para uma empresa ou cidade. Se reproduzir as coisas da mesma forma, o tempo vai se esgotar.
JC – Qual é a essência de um ser inquieto?
Paz – Inquietude é o que nos projeta para lugares diferentes, novos e transformadores. A partir do momento que isso acontece, temos uma capacidade especial de solução de problemas complexos e reais. Não é reproduzindo as mesmas soluções que vamos enfrentar os novos problemas. Um ser inquieto é um ser que vive em constante movimento e que, a partir de uma visão do senso crítico, é capaz de encarar desafios que acabam, de alguma forma, melhorando a vida das pessoas ou pelo menos das comunidades onde as pessoas vivem.
JC – É mais fácil sermos mobilizados pelas causas locais?
Paz – É muito diferente você se inquietar com o aquecimento global ou com os buracos da sua rua. Encontrar o equilíbrio nessa inquietude entre o que é local e o que é global faz parte de um processo de encontrar a melhor forma de agirmos e nos movimentarmos. Eu, atualmente, tenho focado nessa construção de solução e pensamento a partir da visão da transformação local, pois acho que as principais batalhas vão ser travadas nos territórios e nas cidades e, a partir disso, nos conectaremos a uma visão global.
OUTROS EPISÓDIOS: Confira abaixo as próximas entrevistas da temporada. Saiba mais sobre o projeto Mentes Transformadoras e confira os outros episódios clicando aqui. Acesse a primeira temporada clicando aqui.
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Quem são as Mentes Transformadoras:

  José Galló, Presidente do Conselho de Administração da Lojas Renner
  Andreas Blazoudakis, Fundador e CEO do Delivery Center
  Caroline Cintra e Marta Saft, Diretoras-presidentes da ThoughtWorks no Brasil
  Cassio Bobsin, Fundador e CEO da Zenvia
  Gilson Trennepohl, Diretor-presidente da Stara
  Clovis Tramontina, Presidente do Conselho de Administração da Tramontina
  Marciano Testa, Fundador e CEO do Agibank
  Soraia Schutel, cofundadora da Sonata Leadership Academy
  Gustavo Goldschmidt, Fundador e CEO do Superplayer
  Cesar Paz, Empreendedor serial e co-fundador do Poa Inquieta
  Julio Ricardo Mottin Neto, Presidente do Grupo Dimed/Panvel
  Cleber Prodanov, Reitor da Feevale

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Reportagem publicada em 12/02/2020 pelo

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