'As startups desafiam, mas só vão morrer as empresas tradicionais que não inovarem', diz Clovis Tramontina

Presidente do Conselho de Administração da Tramontina é o personagem do novo episódio da série Mentes Transformadoras


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Autoria:
Patricia Knebel
Colaboração:
Patrícia Comunello
Clovis Tramontina é o presidente do Conselho de Administração da Tramontina

Clovis Tramontina é o presidente do Conselho de Administração da Tramontina

ARTE JC

As startups estão aí, com seus empreendedores impetuosos e novos modelos de negócios, mais leves e conectados com o que os consumidores da era digital esperam. São operações que, de acordo com o presidente do Conselho de Administração da Tramontina, Clovis Tramontina, desafiam verdadeiramente as tradicionais, porém, não representam o fim delas. “Vamos continuar bebendo refrigerante e vinho e, por outro lado, fabricando facas, panelas e ferramentas. As corporações que estão há mais tempo no mercado permanecerão. Só vão morrer as que não se atualizarem, que não inovarem”, alerta.
O executivo é o personagem do sexto episódio dessa temporada de Mentes Transformadoras. A série de vídeos e podcasts entrevista personalidades que falam sobre o cenário atual do mercado, os novos modelos de negócios que estão surgindo e os desafios deste mundo cada vez mais conectado.
> PODCAST: Ouça o episódio com Clovis Tramontina e os anteriores
PERFIL: O empresário Clovis Tramontina preside desde 1992 uma das maiores indústrias do país que se mantêm genuinamente brasileira. A Tramontina desenvolve e produz em solo nacional mais de 18 mil produtos e possui cerca de 8 mil funcionários em dez unidades fabris.
> VÍDEO: Confira as ideias dessa mente transformadora
Jornal do Comércio - O senhor se sente desafiado com essas mudanças aceleradas que o mercado está vivendo?
Clovis Tramontina - Sim, para mim, é um grande desafio. Tenho 64 anos, então eu sou de uma outra época. Fui um homem que sempre gostou de vendas, de pegar a minha pastinha, ir ao cliente e fazer os pedidos no talão, por escrito. Então, ver esse mundo todo conectado, é um grande desafio. As empresas não podem ficar alheias a isso, querendo negar o que está acontecendo. Quem quer evoluir, tem de estar presente neste novo cenário.
JC - As barreiras para a entrada de novas empresas caíram muito, o que tem acelerado a entrada no mercado de startups. Isso assusta quem está há mais tempo no mercado?
Tramontina - Sem dúvida nenhuma. Essas empresas que estão vindo e que são desejadas pelas pessoas, são muito importantes porque nos desafiam. Porém, é importante saber que as tradicionais vão se manter no mercado. Vamos continuar bebendo refrigerante, vinho, cerveja; e vamos seguir fabricando facas, panelas e ferramentas. Só vão morrer as que não se atualizarem, que não inovarem. A Tramontina tem 108 anos, mas não pode ser um elefante, não pode ser uma empresa pesada, atrasada. Precisamos ser uma companhia à frente e, para isso, é importante ver estas novas tecnologias e aplicá-las de forma rápida para apresentar uma solução diferente para o consumidor. Nós queremos fazer bonito também em tecnologia.
JC - Qual a linha que separa as empresas líderes de mercado das retardatárias?
Tramontina – O investimento em pessoas. São as pessoas que fazem a mudança, não a tecnologia, e se elas não quiserem que isso aconteça, não vai acontecer. Por isso, temos mesmo que provocar as pessoas. Alguns vão conseguir acompanhar, outras não, e aí é uma pena. Quando uma empresa como a nossa tem em seu DNA a vocação de ser inovadora, aceita essas provocações, essas mudanças. Lembro que quando surgiu o computador, na década de 1970 e 1980, o sócio do meu pai logo quis oferecer um curso de introdução ao processamento de dados, que foi uma maneira de não ter medo do computador. Isso ajudou a gente a pensar de maneira diferente e para frente já naquela época.
JC - Os consumidores estão exigindo mais tecnologia nos produtos?
Tramontina - Não diria que é o consumidor que está exigindo, mas é uma coisa que temos de evoluir se quisermos acompanhar esses novos tempos. Se não fizermos isso, vamos ficar para trás e alguém vai fazer. No século passado, o conhecimento levava 100 anos para ser absorvido, mas no próximo ano, o que estamos falando aqui já será obsoleto em 12 horas. Vamos ter de pensar em coisas novas. Não podemos fornecer uma panela como se fornecia há 20 ou 30 anos. A panela pode ser a mesma, mas temos que ter, por exemplo, um aplicativo que oriente o tempo de cozimento ou que tenha um sistema de pesagem. Estamos trabalhando neste sentido. Temos consultores atuando junto com a gente e, apesar de não estarmos tão próximos das startups, estamos junto a universidades, principalmente a Unisinos e a Ufrgs.
JC - Que projetos devem avançar mais rapidamente?
Tramontina - Queremos colocar Internet das Coisas nos nossos produtos. Este é um desafio muito grande, afinal de contas, os nossos produtos são comuns e precisam ser modernizados. Também estamos evoluindo com uma solução que possa ajudar no controle do cozimento. Esses são os dois embriões dos novos sistemas da Tramontina para vendermos produtos com mais tecnologia aplicada. Outro aspecto é aproximar as lojas físicas e o e-commerce. Queremos entregar o produto final onde o consumidor quiser, em curto espaço de tempo. As nossas plantas estão todas atualizadas tecnologicamente. O grande desafio é vender de forma mais ágil a partir dessa digitalização das coisas.
JC - Em que aspectos o Brasil precisa evoluir para criarmos novas empresas e dar a oportunidade para que as que já estão no mercado sejam cada vez mais fortes?
Tramontina - O grande entrave do Brasil se chama burocracia. Precisamos ter menos burocracia e dar mais liberdade para as empresas, acreditar mais na iniciativa privada, que tem de ter lucro e buscar resultado. Esse é o grande segredo. Outra questão é buscar a meritocracia. O dia em que tivermos isso no Brasil, em todos os setores, teremos sucesso. A gente discute a estabilidade ou não estabilidade no setor público - é uma grande bobagem. Vamos discutir meritocracia no setor público e todo mundo será feliz. Só não quer meritocracia quem não tem mérito e quem não tem mérito não precisa estar aí.
JC - Que conselho o senhor daria para um jovem empreendedor que está começando a sua jornada profissional?
Tramontina - Primeiro: quem quer empreender, tem de correr riscos. Segundo: você tem que ser apaixonado por aquilo que vai fazer. Se não tiver paixão, não vai ter sucesso. E, terceiro: invista em pessoas. Esses são os três pilares.
JC - O que o senhor valoriza mais. Uma boa ideia ou um bom empreendedor?
Tramontina – Um bom empreendedor. Até porque, uma ideia, com um péssimo empreendedor, está morta. Agora, um bom empreendedor leva qualquer ideia adiante. Pode ter certeza.
Gostou deste conteúdo? Confira abaixo as próximas entrevistas da temporada. Saiba mais sobre o projeto Mentes Transformadoras e confira os outros episódios clicando aqui. Acesse a primeira temporada clicando aqui.
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Quem são as Mentes Transformadoras:

  José Galló, Presidente do Conselho de Administração da Lojas Renner
  Andreas Blazoudakis, Fundador e CEO do Delivery Center
  Caroline Cintra e Marta Saft, Diretoras-presidentes da ThoughtWorks no Brasil
  Cassio Bobsin, Fundador e CEO da Zenvia
  Gilson Trennepohl, Diretor-presidente da Stara
  Clovis Tramontina, Presidente do Conselho de Administração da Tramontina
  Marciano Testa, Fundador e CEO do Agibank
  Soraia Schutel, cofundadora da Sonata Leadership Academy
  Gustavo Goldschmidt, Fundador e CEO do Superplayer
  Cesar Paz, Empreendedor serial e co-fundador do Poa Inquieta
  Julio Ricardo Mottin Neto, Presidente do Grupo Dimed/Panvel
  Cleber Prodanov, Reitor da Feevale

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Reportagem publicada em 16/01/2020 pelo

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