'A tecnologia deve ser pensada para o produtor', aponta Gilson Trennepohl

Diretor-presidente da Stara é o último convidado do Mentes Transformadoras em 2019


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Autoria:
Patricia Knebel
Colaboração:
Patrícia Comunello
Gilson Trennepohl é diretor-presidente da Stara

Gilson Trennepohl é diretor-presidente da Stara

EDUARDO TAVARES - ARTE/JC

Em 2020, quando completar 60 anos de idade e 35 anos de trabalho na Stara, o diretor-presidente da companhia, Gilson Trennepohl, vai entregar o bastão para seu filho, Átila Stapelbroek Trennepohl, atual vice-presidente, assumir o principal posto da empresa que ele ajudou a decolar. A Stara exporta para 35 países, conta com 2,5 mil trabalhadores e se tornou uma referência em tecnologia de ponta, feito importante para quem está competindo em um mercado de uso intensivo das inovações e formado por players globais. “São 35 anos que me divirto e nos quais pude ver os meus sonhos na Stara se transformarem em realidade. Meu filho está há mais de 15 anos trabalhando na empresa e é um jovem com muita energia e vontade de transformar”, conta. Quando esse processo de sucessão se completar, Trennepohl vai assumir a presidência do conselho da Stara.
O executivo é o personagem do quinto episódio do Mentes Transformadoras, o último de 2019. A série de vídeos e podcasts entrevista personalidades sobre o cenário atual do mercado, os novos modelos de negócios que estão surgindo e os desafios deste mundo cada vez mais conectado. Os episódios retornam em 17 de janeiro de 2020, com Clovis Tramontina
> PODCAST: Ouça o episódio com Gilson Trennepohl e os anteriores
PERFIL: Gilson Trennepohl nasceu em Ibirubá-RS e ainda jovem mudou para Não-Me-Toque em busca de oportunidades. Começou a trabalhar na Stara em 1984, passando por diversas áreas até se tornar o diretor presidente da operação, em 2006. Foi sob seu comando que a Stara vivenciou um grande crescimento com a criação de novos produtos e destaque no cenário do agronegócio brasileiro e mundial. A empresa possui a maior linha de máquinas agrícolas do Brasil e exporta seus produtos para 35 países nos cinco continentes.
> VÍDEO: Confira as ideias dessa Mente Transformadora
Jornal do Comércio – A Stara conseguiu se transformar em um case de sucesso nacional ao investir no desenvolvimento de tecnologia própria e de ponta, em um segmento dominado por multinacionais. Como foi essa aposta?
Gilson Trennepohl – No começo do plantio direto, ainda se queimava muito palhada, muitas pessoas trabalhavam manualmente e carregavam fertilizantes e grãos nas costas. Depois houve um período de forte crescimento das máquinas. Isso aconteceu nos anos de 1980, 1990 e início dos anos 2000, quando entrou no ar a agricultura de precisão. A Stara foi a primeira empresa que acreditou que poderia fazer tecnologia que fala português e capaz de se comunicar com o mundo inteiro. Comprar computador e placa se compra em qualquer lugar, mas a parte de software, que trabalhamos intensamente no Brasil, foi o diferencial. Fizemos isso para evitar o uso da tecnologia quadrada, que vinha de fora e precisava ser preparada para tentar atender as necessidades do mercado brasileiro. Hoje, as nossas máquinas competem com as estrangeiras, e em algumas situações, com vantagem porque entendemos melhor o que o agricultor local precisa. Essa evolução constante foi espetacular e colocou Não-Me-Toque no cenário gaúcho e brasileiro como capital nacional da agricultura de precisão. É um pedaço do sonho que se transformou em realidade a partir das nossas máquinas inteligentes.
JC – Como é criar a cultura da inovação e fazer com que esta visão perpasse todas as lideranças e colaboradores?
Trennepohl – Não é tarefa muito fácil. Exige, realmente, uma persistência muito forte. As pessoas, às vezes, têm vontade de desistir. Temos que fazer todos andarem juntos, decolarem no mesmo voo, ter a mesma ambição. O cara de TI pode ser cheio de sonhos, mas se o que ele criar não funcionar agronomicamente, não passa de um sonho mal construído. Não adianta fazer coisas que não serão usadas. Temos que construir coisas para o produtor usar e para isso é preciso entender como é uma fazenda no Mato Grosso, Paraná e Goiás. Não adianta pensar que vai ter um doutor em cima da máquina 24 horas, não é assim. Quem vai estar será um operador, muitas vezes quase analfabeto. Entender isso é a parte mais difícil no processo de pensar a inovação.
JC – As ideias dos startups de agronegócios podem contribuir com a transformação do setor?
Trennepohl – Coisas maravilhosas podem acontecer ao trabalharmos com pessoas e ideias transformadoras, que vão levar uma vida muito melhor para o homem do campo e elevar a produtividade. Estamos trabalhando muito forte com universidades e centros tecnológicos, e também com startups. Um exemplo é um projeto que estamos finalizando e que vamos lançar em 2020 de uma máquina que pode reduzir até 96% o uso de um agroquímico. Isso, sim, é uma ideia extraordinária. O sistema vai ler em tempo real que planta e o local não precisam de certo herbicida ou fungicida. Isso vai fazer uma grande diferença. Vamos fazer alimentos com maior qualidade e menos uso de defensivos agrícolas.
JC - O senhor acredita o setor de agronegócio está usando todo o potencial tecnológico que existe hoje disponível ou ainda é precisa avançar mais?
Trennepohl – Precisamos avançar, temos que trabalhar muito ainda. O aprendizado é um caminho sem fim. Esse conhecimento tem de ser espraiado todo dia, tem que ser levado adiante por pessoas competentes, e não ficar em uma gaveta. Precisamos de ideias que sejam aplicáveis.
JC – As tecnologias estão incentivando as novas gerações a ficarem no campo?
Trennepohl – Sim. Nos anos 1970, os jovens vinham para a capital e nunca mais voltavam. Hoje, com a tecnologia e com essas máquinas extremamente modernas, eles estão voltando para o campo. E estão voltando com um conhecimento que os pais deles talvez não tenham, já que vivem em um mundo conectado. Antes, quando eles voltavam da faculdade, às vezes formados como agrônomos, queriam mudar o que já vinha dando certo e batiam de frente com o pai. Hoje, essa conexão está dando tri certo, e pais e filhos estão conversando e contribuindo com aquilo que sabem. Eu sei como plantar e meu filho sabe que, se tiver tal máquina e ela estiver conectada à nuvem, em vez de olharmos esse plantio que não foi bem feito só quando estiver germinando, poderemos conferir em tempo real e fazer a correção rapidamente. Isso está gerando uma parceria espetacular. Essa é uma oportunidade que o Brasil está tendo, não vejo isso lá fora. A velocidade com que os jovens recebem um monte de informação vai facilitar a chegada das novas tecnologias no campo e vamos ter muitos resultados positivos. O Brasil tem produtores jovens com filhos jovens, que estão com 18 a 25 anos, e que estão na ponta dos cascos para começar a render. Os dois juntos vão construir espaço aonde podem conviver sadiamente porque um sabe produzir e o outro entende de tecnologia.
JC - As máquinas agrícolas têm cada vez mais capacidade de coletar dados. Como transformar essas informações em inteligência para o negócio?
Trennepohl – Informação por informação que não se traduz em produção. A informação tem que gerar um dado que possa ser transformado em benefícios, seja levando a uma redução de custo ou aumento de produtividade. Minha porta está aberta, só não vem dizer o que eu já sei. Me diz alguma coisa que eu não sei e me orienta sobre o que fazer com essa informação. O que faço com ela, ela vai produzir o que mais? É fundamental que essas startups estejam ligadas nisso.
JC - Como fica a questão da segurança dos dados que estão coletados dos produtores pelas máquinas?
Trennepohl – ´Os meus dados vão para quem´? Essa é uma pergunta que todo produtor me faz, até porque esse assunto preocupa muito eles. Os dados são do produtor, e estamos trabalhando isso com o mercado de máquinas, pois precisamos evitar que essas informações caiam em uma cadeia e que fique incontrolável.
JC – O senhor está otimista com todo esse movimento da inovação em torno de um setor tão importante para o Brasil?
Trennepohl – Sou muito otimista. Onde no mundo é possível produzir duas culturas como soja e milho e ainda ter capacidade de explorar a pecuária? Não é à toa que estamos vendendo máquinas extremamente modernas. O Brasil é vocacionado para isso. Sou muito otimista com o país, acho que temos que ser resilientes e passar por tudo que está acontecendo e sairmos ainda mais fortes. O Brasil poderia estar tranquilamente entre os cinco maiores Produto Interno Bruto (PIB).
Gostou deste conteúdo? Confira abaixo as próximas entrevistas da temporada, que retorna em 17 de janeiro de 2020. Saiba mais sobre o projeto Mentes Transformadoras e confira os outros episódios clicando aqui. Acesse a primeira temporada clicando aqui.
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Quem são as Mentes Transformadoras:

  José Galló, Presidente do Conselho de Administração da Lojas Renner
  Andreas Blazoudakis, Fundador e CEO do Delivery Center
  Caroline Cintra e Marta Saft, Diretoras-presidentes da ThoughtWorks no Brasil
  Cassio Bobsin, Fundador e CEO da Zenvia
  Gilson Trennepohl, Diretor-presidente da Stara
  Clovis Tramontina, Presidente do Conselho de Administração da Tramontina
  Marciano Testa, Fundador e CEO do Agibank
  Soraia Schutel, cofundadora da Sonata Leadership Academy
  Gustavo Goldschmidt, Fundador e CEO do Superplayer
  Cesar Paz, Empreendedor serial e co-fundador do Poa Inquieta
  Julio Ricardo Mottin Neto, Presidente do Grupo Dimed/Panvel
  Cleber Prodanov, Reitor da Feevale

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Reportagem publicada em 22/12/2019 pelo

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