'Em cenário de múltiplos futuros, formar talentos é desafiador', analisa Cleber Prodanov


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Autoria:
Patricia Knebel
Colaboração:
Patrícia Comunello
Cleber Prodanov é o reitor da Universidade Feevale

Cleber Prodanov é o reitor da Universidade Feevale

NÍCOLAS CHIDEM/JC

Se no passado a proximidade entre a academia e o mercado era tema delicado, hoje em dia se tornou indispensável diante do desafio de construir um cenário de inovação e preparar os talentos para um futuro cada vez menos linear. Mas, para o reitor da Universidade Feevale, Cleber Prodanov, as instituições de ensino não podem ficar de joelhos para as empresas. “A universidade tem de ser visionária e assumir o seu protagonismo, e para ter isso não pode pensar no ontem e nem no hoje, mas no futuro”, alerta, destacando que o desafio é pela formação continuada das pessoas, e não imediatista.
Prodanov é o personagem do 12º episódio do Mentes Transformadoras, o último da segunda temporada. A série de vídeos e podcasts entrevista personalidades que falam sobre o cenário atual do mercado, os novos modelos de negócios que estão surgindo e os desafios deste mundo cada vez mais conectado.  
> PODCAST: Ouça o episódio com Cleber Prodranov e os anteriores
PERFIL: Cleber Prodanov é o reitor da Universidade Feevale, doutor em História Social e professor titular da instituição. De 2011 a 2014 foi secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico do Estado do Rio Grande do Sul. Foi pró-reitor de Inovação da Universidade Feevale, responsável pelo Feevale Techpark e pela Incubadora Tecnológica da Feevale no período de 2015 a 2018. Atualmente, também é secretário do Consórcio das Universitárias Comunitárias Gaúchas (Comung).
> VÍDEO: Confira as ideias dessa mente transformadora
Jornal do Comércio – O ensino tradicional está sendo muito questionado sobre a sua capacidade de formar os talentos do futuro. Como você percebe esse desafio para as universidades?
Cleber Prodanov – Formar os talentos do futuro é uma tarefa bastante complicada, até porque, a leitura que a gente faz do futuro não é linear, é muito fragmentada. Não temos um futuro, mas múltiplos futuros. O que a universidade ou qualquer instituição de ensino superior tem de se preocupar é em entender que não há um futuro certo. Não tem um único caminho a trilhar. São múltiplas as oportunidades e, por isso, tem de ser múltiplas as maneiras como a gente vai tentar chegar lá. O mundo de hoje é um mundo onde as pessoas têm pressa, é o mundo da tecnologia, de fazer as coisas melhor, mais rapidamente e de formas diferentes. É fundamental para uma universidade estar ligada ao avanço da ciência e do conhecimento, porém é preciso dar um passo adiante e trabalhar na formação de cidadãos que possam transformar o mundo. Precisamos apostar um pouco na transformação desse conhecimento dando um passo a mais em direção à inovação e a uma atitude mais empreendedora e inovadora. Não vamos voltar a ser como éramos no século 20 ou no início do século 21. Vai ser bem diferente. Não sei se melhor ou pior, mas será brutalmente diferente. Temos de ter mindset completamente diferente do que se tem agora. É um desafio, que se constrói a cada dia, sempre pensando em múltiplas visões desse futuro.
JC – Como estruturar uma grade curricular que contemple essa nova visão de futuro?
Prodanov – A estrutura da grade curricular não pode ser tão pesada. Talvez tenhamos que ter algumas trilhas flexíveis, repensando o tempo que se permanece dentro dessas caixas de cada disciplina. Elementos de educação a distância chegam com muita força dentro dessa perspectiva em que precisamos pensar que o lugar da universidade não tem de ser o lugar da universidade. A universidade tem de ser o lugar da sociedade. Neste sentido, espaços de inovação são fundamentais para propiciarmos a convivência de empreendedores, inovadores, alunos, professores. Criar um espaço onde esse aprendizado seja facilitado pela estrutura curricular que a gente tenha e também pelas oportunidades que vão surgindo nesse contato do dia a dia com as empresas. O fundamental é tentar não trabalhar com a visão de sala de aula, mas transformar o ambiente de educação em um ambiente mais aberto e de inovação.
JC – O que podemos esperar da sala de aula do futuro?
Prodanov – A universidade tem de se tornar um grande ambiente de inovação e a sala de aula está fadada a se transformar radicalmente ou, quem sabe até, desaparecer como conceito tradicional que tem. Hoje quando a fala de TV e rádio, por exemplo, pensamos na mídia tradicional, mas qual o futuro da TV e do rádio? Neste caso, o novo modelo de sala de aula tem que ser um ambiente que transforme a imagem e o som em um produto que vai ser percebido e desenvolvido de uma forma diferente da convencional. Estamos formando pessoas com boa capacidade televisiva, mas talvez isso não seja verdade nos próximos cinco anos. Talvez estejamos formando uma pessoa para um gueto. Ao trabalhar com esses espaços tradicionais, temos de criar janelas para o futuro. Isto é transformar a sala de aula em um ambiente inovador.
JC – Muitas universidades estão gerindo hoje em dia seus próprios ambientes de inovação. Como isso impacta o ensino?
Prodanov – A principal questão de ter um ecossistema ligado a universidade é criar uma perspectiva em que esses ecossistemas representem um novo conceito, e que ele explicite o que a gente quer implantar na universidade, como ser mais inovadora, empreendedora e um espaço aberto a convivência entre as pessoas. Ou seja, criar as condições para que a gente possa transformar a universidade de dentro para fora. Esses ambientes ajudam a oxigenar a operação, ter uma proximidade constante com a sociedade e com o mundo do trabalho. Não é a universidade que cria o ecossistema, mas ela que busca que esse ecossistema tenha ação.
JC – Ainda existe um limite de aproximação desejável entre a universidade e o mercado?
Prodanov – Esse é um grande dilema. Sociedade e empresas, às vezes, são mais imediatistas, e a universidade tem de ter visão de futuro, não pode estar de joelhos para as empresas fazendo a formação do dia a dia. Nossa missão é criar lideranças tecnológicas e de gestão para o futuro em que as empresas querem estar. A universidade tem de ser visionária e assumir o seu protagonismo, e para ter isso não pode pensar no ontem e nem no hoje.
JC – Essa transformação da universidade começa por onde?
Prodanov – Não sei exatamente onde começa, só sei onde termina: na sociedade, que é o nosso aluno e as pessoas com quem interagimos. Obviamente que isso sempre parte de um desejo institucional. A Feevale tem isso no seu DNA, está escrito na constituição da universidade que ela foi criada para que as pessoas não tivessem de sair de suas localidades e pudessem ajudar suas empresas a se desenvolver e as suas comunidades. Não queremos ser igual, mas cumprir a nossa trajetória que é de ser uma universidade transformadora. Não se faz nada sem a estrutura, laboratórios, ambientes de inovação, mas a mola propulsora são as pessoas.
JC – Esses ambientes de inovação revigoram também a pesquisa, já que vemos cada vez mais pesquisadores criando as suas startups?
Prodanov – A gente fica feliz quando um colega consegue uma patente, mas ficamos mais felizes ainda quando conseguimos ter uma aplicação no mercado que transforme um grupo de pessoas em uma empresa que emprega e gera faturamento a partir de um conhecimento que foi gerado em um laboratório. Pode ser uma nanotecnologia, um aplicativo, uma vacina, enfim, o que importa é que tenha impacto nas pessoas e produza uma melhoria na sociedade.
JC – Como ex-gestor público, como você percebe a evolução do Rio Grande do Sul neste cenário de inovação?
Prodanov – Estou começando a ficar satisfeito. Existem várias experiências no Rio Grande do Sul que são altamente positivas. As pessoas que estão militando nessa área têm cada vez mais consciência de trabalhar em rede. O Brasil precisa avançar muito, somos muito incipientes em transformar ideias em negócios. Mas hoje é muito melhor do que há 15 anos ou 20 anos, quando a gente falava em parque tecnológico e se imaginava algo pesado e duro. Hoje podemos falar em ambiente de inovação sem pensar em um parque. Podemos transformar um laboratório em um grande ambiente de inovação, incubar projetos externamente e sermos criativos na forma como estimulamos as pessoas a empreenderem e a pensar diferente.
OUTROS EPISÓDIOS: Confira abaixo as próximas entrevistas da temporada. Saiba mais sobre o projeto Mentes Transformadoras e confira os outros episódios clicando aqui. Acesse a primeira temporada clicando aqui.
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Quem são as Mentes Transformadoras:

  José Galló, Presidente do Conselho de Administração da Lojas Renner
  Andreas Blazoudakis, Fundador e CEO do Delivery Center
  Caroline Cintra e Marta Saft, Diretoras-presidentes da ThoughtWorks no Brasil
  Cassio Bobsin, Fundador e CEO da Zenvia
  Gilson Trennepohl, Diretor-presidente da Stara
  Clovis Tramontina, Presidente do Conselho de Administração da Tramontina
  Marciano Testa, Fundador e CEO do Agibank
  Soraia Schutel, Cofundadora da Sonata Leadership Academy
  Gustavo Goldschmidt, Fundador e CEO do Superplayer
  Cesar Paz, Empreendedor serial e co-fundador do Poa Inquieta
  Julio Ricardo Mottin Neto, Presidente do Grupo Dimed/Panvel
  Cleber Prodanov, Reitor da Feevale

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Reportagem publicada em 26/02/2020 pelo

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