"Líder arrogante não engaja cliente nem colaborador", diz Soraia Schutel


Continuar
Autoria:
Patricia Knebel
Colaboração:
Patrícia Comunello
Soraia Schutel é cofundadora da Sonata Leadership Academy

Soraia Schutel é cofundadora da Sonata Leadership Academy

NÍCOLAS CHIDEM/JC

Será que estamos evoluindo? Será que a tecnologia vai realmente responder a todos os nossos dilemas? Essas são algumas das questões que a cofundadora da Sonata Leadership Academy, Soraia Schutel, aponta como fundamentais para que gestores, empreendedores e educadores reflitam. “Em plena era digital, começamos a entender que não é só a evolução tecnológica que responde às nossas ansiedades. Vivemos um processo de resignificar o ser humano, que não é um ser tecnológico por essência”, comenta.
Soraia é a personagem do oitavo episódio do Mentes Transformadoras. A série de vídeos e podcasts entrevista personalidades que falam sobre o cenário atual do mercado, os novos modelos de negócios que estão surgindo e os desafios deste mundo cada vez mais conectado.
> PODCAST: Clique aqui e ouça todos os nossos programas
PERFIL: Soraia Schutel é a cofundadora da Sonata Leadership Academy, escola de liderança especializada em desenvolvimento de human skills e viagens com propósito pelo mundo. Doutora em Administração, tem experiências acadêmicas nas principais universidades do mundo como Harvard University, HEC Montreal, Schumacher College e Universidade estatal de São Petersburgo.
> VÍDEO: Confira as ideias dessa mente transformadora
Jornal do Comércio – Como lidar com os desafios humanos nessa nova era digital?
Soraia Schutel – O paradigma e o momento social que vivemos hoje nunca existiu antes na história da humanidade, tanto do ponto de vista da evolução tecnológica de interconexão global e de acesso à informação como das crises humanas. Nunca se viu tantos problemas de depressão, suicídio e outras doenças da psique. Isso mostra o dilema que vivemos, pois, apesar da evolução tecnológica, precisamos cada vez mais olhar para o ser humano e para onde estamos indo. Será que isso é evolução? Será que apenas a tecnologia vai realmente responder a todos os nossos dilemas? Ao mesmo tempo em que evoluímos em termos de Inteligência Artificial, estamos buscando nos reconectar com as nossas raízes. Vivemos o paradoxo do excesso e de tudo que está disponível hoje em dia com a necessidade de nos voltarmos cada vez mais a sermos humanos.
JC – Que desafios esse cenário traz para os líderes das empresas?
Soraia – No ambiente da gestão organizacional, onde somos muito impactados pela tecnologia, os humanos sempre são o maior desafio. Como reter pessoas nesse ambiente, como desenvolver os talentos, como selecionar as informações, como reduzir a ansiedade? Hoje não faz mais sentido criar uma empresa para gerar apenas resultado financeiro. Os indivíduos estão buscando um sentido para a vida deles, e quando não encontram isso, se desmotivam. É preciso ter abertura e humildade para o novo. Pesquisas apontam que uma das principais características do líder da era digital é a humildade. A arrogância, o ego, acabou. É o primeiro tijolo para cair um império. Líderes arrogantes não engajam nem colaboradores, muito menos clientes. É uma realidade que muda por completo o sentido de fazer gestão. Essa revolução tecnológica traz um novo olhar para quem eu sou. É o novo Renascimento. Aquilo que aconteceu na Itália, em 1500, está acontecendo hoje.
JC – É o Renascimento em plena era digital?
Soraia – Sim, e esse novo Renascimento nos mostra o seguinte. Em plena era digital, começamos a entender que não é só a evolução tecnológica que responde às nossas ansiedades. Eu posso ter 1 milhão de seguidores nas redes sociais, mas o vazio existencial não se preenche com isso. Não posso só fazer contato pelo WhatsApp. Preciso voltar a conversar com as pessoas. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o país mais ansioso do mundo. Os nossos jovens estão hiperconectados, mas, muitas vezes, não conseguem nem sair porque eles fazem tudo em casa. Precisamos começar a entender que o ser humano, para além da questão cognitiva, é sobretudo emocional. O que nos faz humanos é a nossa capacidade de criar vínculos e de criar relações sociais, pois é nessa interação que a gente aprende e evolui. A tecnologia é fundamental em vários aspectos de negócios, na logística, na saúde, na qualidade de vida, mas não podemos esquecer o que nos constitui humanos. Os vínculos emocionais não podem ser substituídos pela tecnologia. A gente tem de cuidar disso, porque as doenças da alma são realmente o mal do século. E muito disso não é problema de tecnologia, mas de como a gente a usa ela.
JC – É possível preparar os novos talentos da era digital com o mesmo modelo de educação formal que tivemos até aqui?
Soraia – Continuo acreditando na educação formal porque o diploma e o conhecimento empoderam o ser humano de dentro para fora. É o maior ativo que o ser humano pode ter, pois em momentos de crise é o conhecimento que permite a ele se reconstruir. Mas, ao mesmo tempo, o modelo tradicional não dá mais para o mundo de hoje. Para lidar com temas como a necessidade de transição de carreira, que é uma mudança brusca, por exemplo, precisamos de uma resiliência interna. Como desenvolvemos seres humanos para esse contexto? Na escola da vida. Infelizmente, ainda temos escolas cognitivas, que nos preparam para criar estratégias e preencher planilhas. Mas, escolas que ajudem as pessoas a lidar com grandes desafios da vida, não temos. Precisamos cada vez mais estimular os jovens, os nossos empreendedores a buscarem inspiração e aprendizado pelo mundo. E isso passa por aprender com a arte, com viagens, novas culturas, para não perderem a essência. O que vai fazer a diferença para um gestor do presente e do futuro é se reconectar com o que nos faz humanos. Estamos fartos e saturados de tudo que é superficial. Precisamos de vínculos, de força. E quanto mais um gestor se conectar com isso, mais ele vai conseguir engajar os seus times e clientes, gerando uma boa reputação. 
JC – Já li alguns artigos seus que falam muito sobre como fomos nos acostumando a buscar o que falta e não o que já temos.
Soraia – Exato. No modelo educacional tradicional, não olhamos as virtudes e forças do ser humano, mas os seus defeitos. As crianças precisam ser boas em tudo e, se não atingirem a nota adequada, não são suficientes. Sem falar no modelo comparativo: olha, tem que ser como teu irmão. Não quer dizer que temos que ser ingênuos ou não enxergar os problemas, mas precisamos olhar para as coisas que funcionam. Quanto mais nos alimentamos de coisas boas, mas vou produzir e inovar. O ser humano é uma esponja e é resultado de todas as suas escolhas. Toda geração é fruto de um meio, de um contexto social. Vejo cada vez movimentos de pessoas que não se contentam com o modelo antigo. Querem encontrar um sentido no que fazem em claro, entregar resultados. O que muda na nova era são os valores. Vivemos em uma sociedade líquida, isso significa que as relações que antes eram sólidas, não são mais. Antes as pessoas trabalhavam em uma mesma empresa a vida toda; hoje os jovens ficam um ano e meio e que querem partir para novas experiências, e mesmo que estejam trabalhando em ícones como Facebook e Google.
OUTROS EPISÓDIOS: Confira abaixo as próximas entrevistas da temporada. Saiba mais sobre o projeto Mentes Transformadoras e confira os outros episódios clicando aqui. Acesse a primeira temporada clicando aqui.
{'nm_midia_inter_thumb1':'', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5dea454b5ef18', 'cd_midia':8923382, 'ds_midia_link': 'https://www.jornaldocomercio.com/_midias/png/2019/12/06/mega_banner_jc_01-8923382.png', 'ds_midia': 'Badesul Mentes Transformadoras Banner 468x60 Fullbanner', 'ds_midia_credi': 'Divulgação/JC', 'ds_midia_titlo': 'Badesul Mentes Transformadoras Banner 468x60 Fullbanner', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '468', 'cd_midia_h': '60', 'align': 'Left'}

Quem são as Mentes Transformadoras:

  José Galló, Presidente do Conselho de Administração da Lojas Renner
  Andreas Blazoudakis, Fundador e CEO do Delivery Center
  Caroline Cintra e Marta Saft, Diretoras-presidentes da ThoughtWorks no Brasil
  Cassio Bobsin, Fundador e CEO da Zenvia
  Gilson Trennepohl, Diretor-presidente da Stara
  Clovis Tramontina, Presidente do Conselho de Administração da Tramontina
  Marciano Testa, Fundador e CEO do Agibank
  Soraia Schutel, cofundadora da Sonata Leadership Academy
  Gustavo Goldschmidt, Fundador e CEO do Superplayer
  Cesar Paz, Empreendedor serial e co-fundador do Poa Inquieta
  Julio Ricardo Mottin Neto, Presidente do Grupo Dimed/Panvel
  Cleber Prodanov, Reitor da Feevale

compartilhe:


Reportagem publicada em 29/01/2020 pelo

© 2019 Cia Jornalística J.C. Jarros. Desenvolvido em parceria com i94.Co.