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Porto Alegre, sexta-feira, 13 de julho de 2018.
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Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 11/07/2018.
Alterada em 13/07 às 07h57min
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Guerra comercial entre EUA e China pode ter efeitos inesperados

Conflito cria instabilidade econômico-financeira e pode atingir o Brasil de forma imprevista, diz Paiva

Conflito cria instabilidade econômico-financeira e pode atingir o Brasil de forma imprevista, diz Paiva


/THIAGO COPETTI/ESPECIAL/JC

Thiago Copetti, de Pequim
Prestes a deixar o cargo de embaixador do Brasil em Pequim, o que deve ocorrer em novembro, Marcos Caramuru de Paiva vive há 11 anos na Ásia e é apontado como um dos brasileiros que mais conhecem a realidade chinesa, tanto pelo lado diplomático como pelo lado empresarial (foi chairman e sócio da Kemu Consultoria, com sede em Shanghai).
Embaixador do Brasil junto à República Popular da China desde 2016, é graduado em Administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, já foi cônsul-geral em Shanghai, embaixador na Malásia e diretor executivo do Banco Mundial. Antes de deixar a embaixada brasileira no gigante asiático, onde deverá ser sucedido pelo gaúcho Paulo Estivallet de Mesquita, conversou com o Jornal do Comércio sobre a guerra comercial entre Estados Unidos e China, e as sobretaxas ao frango brasileiro no mercado chinês.
Jornal do Comércio - Após dois anos, o senhor está prestes a deixar o comando da embaixada em Pequim. Que balanço faz desse período?
Marcos Caramuru de Paiva - Foram dois anos muito produtivos. Primeiro porque conseguimos recuperar o diálogo estratégico com a China, o que estava interrompido há vários anos. O diálogo entre chanceleres, que é estratégico, estava desativado, e foi retomado de forma bastante expressiva. Durante cerca de três anos, não houve encontro anual de chanceleres dos dois países. O ministro Aloysio Nunes retomou isso. Esse diálogo político é importante para trocar opiniões e avaliações bilaterais, mas também porque é o primeiro parâmetro que rege as estratégias de um empresário que vai investir no Brasil e de um empresário brasileiro que quer investir na China. Quando um empresário tem essa visão de que as relações entre os países vão bem, de que se entendem, de que conversam e que não há entraves políticos, há estímulo para que os negócios se movam de forma mais ativa. Também lidamos com a crise da Operação Carne Fraca com razoável sucesso, já que a China foi o primeiro ou segundo país a reabrir o mercado às compras do Brasil. Um dos grandes desafios nas relações com a China é que o lado econômico tende a andar mais rápido do que o político. O importante é fazer com que o político não fique a reboque do econômico, mas que possa ajudar a conduzir.
JC - Hoje, enfrentamos problemas, por exemplo, com restrições a exportações de frango brasileiro para a China. Como está esse processo?
Paiva - A China abriu um processo antidumping e impôs medida provisória, que são tarifas diferenciadas por empresas, em três níveis. Ainda estamos discutindo isso, e os chineses acabaram de mandar uma missão ao Brasil. Nós seguimos convencidos de que a medida não se justifica, mas ela está aí e temos que enfrentá-la. Até o ano passado, o Brasil foi responsável por 84% das importações de frango da China, o que é uma presença bastante grande. E já vínhamos, há algum tempo, vendo que a China aumenta muito sua produção interna, e nós ampliamos a nossa participação porque os norte-americanos, por problemas sanitários, se retiraram. Então nossa participação efetiva no mercado interno diminuiu. Lamentamos o antidumping, pois foi uma primeira medida nessa natureza imposta ao frango brasileiro. Não há justificativa, e seguimos conversando e acompanhando o processo, dialogando com empresas e advogados. Mas, até o momento, a medida provisória segue e deve se tornar definitiva, enfim, em um prazo curto. Talvez ainda julho ou agosto.
JC - Sobre a guerra comercial iniciada pelo Estados Unidos com a China, até que ponto o Brasil se beneficia?
Paiva - Ninguém ganha com isso. Isso poderia aumentar as exportações de produtos com os quais não ingressávamos na China ou com os quais competíamos, mas isso não é sustentável. Nem mesmo é bom para o aumento da venda de soja. O próprio ministro Blairo Maggi (da Agricultura) tem alertado que, aumentando as vendas do grão para cá, se elevará o preço no mercado interno, impactando os preços no Brasil e no custo da ração, necessária para a produção de proteína animal. Isso fatalmente aumentará o custo de produção da carne, e seremos menos competitivos nas exportações de proteína animal. Mesmo o que pode parecer um ganho tem efeitos colaterais. Sempre interessa mais o equilíbrio. Além disso, as incertezas criadas por essa guerra comercial, vemos todos dias, mexe com o mercado financeiro, altera o valor das empresas e causa um rebuliço no mercado de moedas. Ou seja, cria uma instabilidade no mundo econômico-financeiro que pode nos afetar de uma forma completamente imprevista. A guerra comercial entre EUA e China pode ter efeitos inesperados.
JC - Logo que assumiu o posto em Pequim, em 2016, o senhor falou sobre mudanças que seriam significativas, nas relações entre China e Brasil, no setor financeiro. Isso ocorreu?
Paiva - Isso efetivamente aconteceu, porque houve investimentos chineses no setor. Como o Bank of Communications, que fez aquisições de um banco da Bahia; teve o fundo Fosun, que investiu no Brasil; o grupo Haitong, que investiu no Brasil ao comprar o Banco Espírito Santo, por meio de Portugal, que tem ativos no Brasil; além de muito ativos em termos de financiamento e de comércio. Mas os efeitos disso na geração de negócios virão mais a longo prazo. O movimento financeiro chinês foi expressivo nos últimos anos no Brasil, e agora vemos que a China tenta se tornar um centro de emissão onde as empresas estrangeiras possam vir emitir papéis e bônus de diferentes naturezas para captar recursos. Há conversas em curso entre os dois países sobre isso, mas ainda há certa dificuldade, porque esses bônus seriam de captação em renminbi (moeda chinesa), e o swap dessa captação para uma moeda conversível ainda é caro. Possivelmente, teremos, em novembro, um seminário patrocinado pela Apex com potenciais tomadores de crédito brasileiros, potenciais investidores chineses e bancos underwriting (intermediários financeiros).
JC - E para onde caminham os investimentos chineses no Brasil?
Paiva - Tenho visto diferentes plataformas de financiamento ao consumo investindo no Brasil, se aproximando do País e entendendo nossa realidade de consumo, E o Banco Central do Brasil recentemente mudou suas regulamentações sobre essas plataformas, abrindo espaço para que venham a atuar no Brasil. O mais interessante nas relações econômicas entre o Brasil e a China é que elas são permanentemente dinâmicas, com novas ideias, propostas e iniciativas. Por exemplo, temos a compra da 99 pela Didi, chinesa que escolheu vários países no mundo onde iria investir em 20% nas companhias de táxis, como Estados Unidos, Europa e Índia, mas encontrou uma sinergia maior no Brasil. Com isso aumentou a procura de outras empresas de capital digital para investimentos no Brasil, de cooperação. É uma área que pode crescer muito ainda. Também vemos grande interesse, claro, nos setores de geração e distribuição de energia, os mais significativos, além das áreas de infraestrutura e construção de ferrovias.
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Thiago Copetti

A convite do Centro Internacional de Imprensa da China, o repórter está participando de um intercâmbio no gigante asiático. No blog Conexão China, apresentará, além de informações econômicas e políticas da segunda maior economia do mundo, também curiosidades culturais e gastronômicas, dicas de turismo e como é o cotidiano da vida em Pequim.