Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, sexta-feira, 24 de janeiro de 2020.
Dia Nacional do Aposentado.

Jornal do Comércio

27/03/2019 - 14h18min.
Alterada em 27/03 às 14h18min
COMENTAR | CORRIGIR

Tinga: 'Todo mundo que empreende vai errar e isso faz parte do acerto final'

Tinga falou sobre as novas apostas como empreendedor e do sonho de entrar na universidade

Tinga falou sobre as novas apostas como empreendedor e do sonho de entrar na universidade


PATRÍCIA COMUNELLO /ESPECIAL/JC
O jogador, ídolo de muitos torcedores, Paulo César Fonseca do Nascimento, ou simplesmente Tinga, tem mais sucessos do que insucessos no futebol, garante ele. Mas não é sobre este tópico que Tinga topou falar com o Vida de Startup. Futebol é página virada. Tinga está empolgado mesmo é com a vida de empreendedor. Virou até frasista: "Todo mundo que empreende vai errar e isso faz parte do acerto final", ou esta: "O que move o mundo não são as respostas, mas as perguntas". E para fazer jus ao bom humor, mais esta: "Inovação não é só esperar que desça um E.T. (extraterrestre) do céu". 
O jogador, ídolo de muitos torcedores, Paulo César Fonseca do Nascimento, ou simplesmente Tinga, tem mais sucessos do que insucessos no futebol, garante ele. Mas não é sobre este tópico que Tinga topou falar com o Vida de Startup. Futebol é página virada. Tinga está empolgado mesmo é com a vida de empreendedor. Virou até frasista: "Todo mundo que empreende vai errar e isso faz parte do acerto final", ou esta: "O que move o mundo não são as respostas, mas as perguntas". E para fazer jus ao bom humor, mais esta: "Inovação não é só esperar que desça um E.T. (extraterrestre) do céu". 
Em poucos dias, ele vai encarar um desafio de dar frio na barriga. Tipo final de Taça de Libertadores, que o ex-jogador acumula dois títulos de campeão. Ele vai falar para uma plateia de jovens estudantes da melhor universidade federal do Brasil. Tinga vai narrar, no palco do Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), sua trajetória de menino que saiu do bairro Restinga, zona sul de Porto Alegre, aos 15 anos para viver o mundo do futebol e que, no pós-carreira, encarou a arte de driblar problemas para criar soluções que se transformem em negócios.
A agenda em 1º de abril - que ele repete com um largo sorriso - "e não é mentira" -, vem mexendo com as emoções que o ex-jogador do Inter, Grêmio, Cruzeiro, Borrusia Dortmund (Alemanha), Botafogo, Kawasaki Frontale (Japão) e Sporting sentia quando estava dentro das quatro linhas do campo. "Joguei no Maracanã, o templo do futebol, e agora vou jogar na Ufrgs, o templo do conhecimento", compara, dando a dimensão do que representa o convite. "É um sonho. Não consegui estar ali (universidade) com os cadernos, mas vou estar no meio de muitas pessoas que são o futuro do nosso País. Vou falar sobre a minha vida, o que já fiz, como faço hoje, como pretendo seguir, muito de coisas práticas, do que testamos e deu certo", adianta.
A palestra "Transforme talentos em times" é aberta à comunidade e começa às 17h. Inscrições e informações pelo site www.ufrgs.br/empreendedorismo/.
Tinga falou sobre muitos temas com o VS e o repórter Luka Pumes, do GeraçãoE. Das lições do futebol que levou aos negócios, à experiência da consultoria By Tinga, que este ano muda de proposta. O agora empreendedor diz que encontrou o modelo e propósito do quer quer realmente fazer e revela que tem um sonho. Está tudo na entrevista a seguir. Num segundo tempo, um vídeo trará os melhores momentos desse bate-papo. 
Vida de Startup - O papo aqui e sobre a união de duas faces - o Tinga do futebol e o dos negócios. O que o campo te deu de experiência que tu consideras mais importante para encarar outros trabalhos?
Paulo César Fonseca do Nascimento (Tinga) - Muitas coisas. Para tentar simplificar, o que o futebol faz com a gente: no domingo, você é bom, na quarta você já não serve, no outro domingo, você ganha é mais ou menos, depois faz um gol já não serve de novo. São altos e baixos em pouco tempo, diferentemente de uma empresa, que demora, no mínimo, um trimestre para ver se deu certo ou não, para entender prejuízos ou benefícios. No futebol, o fator emocional de saber lidar com as derrotas e também com as vitórias me fez entender que, quando a gente ganha, não pode achar que é o melhor homem do mundo, para quando perder não se achar o pior homem do mundo. Esse é o maior benefício que pude levar para o pós-carreira, para os negócios. Isso ajuda a entender porque no mundo do empreendedorismo alguns se desesperam diante de dificuldades. Por ter vivido na pele a emoção direta, consigo administrar um pouco melhor essas situações. Se puder escolher um fator que fez a diferença (para os negócios), é esse convívio com altos e baixos.
Vida de Startup - Aprende-se mais na derrota, na queda, ou na vitória?
Tinga - Com certeza, na derrota.
Vida de Startup - E teve alguma derrota na tua carreira de jogador que te deu a grande lição?
Tinga - Tive várias derrotas, mas ganhei muito mais do que perdi, ao contrário do que é normalmente no futebol, onde se perde mais do que se ganha. Mas tive grandes derrotas que me ensinaram bastante. Teve uma final da Copa da Alemanha que eu perdi no golden goal (se tomar o gol, o jogo acaba), quando o jogo estava a nosso favor (Tinga jogou no Borussia entre 2006 e 2010).
Vida de Startup - Por que a derrota ensina mais?
Tinga - Quando você perde, quer entender por que perdeu. Quando você ganha, não quer entender. Já ganhei muitos jogos sem jogar bem e saía comemorando e não queria entender a razão. Levo muito isso para o negócio de gestão de pessoas. Em resumo, é assim: toda a vez que você for dizer 'não' para um liderado ou funcionário tem de ter os porquês. Dificilmente quando você diz sim, a pessoa quer saber a razão.
{'nm_midia_inter_thumb1':'https://www.jornaldocomercio.com/_midias/jpg/2019/03/25/206x137/1_ting3-8666871.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5c9867e02cdfe', 'cd_midia':8666871, 'ds_midia_link': 'https://www.jornaldocomercio.com/_midias/jpg/2019/03/25/ting3-8666871.jpg', 'ds_midia': 'Vida de Startup - entrevista Paulo César Fonseca do Nascimento - Tinga - fala de empreendedorismo - negócios e futebol - com Patrícia Comunello e Luka Pumes', 'ds_midia_credi': 'PATRÍCIA COMUNELLO /ESPECIAL/JC', 'ds_midia_titlo': 'Vida de Startup - entrevista Paulo César Fonseca do Nascimento - Tinga - fala de empreendedorismo - negócios e futebol - com Patrícia Comunello e Luka Pumes', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '750', 'cd_midia_h': '421', 'align': 'Left'}
Tinga falou por quase uma hora com a titular do blog e Luka Pumes, do GeraçãoE
Luka Pumes (GeraçãoE) - Quando tu moraste no exterior, chegou a passar pela tua cabeça ter teu próprio negócio? Quanto a vivência internacional te ajudou a empreender?
Vida de Startup - Com certeza. Um dos negócios que tenho com minha família é uma agência de turismo e foi baseada em nossas dificuldades de viajar. A partir do momento que tinha dificuldades de chegar a um lugar e ser bem atendido ou de sair do Brasil com mais informações e segurança de que tudo estará bem encaminhado, gerou a oportunidade de empreender no ramo de turismo. Foi mais uma forma de entender o que inovar. Aprendi que tudo que as pessoas estiverem reclamando que falta, se você conseguir entregar vai estar inovando. Inovação não é só esperar que desça um E.T. (extraterrestre) do céu. Não é isso. Se as pessoas estão reclamando e você entregar, você é o maior empreendedor. O primeiro curso de formação de atletas on-line (o By Tinga) foi baseado no que as pessoas vinham me perguntar. A cada canto que eu ia, os pais queriam saber como me tornei um jogador. Bom, aí pensei: se todo mundo pergunta, é sinal que tem demanda. Assim que tento levar.
Vida de Startup - Você conseguiu entregar com o By Tinga o que tu pretendias para essa galera que sonha jogar futebol como você?
Tinga - Tenho feedback das pessoas, principalmente dos pais. Muitos chegam e falam: ‘Foi legal aquele conteúdo e foi para mim (!), o outro foi para a minha esposa...’ O papo é muito para eles. Às vezes, o sonho é mais dos pais do que dos filhos. Falo muitas coisas com as quais eles acabam se identificando. Sou bastante firme e digo: 'tem de deixar o menino viver o sonho dele'. Então, o primeiro objetivo que era de influenciar (essas pessoas) foi alcançado. Muita gente assistiu às palestras desde que lançamos há quatro anos. Em 2018, o By Tinga ficou inativo, pois o propósito é para dois anos. Este ano vamos retomar, gravando novos conteúdos.
Vida de Startup - E vai ter novidade? Como vai ser a volta do By Tinga?
Tinga - A gente está ampliando para uma faixa mais profissional. Mas não é o meu único negócio. Estou focado em outros projetos mais importantes. O que estamos falando agora vem do meu maior propósito que é ir nos lugares para contar minha história, meu storytelling. Tenho viajado pelo Brasil todo. Criei o portal Gestão além da Planilha. Tenho ido explicar o que é o projeto, que nada mais é que a história da minha vida: um menino da Restinga, com a 5a série, que queria jogar futebol, empreender, falar outra língua. Conto como foi isso, além do desafio de sentar em uma sala de aula para voltar a estudar. Esse é o resumo do meu trabalho hoje.
Vida de Startup - O que tu voltaste a estudar?
Tinga - Só tinha a 5a série, né (risos). Fiz supletivo na Escola Monteiro Lobato, fiz bastante cursos, tudo que achava interessante ia entrando, como de gestão pessoal, inteligência emocional, PNL, administração de empresas e de pessoas.
Vida de Startup - Tu tem vontade de entrar na universidade?
Tinga -  Tenho um sonho. Ninguém na minha família nunca botou uma toga, apesar de eu ter incentivado que meus irmãos pudessem chegar a isso, mas não conseguimos. Acho que eu posso me dar este presente, pagar esta festa (risos), que sempre quis para os outros. Faria (graduação) marketing ou Psicologia. Acho que Psicologia poderia ser mais legal, até para me entender primeiro sobre como consigo fazer as minhas coisas (risos).
Pumes (GE) - Na eleição de 2018, tu escrevestes um artigo em que tu comparas o voto ao momento de bater um pênalti. O jogador Tostão, por exemplo, virou colunista. Isso ajuda a se manter presente para não ser esquecido. E se o Paulo César Tinga virasse um comentarista ou tivesse uma coluna na imprensa?
Tinga - Teria de me preparar para isso. Já escrevo alguma coisa. Essas oportunidades já vieram. As propostas que pintaram foram mais para escrever e comentar sobre futebol, do qual sou apaixonado, mas busquei um meio de vida para ampliar minhas ideias e minha visão das coisas. Vivi 25 anos numa bolha, falando de futebol, hoje tenho a oportunidade de experimentar outras coisas. Tenho tentado encher a minha caixa de ferramentas com outros aparelhos.
Vida de Startup - No futebol tu teve muitos ganhos, queria dar uma melhor condição de vida para tua família. E nos negócios, você perdeu ou ganhou mais? Já parou algum projeto, pois viu que perderia ou estava perdendo dinheiro? Como você lida com essa vida real de empreendedor?
Tinga - Todo mundo que empreende vai errar e isso faz parte do acerto final. Só que tem de ter o errar simples, mais barato possível e logo. O que vai fazer você empreender alguma coisa é não ter medo de errar, de perguntar. Hoje tem uma geração que pensa rápido em empreender, mas as vezes não consegue  lidar com os erros, com a parte emocional. Hoje é muito fácil empreender. Com um celular e um belo wi-fi, consegue-se em dez minutos ter uma empresa com logo e loja virtual, mas não é garantia de que vai entregar o que montou em dez minutos. Dificilmente, você vai ter sucesso com esta empresa. É importante que as pessoas que estão buscando se reinventar saibam que não é essa simplicidade e facilidade que corre pelo mercado.
Vida de Startup - Tu já disseste que jogador de futebol tem de saber atuar em qualquer posição. Isso funciona para os negócios?
Tinga - Tudo funciona. A própria concorrência entre os atletas. São 25 jogadores, uns se gostam, outros não, mas têm um mesmo objetivo, e, ao mesmo tempo, só jogam 11. Tem de lidar com esta concorrência e entender que tem uma marca que é o clube, independentemente de objetivos pessoas, um propósito maior, que é fazer o clube ganhar. Se você souber colocar todos esses desafios dentro de uma caixa um pouquinho organizada, você para de jogar e está pronto para viver, se reinventar, improvisar, que é muito como o futebol funciona. O futebol é um trabalho baseado no improviso, em dribles, em sair de situações adversas dentro de um jogo. É lógico, depois tem de estudar um pouco e escutar pessoas de outros segmentos. Acredito ser formado em três coisas: viajar, perguntar e ler. Sempre viajei muito. Lia muito quando viajava e perguntava muito para as pessoas. Em 20 anos, conheci muita gente de tudo quanto é segmento, empresários de muitos ramos e sempre perguntava como era o negócio, como haviam começado. Não sei quantas horas já viajei, mas metade do tempo foi dedicado à leitura. Essa é uma das minhas maiores formações e que consigo hoje passar à juventude que quer empreender. O que move o mundo não são as respostas, mas as perguntas. Então, saber fazer a pergunta certa, estar próximo das pessoas certas, faz uma grande diferença.
Vida de Startup - Tu enfrentaste dentro de campo o racismo. No mundo do empreendedorismo, tu já foi alvo de preconceito?
Tinga - O que eu vivi no futebol foi público e todo mundo sabe. No ramo dos negócios, encaro com muita naturalidade os pré-julgamentos que são naturais. Como falar a uma plateia de uma empresa que fatura bilhões de reais e que um ou outro olhe e pense: “o que esse cara cabeludo, com dread, negão, vem trazer para nós?”. Isso é humano, mas o que não é normal é o preconceito por ter a cor de pele, cabelo assim, pensar que não pode chegar onde cheguei. Muitos me falaram sobre o fato de ser jogador de futebol, de não ter conseguido estudar e o que pode apresentar. Não vejo isso como crime. Vejo preconceito quando alguém define se a pessoa pode entregar ou não ou se fica ou não com um emprego (por exemplo) pela cor da pele ou se é mulher. Não captei isso nesta minha nova fase, estou focado nos negócios, mas se ficar buscando por essas situações, vou enxergar. É fato que existe. O problema está com a pessoa que tem preconceito.
Pumes (GE) - E qual é a experiência de vida que tu pode dar à juventude negra, da qual pertenço, com 18 e 19 anos, que quer ter seu próprio negócio ou mesmo está se definindo profissionalmente?
Tinga - Não vai ser nada fácil. E lembro de uma música dos Racionais que escutava quando era pequeno, com minha mãe, e dizia: 'nego tem de fazer mais, duas vezes melhor'. Da primeira vez que escutei uma música do Mano Brown, ele falava: 'Como você vai fazer duas vezes mais estando 500 anos atrás'. Mas não podemos nos contentar com isso. Tem de enxergar o que é natural, e não podemos negar que tem muita coisa que nossos avós não tiveram, como andar em qualquer lugar ou ver negros apresentando programas na televisão. Sei que por ser jogador conhecido muitas coisas são diferentes em relação a outros negros, que sofrem mais preconceito. É preciso medir cada situação. Mas está ficando bom. Vamos pensar assim.
Vida de Startup - O que tu pretendes falar para a galera que vai te ver no dia 1º na Ufrgs? Qual é a grande experiência que tu pode passar?
Tinga - Primeiro, estar na Ufrgs vai ser como subir no palco. Quando começamos a conversar sobre o evento, pensei comigo: 'Joguei no Maracanã que o templo do futebol e agora vou jogar na Ufrgs, que é o templo do conhecimento'. Para mim também é um sonho. Não consegui estar ali com os cadernos, mas vou estar no meio de muitas pessoas que são o futuro do nosso País. Vou falar sobre a minha vida, o que já fiz, como faço hoje, como pretendo seguir. Serão muitas coisas práticas, do que testamos e deu certo. Vou contar a minha história, que é baseada na prática. Sei que a ciência é muito importante, mas ela sempre correu atrás da prática. Primeiro veio a dor de cabeça, depois o remédio. (risos)
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia
Patrícia Comunello
Patrícia Comunello
A jornalista e editora assistente do Site JC é a titular do Vida de Startup (VS). O blog apresenta a jornada dos negócios nascentes, as conexões, os atores, as novas empreitadas, os desafios, os investimentos e os investidores, a economia que movem e as transformações onde estão.