Cassio Grinberg
Consultor de Planejamento Estratégico e autor dos livros ‘Desaprenda' e ‘Desinvente’
Você pára numa sinaleira, ao fundo montanhas e palmeiras, a muvuca do Superbowl chegando e, de repente, ele encosta bem ao lado: um carro branco, silencioso, cheio de câmeras e comandos e cuidados — e sem ninguém na direção.
O Waymo, criado dentro da Alphabet (holding do Google), é o carro autônomo que você chama por aplicativo em seis cidades americanas: Austin, Miami, Phoenix, Atlanta, San Francisco e Los Angeles.
Como passei as últimas semanas fazendo uma imersão na Califórnia, perdi a conta de quantos vi circulando. O volante se mexe sozinho, o carro respeita a velocidade, freia no tempo exato, sinaliza a conversão. Fiz questão de andar atrás deles por quarteirões inteiros: nenhuma imprudência, nenhuma hesitação, total precisão.
Quando você vê algo assim acontecendo a toda hora, começa a parecer óbvio: logo ali adiante, dirigir é que será o comportamento estranho. O outlier será o humano ao volante — com o risco de você repreendê-lo pelo fato de estar colocando nossas crianças em perigo. Mas, por enquanto, esse futuro está concentrado em vários quarteirões de poucas cidades.
Quando estou em imersão em busca do conteúdo que pode ser inspirador, gosto de somar, a meus estudos preparatórios, o simples ato de conversar com pessoas, assistir TV, ler os jornais (em papel mesmo) e até mesmo livros: em Stories of Your Life and Others, Ted Chiang cita a incrível frase de William Gibson: o futuro já chegou — só não está distribuído de modo uniforme.
Trata-se justamente disso: como a inovação aparece primeiro em bolsões, ela parece exceção, curiosidade, teste. Empresas olham e pensam: ainda não é para nós. Vale para carros, mas também para cigarros, fotografia, avião, propaganda, supermercado, loja, universidade e beleza: quando a adoção se torna evidente, o tempo de reação já ficou para trás.
E é nesse momento que as marcas definem quem serão. Marca não é apenas logotipo e slogan — é a decisão de estar presente quando o consumidor ainda nem sabe o que está mudando. As marcas de quem decide são as que se movem antes da evidência, que leem o outlier como convite, e não como exceção. Que entendem que ocupar a borda é mais valioso do que dominar o centro. Porque quando a curva se inclina, quem já estava lá não precisa correr — só precisa continuar.
Planejamento estratégico serve, entre outras coisas, para isso: treinar o olhar para as bordas. Para os sinais fracos. Para os outliers que antecipam a curva. Não se trata de prever o futuro com precisão, mas de reconhecer quando ele já começou — mesmo que ainda não esteja bem distribuído.