Os impactos dos 10 anos de Uber em Porto Alegre não se limitam à vida dos motoristas e passageiros, à mobilidade urbana e à segurança pública. Também influenciam na cena empreendedora da cidade, que se moldou a partir da popularidade do aplicativo e nos que sentiram um aperto no caixa com a concorrência indireta. Uma das principais influências deste transporte particular foi no aumento do número de carros nas ruas e na demanda por reparos e lavagem.
Há uma procura específica para conserto. O problema mais comum para quem roda o dia inteiro é o pneu furado e, nas borracharias, a busca costuma ser por uma solução imediata para voltar ao trabalho. Motorista de aplicativo há 10 anos, Vladimir Ville tem o carro alugado e percorre cerca de 300 km por dia. Quando o pneu pede socorro, a saída é um tarugo — tapa-buraco — por R$ 20,00. “Se for muito grave tem que ter um remendo maior, mas geralmente pego um taruguinho”, conta.
A lavagem, por outro lado, é mais frequente. Ocorre a cada 10 dias, mas depende das promoções para quem está cadastrado nos aplicativos. No caso de Ville, o valor do serviço cai de R$ 50,00 para R$ 30,00, relata. Trata-se de uma estratégia das lavagens para aumentar o fluxo.
Na lavagem Operação Lava-Jato, a sobrevivência do negócio é dependente desta dinâmica. “Oito anos atrás, quando se abriu essa lavagem, se não tivesse a Uber, não tinha se levantado como se levantou. Foi muito forte. Quando veio o aplicativo, começou a ter muito carro para lavar e o pessoal começou a abrir lavagem por todos os lados”, conta o gerente do local, Eduardo de Moraes.
Ainda assim, o movimento diminuiu ao longo dos anos. Na última terça-feira (18), das 50 lavagens feitas à tarde, 33 foram de carros utilizados para aplicativo. Nos primeiros anos, eram cerca de 100 lavagens em 12 horas, frisa o gerente.
Essa determinação de público-alvo também se deu por um valor elevado para quem precisa do serviço com mais frequência. “Muitos motoristas estavam apavorados. Queriam cobrar R$ 50,00 para lavar o carro e eles tinham que lavar duas vezes na semana. Aí fizemos um preço mais barato já para atrair o público, e deu certo”, explica.
Tão vinculado a essa relação com os motoristas de aplicativo, de Moraes entende que o aplicativo seguirá entregando uma grande demanda. No entanto, ressalta que existem reclamações por parte dos trabalhadores da Uber por divergências com a plataforma.
Porém, enquanto esse transporte chegou para catapultar novos negócios, outros também sentiram o impacto negativo de sua crescente. Na avenida Osvaldo Aranha, próximo às casas noturnas e de shows da região, os estacionamentos passaram por uma diminuição do movimento na última década. Funcionário da Via Park, Roberval Rios relata que os dias com eventos noturnos perderam movimento, assim como o estacionamento rotativo.
Hoje, a opção do aplicativo é mais dinâmica e possibilita o consumo de bebidas alcoólicas sem a necessidade de pegar o volante depois. Ainda assim, Rios entende que se os grandes shows não existissem, o negócio não sobreviveria. Também aponta que esse dinamismo trouxe uma queda de oito para dois carros no pernoite do estacionamento.
Já a borracharia e mecânica Tio Patinhas não costuma receber motoristas de aplicativo. O sócio do negócio César Brum entende que há uma "concorrência desleal" pelas ofertas a preços irrisórios, como o tarugo a R$ 10,00. Diz que seu serviço é mais caro e não costuma ser atrativo para quem busca uma solução imediata.
Trata-se de uma opção distinta no mercado, que costuma receber outros clientes, frisa. O empreendimento está aberto desde 1979 e Brum diz que o movimento até poderia ser maior nos moldes mais acessíveis, o que para ele não seria lucrativo perante o preço que precisaria cobrar. Outro fator que não o entusiasma a receber mais motoristas é que parte dos carros são alugados. Segundo ele, este é um serviço mais delicado e pode gerar mais incomodações.