Dominar a arte de dialogar com os próprios sentimentos e transformá-los em palavras é uma jornada desafiadora. Fazer poesia, seja através de rimas ou versos livres, onde cada palavra escolhida carrega o peso do que se tenta expressar, é ainda mais difícil. Porém, Ana Dos Santos domina – e muito bem – tal arte.
Publicado em junho deste ano, Maiúscula (Libretos Editora, 104 páginas, R$40,00) é a terceira obra da autora, que além de escritora é pesquisadora e professora de Literatura Brasileira. O conjunto de textos aborda três temas principais: o luto, a luta e a sexualidade. Em 49 poemas, Ana abre o seu coração e expõe seus medos, angústias e ódios sobre a sociedade racista e machista que ainda permeia no século XXI.
O primeiro dos medos, infelizmente, se tornou realidade: perder a mãe. A Maiúscula, que Ana tanto fala em seus poemas, a tirou deste plano sem nem imaginar o quanto aquilo doeria. Mas a dor se tornou afeto, e as palavras fluíram do coração da autora como se empurradas pela brisa. A finitude se tornou um grande tema do livro, e a Maiúscula presença onipresente, tanto na escrita quanto nos pensamentos. Ana relata que a morte em sua família e até mesmo na sociedade ainda é tratada como um tabu, algo que não deve ser comentado em voz alta: “E para mim era bem o contrário. Eu queria falar, eu queria verbalizar, eu queria escrever e foi esse processo do luto que criou esses poemas da primeira sessão”. Em Escrevo uns versos, depois rasgo, a poetisa deságua sentimentos, medos, anseios e dores de um modo que o coração do leitor bate mais forte dentro do peito.
Mas sua obra não se limita a relatar experiências individuais: ela ecoa as vozes silenciadas ao longo da história, buscando um futuro onde elas possam finalmente ser ouvidas e respeitadas. Muitos dizem que a literatura, além de ser uma ótima opção de lazer, serve para marcar nas páginas eventos ‘exemplos’, para que a história não se repita. E o intuito de Pérola Negra, a segunda parte do livro, é justamente essa.
Com poemas nos quais a realidade bate como um casco de barco nas pedras, a autora nos leva a uma viagem pelos navios negreiros e a luta diária do povo negro, que tenta sobreviver em um mundo que ainda não foi capaz de reconhecer os erros que cometeu no passado - e ainda comete. Ela conta que “eu gosto de escrever nesse sentido de uma cura mesmo, de uma possibilidade de curar essa ferida que o racismo torna a abrir todos os dias na vida das pessoas pretas”.
Além de escritora, Ana Dos Santos é professora de Literatura Brasileira e doutoranda em Pós-colonialismo e identidades, onde pesquisa a escrita de mulheres negras e indígenas. Por isso, seus poemas vão muito além de honrar a história do seu passado. Eles constroem o seu futuro. Um futuro onde a literatura feminina, negra e indígena é valorizada ainda em vida. Com duas décadas de carreira, ela percebe que a mudança acontece, mesmo que muito lenta. “Eu sei que meu tempo já é muito diferente do tempo da Carolina Maria de Jesus e da Maria Firmina dos Reis, mas as pessoas ainda ficam intrigadas de ver muitos personagens negros em uma novela, como se fosse anormal que a maioria da população brasileira seja preta”.
Defensora incansável dos direitos das mulheres, a autora encerra seu livro com a seção Afro Disíacas, onde explora temas como a erotização, a conexão com a vida, o bem viver das mulheres negras e as divindades que as habitam. Seus textos ressoam de tal forma que quase toda mulher pode se enxergar neles, tanto com histórias de relações passadas ou com os pensamentos sobre o futuro.
Pensando em futuro, Ana terá seus poemas Eu não estou sambando pra ti, Balada da Solidão (antes só), Cravo e Canela, Guerreira do Amor, Não cospe no corpo que tu comeu e Poerotisa, presentes na obra teatral Preta Poesia Feminina, da artista Sílvia Duarte. O espetáculo estreará no palco do Teatro Oficina Olga Reverbel (Praça Mal. Deodoro, s/n) no dia 02 de outubro, às 19h.
Publicado em junho deste ano, Maiúscula (Libretos Editora, 104 páginas, R$40,00) é a terceira obra da autora, que além de escritora é pesquisadora e professora de Literatura Brasileira. O conjunto de textos aborda três temas principais: o luto, a luta e a sexualidade. Em 49 poemas, Ana abre o seu coração e expõe seus medos, angústias e ódios sobre a sociedade racista e machista que ainda permeia no século XXI.
O primeiro dos medos, infelizmente, se tornou realidade: perder a mãe. A Maiúscula, que Ana tanto fala em seus poemas, a tirou deste plano sem nem imaginar o quanto aquilo doeria. Mas a dor se tornou afeto, e as palavras fluíram do coração da autora como se empurradas pela brisa. A finitude se tornou um grande tema do livro, e a Maiúscula presença onipresente, tanto na escrita quanto nos pensamentos. Ana relata que a morte em sua família e até mesmo na sociedade ainda é tratada como um tabu, algo que não deve ser comentado em voz alta: “E para mim era bem o contrário. Eu queria falar, eu queria verbalizar, eu queria escrever e foi esse processo do luto que criou esses poemas da primeira sessão”. Em Escrevo uns versos, depois rasgo, a poetisa deságua sentimentos, medos, anseios e dores de um modo que o coração do leitor bate mais forte dentro do peito.
Mas sua obra não se limita a relatar experiências individuais: ela ecoa as vozes silenciadas ao longo da história, buscando um futuro onde elas possam finalmente ser ouvidas e respeitadas. Muitos dizem que a literatura, além de ser uma ótima opção de lazer, serve para marcar nas páginas eventos ‘exemplos’, para que a história não se repita. E o intuito de Pérola Negra, a segunda parte do livro, é justamente essa.
Com poemas nos quais a realidade bate como um casco de barco nas pedras, a autora nos leva a uma viagem pelos navios negreiros e a luta diária do povo negro, que tenta sobreviver em um mundo que ainda não foi capaz de reconhecer os erros que cometeu no passado - e ainda comete. Ela conta que “eu gosto de escrever nesse sentido de uma cura mesmo, de uma possibilidade de curar essa ferida que o racismo torna a abrir todos os dias na vida das pessoas pretas”.
Além de escritora, Ana Dos Santos é professora de Literatura Brasileira e doutoranda em Pós-colonialismo e identidades, onde pesquisa a escrita de mulheres negras e indígenas. Por isso, seus poemas vão muito além de honrar a história do seu passado. Eles constroem o seu futuro. Um futuro onde a literatura feminina, negra e indígena é valorizada ainda em vida. Com duas décadas de carreira, ela percebe que a mudança acontece, mesmo que muito lenta. “Eu sei que meu tempo já é muito diferente do tempo da Carolina Maria de Jesus e da Maria Firmina dos Reis, mas as pessoas ainda ficam intrigadas de ver muitos personagens negros em uma novela, como se fosse anormal que a maioria da população brasileira seja preta”.
Defensora incansável dos direitos das mulheres, a autora encerra seu livro com a seção Afro Disíacas, onde explora temas como a erotização, a conexão com a vida, o bem viver das mulheres negras e as divindades que as habitam. Seus textos ressoam de tal forma que quase toda mulher pode se enxergar neles, tanto com histórias de relações passadas ou com os pensamentos sobre o futuro.
Pensando em futuro, Ana terá seus poemas Eu não estou sambando pra ti, Balada da Solidão (antes só), Cravo e Canela, Guerreira do Amor, Não cospe no corpo que tu comeu e Poerotisa, presentes na obra teatral Preta Poesia Feminina, da artista Sílvia Duarte. O espetáculo estreará no palco do Teatro Oficina Olga Reverbel (Praça Mal. Deodoro, s/n) no dia 02 de outubro, às 19h.
Você me pergunta:
Porque tanto estuda?
Para que tanto livro?
Mas não sabe o que é
aprender a segurar
uma caneta
e assinar seu nome
com 60 anos de idade.
Porque tanto estuda?
Para que tanto livro?
Mas não sabe o que é
aprender a segurar
uma caneta
e assinar seu nome
com 60 anos de idade.