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Reportagem especial

- Publicada em 19 de Novembro de 2023 às 16:00

Consumidores movimentam o mercado da nostalgia

Discos de vinil totalizaram R$ 4,7 milhões em vendas somente no ano passado

Discos de vinil totalizaram R$ 4,7 milhões em vendas somente no ano passado


TÂNIA MEINERZ/JC
Sandra Chelmicki, especial para o JC*
Sandra Chelmicki, especial para o JC*
 
Ainda não há estatística consolidada sobre as vendas de produtos e serviços vintage, mas basta observar a quantidade de lançamentos deste mercado para confirmar que ele está em alta, e deve seguir assim por muito tempo. Pesquisa divulgada pelo Sebrae, realizada pelo Guia dos Melhores com 500 brasileiros de diversas regiões do País, aponta que 83% dos entrevistados sentem conexão emocional com produtos dos anos 1980, 1990 e 2000. Desse total, 49% informaram que consomem esses produtos. O segmento de discos de vinil é um exemplo do potencial deste nicho. Para se ter uma ideia, pesquisa realizada pela Pro-Música em 2022 aponta que na comercialização física da indústria fonográfica brasileira os CDs ainda foram o formato mais procurado em 2022, com faturamento de R$ 6,7 milhões, seguidos pelas vendas de discos de vinil, com R$ 4,7 milhões, e DVDs, com vendas de R$ 400 mil.

Brandelli explica que tendência envolve experiências passadas positivas

Brandelli explica que tendência envolve experiências passadas positivas


Giordano Toldo/PUCRS/jc
O ano é 2023. Elis Regina estrela comercial e Os Beatles lançam canção inédita. Sim, tudo graças, no caso da cantora, ou com ajuda, no caso da banda, da inteligência artificial. Mas o que chama atenção nesses exemplos é o apelo nostálgico, uma recriação do passado no presente que parece não se esgotar. O que explica essa aposta da indústria do entretenimento e do marketing, e de pessoas ou empresas que criam negócios temáticos ou investem no mercado de segunda mão?
De acordo com estudo publicado pela FGV Ebape (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas), a onda nostálgica, que era interpretada no início dos anos 2000 como um efeito passageiro da virada do milênio, continua forte e o interesse dos consumidores pelo passado não demonstra sinais de diminuição.
Eduardo Scherer, fundador do Guia dos Melhores, plataforma de avaliação de produtos online que recentemente realizou pesquisa sobre o tema, concorda que o mercado da nostalgia vai permanecer por um bom tempo. "Estamos vendo o alcance da tendência em alguns setores, mas ainda há muitas possibilidades a serem exploradas. Basta as marcas olharem para seus produtos de forma estratégica e, por que não, colocarem um pouco do próprio sentimento de nostalgia em suas criações", reflete.
As décadas de 1990 e 2000 são as mais saudosas, de acordo com o Guia dos Melhores. A pesquisa concluiu que 83% dos brasileiros sentem conexão emocional com as décadas de 1980, 1990 e 2000, e, entre eles, 49% disseram que consomem produtos relacionados a essas décadas. Mesmo entre os 17% que manifestaram não sentir conexão emocional com esses produtos, 12% deles responderam que acabam consumindo os itens nostálgicos por estarem na moda ou em evidência no mercado. O estudo analisou respostas de 500 brasileiros, de diferentes regiões, classes sociais e faixas etárias, que responderam a um questionário online.
Angelo Brandelli, professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Pucrs (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), explica que a nostalgia geralmente envolve experiências passadas positivas e que trazem sensação de bem-estar, conforto, pertencimento e, muito contemporânea, a identidade. "Nesta época de transformações sociais, políticas, geopolíticas que geram uma certa fragmentação identitária, as pessoas buscam expedientes para reforçar a sua pertença no grupo ou até (re)encontrar a si mesmo", acredita.
O professor Evandro Lopes, do programa de mestrado profissional em comportamento do consumidor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), concorda que a nostalgia é mais evidente nos momentos de grande incerteza e dificuldades. "A velocidade e a digitalização da comunicação exacerbam vários comportamentos sociais. O ser humano precisa de um descanso, um conforto, e pensar num passado menos acelerado traz um certo alívio" afirma.
Para o presidente da Associação Gaúcha de Varejo, Sérgio Axelrud Galbinski, a tendência da nostalgia se justifica pela busca de atrair os consumidores com algo a mais, que não seja apenas o produto, ou serviço, e o preço. "Isso conversa com o retailment, que significa misturar o varejo com entretenimento, tema em destaque na edição deste ano da maior feira do varejo mundial, a NRF Big Retail Show", lembra. Galbinski acredita que a nostalgia caminha com a economia prateada, pois hoje a pessoa que estava entrando no mercado de consumo na década de 1990 está nos seus 50 anos e geralmente tem mais estabilidade financeira.
Brandelli destaca a alteração que a pirâmide demográfica, hoje mais parecida com a de países europeus, sofreu no Brasil como um dos fatores principais para o revival que observamos hoje. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010 para 2022, a idade mediana da população subiu de 29 para 35 anos. "É natural que o mercado se volte para essas pessoas", reflete.
Ele alerta, por outro lado, que a nostalgia também tem seu aspecto negativo. Segundo ele, as pessoas com 30, 40 anos que cresceram com a internet e com a disponibilidade quase infinita e instantânea de acesso a todos os recursos da indústria cultural, podem ter criado uma bolha na qual se remete constantemente ao passado. "Isso gera uma dificuldade até de planejar o futuro. É mais fácil consumir o passado do que criar ou inventar o futuro", reconhece.
Lopes acredita que a nostalgia está mais relacionada a um traço de personalidade positivo e que pode ser estimulado, mas lembra que o conceito foi identificado na área da Psicologia Clínica e associado a uma patologia, a comportamentos contraintuitivos. "É o caso de uma pessoa paga a mais em um móvel ou eletrodoméstico com design retrô do que em um com design moderno e mais funcional", exemplifica.

A tendência em números

  • 83% dos brasileiros sentem conexão emocional com as décadas de 1980, 1990 e 2000.
    Destes, 49% disseram que consomem produtos relacionados a essas décadas.
    Entre os 17% que manifestaram não sentir essa conexão, 12% deles responderam que consomem os itens nostálgicos por estarem na moda ou em evidência no mercado.

    Anos mais saudosos
    2000 - 36%
    Anos 1990 - 34%
    Anos 1980 - 26%

    Produtos com mais apelo nostálgico
    Videocassete - 57%
    TV de tubo - 43%
    Telefone com fio – 31%
    Câmera fotográfica analógica - 23%
    Vídeo game e “discman” - 21%

    Mídias preferidas
    Músicas - 69%
    Programas de TV - 43%
    Filmes - 35%
    Fotografias - 24%

    Audiovisual em destaque
    Refilmagens ou sequências de filmes - 29%
    Refilmagens de desenhos animados - 21%
    Produções sobre super-heróis - 21%

    Fonte: Guia dos Melhores

Com o olho no futuro e o pé no passado

Beatnik, loja  que mescla brechó, peças autênticas e moda autoral, oferece uma gama de itens antigos na Capital

Beatnik, loja que mescla brechó, peças autênticas e moda autoral, oferece uma gama de itens antigos na Capital


EVANDRO OLIVEIRA/JC
Um retorno ao começo. Assim pode ser definida a atual fase da Beatnik, uma loja que tem um pé no passado, apesar de lançar tendências e buscar ocupar um espaço fora do comum.
A proprietária Virgínia Noschang Debize começou no ramo do brechó, vendendo em feiras, e depois montou loja em uma garagem, com o foco em peças autênticas, coloridas, lúdicas, autorais e antimoda, do tipo que ela mesma gostava e não encontrava no comércio local.
"Percebo que a gurizada dá muito valor para o que é antigo. Às vezes, eles vêm com os pais, que chegam para procurar um brinquedo antigo que tem um significado especial para eles. Esses dias vieram aqui duas adolescentes que estavam com a roupa da avó", diverte-se. Ela conta que se desfez, aos 15 anos, de toda a sua coleção de brinquedos. No outro dia veio o arrependimento e então começou a colecionar brinquedos. "Eu mesma tenho uma relação de apego muito grande com os objetos e a história do passado e vejo isso em outras pessoas", afirma.
A loja, que existe desde 1998, já esteve em dois shoppings diferentes e há quase dois anos e meio está na rua Marechal Floriano Peixoto, no Caminho dos Antiquários, voltando a focar no reuso e em objetos antigos, como os brinquedos. O público de shopping, na época em que a Beatnik focava mais nos adolescentes, não migrou para loja de rua, que atraiu clientes diferentes.
"Nascemos de novo. As vendas diminuíram, mas os gastos também são menores. Reconquistamos clientes antigos, históricos, que não gostam muito de shopping", relata. Hoje, Virgínia voltou a produzir acessórios, e a loja abriga um collab de moda consciente e trabalha para valorizar artistas, ceramistas, grafiteiros. "A Beatnik hoje é um clubinho, no centro da cidade, que agrega vários artistas locais", conta.
 

Para quem deseja viajar no tempo, um Fusca

Machado tornou seu desejo de menino, de ter o próprio Fusca, em um negócio que, segundo ele, não comercializa carros, mas vende sonhos

Machado tornou seu desejo de menino, de ter o próprio Fusca, em um negócio que, segundo ele, não comercializa carros, mas vende sonhos


FERNANDA FELTES/JC
Carro recordista de produção no Brasil e que parou de ser fabricado em 1996, o Fusca segue um ícone. Na zona Norte de Porto Alegre, uma loja especializada no modelo atua há quase duas décadas, a Cia do Fusca. O proprietário Enio Machado conta que a abertura da empresa foi a realização de um sonho de menino. "O meu primeiro carro, aos 18 anos, foi um Fusca. Ele não é confortável, mas é aconchegante, e parece que o mundo se transforma quando você está nele. Acho que é isso que essas pessoas têm buscado", conta.
O perfil etário do antigomobilista (pessoas que escolhem preservar historicamente o estilo e período dos carros antigos) que tem o Fusca como referência está na faixa dos 30 a 60 anos, afirma Machado. "São profissionais liberais com um certo poder aquisitivo, que têm seus carros, mas querem um Fusca, quase para se dar de presente aquilo que não tiveram quando eram jovens", diz. Muitos participam de encontros e clubes, que, acredita, também são uma espécie de válvula de escape para desestressar da vida, resgatar a infância.
Machado tem 55 anos e comenta que sua geração tem uma ligação forte com o automóvel, ao contrário dos jovens de hoje, nos quais percebe até uma certa rejeição ao carro por questões ambientais ou mesmo práticas, como a oferta de aplicativos de táxi e carona. "Mas mesmo esse jovem de 18 a 30 anos aparece aqui para comprar um Fusca porque no fim de semana quer um carro para dar uma volta, às vezes ir em um encontro de antigomobilismo com os pais", diz.
Os carros mais antigos, por não ter os equipamentos eletrônicos dos modernos, segundo Machado, são uma curiosidade para os jovens. "Quem dirige um Fusca pode pilotar um Boeing", brinca. Além disso, aproximam o Fusca dos mais jovens, acredita Machado, a qualidade de um produto que foi testado e retestado, que já passou de pai para filho, de avô para neto e que têm peças sempre disponíveis no mercado - ao contrário do que acontece com os carros mais novos que são produzidos na lógica da obsolescência programada.
A Cia do Fusca realiza pequenas manutenções, compra e vende, inclusive online, peças e acessórios. Quando adquire uma unidade do ícone, sempre com uma boa estrutura, faz revisão do sistema de freios e parte elétrica, troca correia, óleo e velas, limpa carburação, enfim, tudo o que deixa o "fusquinha" pronto para ser vendido. De acordo com Machado, compra-se um bom Fusca a partir de R$ 20 mil. "Os mais baratos, de R$ 5 mil, por exemplo, acabam indo para o celeiro de peças que temos para quem quer garimpar", diz.
A empresa tinha uma equipe de 14 pessoas e fazia restauração completa dos veículos, atividade que precisou ser abandonada durante a pandemia de Covid-19. Hoje, conta com três funcionários. Machado avalia que o crescimento foi acelerado até 2020, e agora por dimensionar melhor o tamanho da empresa. "O retorno financeiro é consequência daquilo que você faz por prazer, com alegria. Hoje indico as pessoas que trabalhavam comigo, são meus parceiros", afirma.

Antiga locadora atrai colecionadores e revendedores

Denise estima mais de 100 mil itens nos dois andares da loja, com pilhas de CDs, DVDs, blu-rays, VHS, vinis, fitas cassete e alguns objetos de decoração

Denise estima mais de 100 mil itens nos dois andares da loja, com pilhas de CDs, DVDs, blu-rays, VHS, vinis, fitas cassete e alguns objetos de decoração


TÂNIA MEINERZ/JC
Uma loja que é um programa para muita gente. Assim é a Twin Vídeo, com seus dois andares e pilhas de CDs, DVDs, blu-rays, VHS, vinis, fitas cassete e alguns poucos objetos de decoração. O acervo é estimado em cerca de 100 mil peças, que vão de R$ 2,00 a R$ 300,00, e a empresa compra, vende e troca.
"Quem não conhece se surpreende com o tamanho e quem gosta às vezes vem todo o fim de semana, porque sempre tem coisa boa chegando, é muito dinâmico, com muita circulação de mercadoria", comenta Denise Noal Franco, que conduz o negócio com o marido Francisco Franco.
O público da Twin está na faixa etária dos 50, 60 anos. "É o colecionador que viveu a época de ouro das videolocadoras, mas tem uma gurizada que faz cinema ou arte que também frequenta muito". Ela conta que tem um cliente de 12 anos que vem do Interior uma vez por mês e fica umas duas horas garimpando. "Nesse caso tu vês que é uma paixão dele, mas na maioria das vezes é uma nostalgia vem dos pais, que curtem assistir um filme clássico juntos", observa.
Denise conta que também tem cliente que vem de Brasília uma vez por mês e passa um dia inteiro na loja. Na Twin, o cliente tem que garimpar, e aí que está o segredo, segundo Denise. "As pessoas amam, no que está arrumadinho ninguém mexe. É uma nostalgia, esse público é muito empolgado e curte demais", diz.
"A gente percebe que a loja física dá essa tranquilidade para muitas pessoas, para fazerem negócio", diz Denise. E como a loja é bem conhecida, os revendedores que atuam no online mirando os colecionadores que não têm acesso à loja física também buscam a Twin. "Optamos por esse caminho para continuar fazendo o que gostamos, mas com uma estrutura enxuta", explica. Denise conta que, em 1991, começaram com locação. Na época, compravam em grandes quantidades os filmes que eram mais procurados e tinham fila de até três meses. Com isso, começaram a ficar com estoque muito grande e aí optaram por abrir uma revenda, repassando o excedente para as locadoras menores, do Interior, inclusive dando treinamento.
Depois, vieram as crises, primeiro com a pirataria, depois com o streaming, e já não havia mercado para locação nem revenda. "Insistimos, mas a crise foi tão grande que decidimos direcionar para o varejo. E percebemos que tinha muita procura dos colecionadores pelos produtos. Como são itens que não se encontram facilmente, o preço é teu", afirma Denise.

Antiquarismo une três gerações

Relicário Café -

Relicário Café -


ISABELLE RIEGER/JC
A nostalgia não é apenas individual e pode se manifestar mais claramente em grupos e famílias. "Experiências similares favorecem o seu afloramento", explica o professor da ESPM, Evandro Lopes. A família Fiorin, do ramo antiquarista, é um exemplo desse comportamento que ultrapassa o simples apego e atinge os negócios. Luiz Alcides Fiorin, o avô, atuava no Brique da Redenção, Júlia Fiorin Hoch, a neta, hoje dirige a cafeteria que fica na loja da mãe.
Silvana Fiorin, que conduz O Relicário e é especialista em restauro de lustres, conta que já acalentava a ideia de abrir um café no espaço. Mas foi na virada profissional que a filha resolveu fazer após se formar em Direito que, juntas, embarcaram no projeto. Conheceram todos os cafés de Porto Alegre e Júlia fez o curso de barista.
Cada canto do café foi planejado, mas a decoração não é estática, tudo pode mudar, aos poucos, com uma peça e outra. Na sala mais ao fundo, dois vitrôs que pertenceram à historiadora Sandra Pesavento captam o olhar de quem senta para apreciar o espaço.
O Relicário Café funciona há um ano e atrai um público de 25 a 80 anos. No cardápio, tem bolo da vovó (entre eles, o clássico cenoura com chocolate) e pizza de sardinha, aquela de massa alta, dos aniversários dos anos 1970. A partir de outubro, a casa começou a realizar o evento temático "Como nos velhos tempos". Na primeira edição, que contou com violinista, pianista, saxofonista e soprano, os ingressos esgotaram rapidamente e quase todo o público veio com roupas de época.
E entre uma e outra delícia, dá para garimpar uma peça entre as milhares do antiquário. Do brechó, com peças que custam a partir de R$ 20,00, passando pelos discos e chegando nos móveis, com preços de até R$ 15 mil - neste caso, uma escrivaninha de madeira maciça, puxadores originais de bronze e pés garra de leão, daquelas que se usavam com destaque no centro de um grande cômodo.
Silvana explica que, com o café, o tamanho do antiquário reduziu, mas as vendas aumentaram em cerca de 60%. Ela, que já teve loja em vários pontos da cidade, no ponto anterior, também na João Pessoa, começou a trabalhar com artigos de segunda mão de vestuário e acessórios. "Brechó é reuso, dar uma outra vida para peças que foram amadas por alguém", diz. E a história em família não para, porque Silvana trouxe também o marido, Sérgio Rogério Hoch, para os negócios, depois de ele se aposentar. Foi um processo natural, ele foi se interessando, colecionando, e acabou se especializando em itens de música, inicialmente vendendo na banca do brique, que Silvana administra hoje, e depois passando a atuar na loja. "Aqui é uma extensão da nossa casa, da nossa vida", resume.

Na noite, uma nostalgia para chamar de sua

Guilherme diz que Espaço Marin permanece com agenda musical focada em clássicos de décadas anteriores

Guilherme diz que Espaço Marin permanece com agenda musical focada em clássicos de décadas anteriores


Tiago Trindade/Divulgação/jc
Quem mora em áreas mais periféricas de Porto Alegre conhece a dor de se deslocar para ver e ouvir um artista querido que invariavelmente se apresenta em áreas centrais da cidade. Pensando nesse público, Guilherme Marin e o irmão, Nelson, criaram, há seis anos, o Espaço Marin em uma das áreas mais densamente povoadas da Capital e que não tinha nenhuma opção do tipo.
Localizado no Bairro Sarandi, desde o início teve uma proposta nostálgica, com decoração que incluía orelhões antigos e fliperamas. Na música, prevalecia o rock gaúcho. Como muitos outros negócios do entretenimento, no pós-pandemia a casa foi se transformando, a decoração passou a contar com elementos mais contemporâneos, como o grafite, mas permaneceu a agenda musical focada em "clássicos".
O Marin já recebeu nomes como Tribo de Jah, do Maranhão, Bandaliera, Ultramen, DeFalla, Comunidade Nin-Jitsu, Rosa Tattooada e tantos outros sucessos dos anos 1980 e 1990. A casa também tem uma festa temática dessas décadas, todo mês, que costuma atrair um público bem específico. "Percebo que as pessoas buscam viver de novo o que experimentaram na juventude, porque marcou época", diz Guilherme.
O público da casa costuma ser da faixa etária de 30 a 50 anos. "Mas, em uma noite recente, tivemos um aniversário de 87 e um de 18 anos", comenta. O local possui capacidade para 400 pessoas e reúne, além do espaço para
shows, artes visuais, com exposições de criadores locais, drinks especiais e cervejas artesanais.
Um pouco mais distante na linha do tempo dos clássicos da música, o bar Matita Perê recebe todo mês na sua programação o projeto Samba do Sabiá. "É uma noite que resgata uma tradição do samba, que é o samba acústico, com as pessoas no entorno dos músicos, e todas com voz, com resposta de coro, que é clássico do partido-alto também", explica o proprietário Filipe Stella. As letras ficam nas mesas para as pessoas conhecerem e acompanharem os músicos, se quiserem.
Segundo Stella, a noite tem um público bem cativo e acontece sempre na primeira quinta-feira do mês. Antes da pandemia, nas quartas-feiras, o Matita realizou por 10 anos uma noite de sambas clássicos, que inclusive contava um pouco da história do samba. "Acreditamos que a música brasileira é uma das mais ricas em todo mundo. Estilos como o samba, o choro, a MPB e suas variantes mais modernas são indispensáveis para representar essa história", destaca.
Desde a inauguração, em 2009, o bar segue indiferente a modismos e fiel à proposta de resgatar clássicos, não só na música, mas também na estética e na gastronomia. O próprio nome da casa reflete um pouco dessa história: Matita Perê é o nome de um pássaro e também de um disco do Tom Jobim, maestro que está representado num dos muitos retratos das paredes do bar.

Cultura gamer tem espaço em Canoas

Giovanna presenteou o pai, Evandro Silveira, com a miniatura do Xevious

Giovanna presenteou o pai, Evandro Silveira, com a miniatura do Xevious


Old School/divulgação/jc
Em Canoas, o Old School Arcade Beer Burguer propõe manter viva a cultura gamer, oferecendo aos clientes a experiência de jogar em fliperamas dos anos 1980 e 1990. O proprietário, Evandro Oliveira Silveira, é um colecionador de games e fliperamas e decidiu dividir isso com o público. Ele conta que se encantou com os games desde que teve seu primeiro aparelho, um CCE VG-2800 compatível com o Atari.
O público do Old School é composto de uma faixa etária bem abrangente, de até 60 anos. "Tem a galera que viveu aquele período, mas também tem muita gente jovem, muitos frequentam por meio dos pais, que gostam de mostrar o que viveram, e eles também se encantam", diz. Quem gosta de jogar fica muito tempo e geralmente vai com amigos.
O espaço conta com 50 fliperamas e uma variedade de cervejas artesanais. Silveira também é mestre cervejeiro, e a família já teve outros empreendimentos na área da gastronomia. "Uni tudo que gostamos em um mesmo local, e a sensação com relação aos games é de estar mantendo a história preservada", afirma.
Silveira também conta que faz o resgate e restauro de fliperamas. "Chegamos nestas peças através de garimpo, bastante procura, indicação e também doações". As máquinas são restauradas e mantidas no acervo pessoal, elas são rotacionadas e disponibilizadas no espaço de tempos em tempos com as que estão guardadas.

Uma hospedagem que é um achado nostálgico

Público frequentador é bem diverso, desde os mais maduros, a jovens e famílias

Público frequentador é bem diverso, desde os mais maduros, a jovens e famílias


Apê da Mônica/Divulgação/JC
Porto Alegre tem um apartamento disponibilizado na plataforma Airbnb com um forte apelo nostálgico e que é um sucesso, e tem até redes sociais. O "apê da Mônica" é uma acomodação temática sobre a série Friends, dos anos 1990, que teve 10 temporadas e é uma das séries de comédia que sempre figura na lista das melhores de todos os tempos. O imóvel de dois quartos fica no bairro Petrópolis e é classificado pela plataforma como um "achado", aquele tipo de acomodação que costuma estar sempre reservado.
O apartamento é de um casal de publicitários, Giovanna Berti Previdi e Alexandre Davi Borges, que perceberam que não existia proposta igual e, em uma conversa despretensiosa, decidiram, com a família da Giovanna, iniciar o projeto. Mas ele foi engavetado, pois, na época, o pai dela adoeceu e as energias ficaram concentradas no seu tratamento. "Depois meu pai veio a falecer, então não tocamos mais no assunto durante aquele tempo", conta Giovanna. Mais tarde, quando o casal procurava por um apartamento mais espaçoso, esbarraram no imóvel perfeito e resolveram reativar o projeto.
O apartamento é bem menor do que o original. "Claro que a recriação não é exata, mas não abrimos mão dos dois quartos, da sala integrada com a cozinha e do acesso ao andar por escada, como na série". O irmão de Giovanna, engenheiro civil, fez o projeto, que incluiu o reposicionamento de paredes. A mãe também ajudou muito, com os detalhes das paredes, os tecidos.
"Foi uma criação em família e continua sendo bem importante para nós, porque aconteceu num momento de luto. Para mim, tem um significado muito especial", diz. Objetos emblemáticos para a série, mas que não estavam necessariamente no apartamento da Mônica da ficção, foram criados por Giovanna. Os objetos decorativos foram sendo colocados aos poucos, a cada 15 dias ela diz que inventa uma coisa nova. Para montar o apartamento, assistiu novamente a todos os episódios, na ordem, anotando detalhes.
Giovanna se surpreende com o público que a acomodação atrai. "É bem diverso, achei que seria a maioria na faixa dos 40 anos, mas tem muita gente jovem, 20 e poucos anos, e famílias", afirma. A maneira como as pessoas vivem a experiência é que tem diferença, segundo ela. "Quem é um pouco mais velho recorda que teve um Twister, por exemplo, e aí vem a questão da memória afetiva. Quem é mais jovem gosta de colocar o CD no aparelho de som, porque nunca fez isso na vida e quer desbravar as tecnologias do passado", compara.
Friends veio antes da cultura do streaming, quando o consumo ocorria de uma maneira mais lenta, com envolvimento mais comprometido, segundo Giovanna. Ela acredita que por isso seja uma série com uma recordação tão marcante que emociona e impulsiona o consumo. "A gente gosta de hospedar e acaba até fazendo amigos. É um negócio bem legítimo para nós, para além da questão financeira", diz.
 

*Sandra Chelmicki é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Tem especialização em Gestão de Projetos e em Design Instrucional. Atuou como repórter e subeditora no Jornal do Comércio, como freelancer na Superinteressante e como editora na Artmed. Hoje, atua como freelancer em reportagem e em produção de conteúdo e de materiais didáticos.