O impacto do coronavírus foi para todos

Mauro Belo Schneider
Após mais de um ano vivendo à sombra do novo coronavírus, todos os setores da sociedade foram impactados. No Rio Grande do Sul, a virada de 2020 para 2021 trouxe esperança por conta da chegada da vacina. A velocidade da aplicação das doses, no entanto, deixou as pessoas frustradas e, principalmente, desprotegidas, o que tornou os meses de março e abril caóticos.
A economia, como se sabe, desacelerou novamente. Muitas pessoas perderam empregos, marcas tradicionais faliram e reservas financeiras esgotaram. Foi preciso coragem, persistência e muita criatividade para continuar operando - às vezes, com as portas abertas, às vezes, fechadas. Até as empresas que faturaram bem no período não puderam comemorar. Afinal, é uma situação de luto coletivo, estresse e imprevisibilidade constante.
Nesta reportagem, o caderno Marcas de Quem Decide dá voz a representantes dos mais diversos segmentos: saúde, educação, indústria, comércio e turismo. As impressões e reflexões dessas lideranças sobre o surto e sobre como agiram para manter os negócios de pé servem como registro histórico.

Comércio

Fabio Faccio, presidente da Renner:

Fabio Faccio, presidente da Renner: "iniciativas previstas para os próximos anos foram antecipadas"
Crédito: /Fabiano Panizzi/Divulgação/JC

Para o comércio, a Covid-19 eliminou uma das tendências que vinha sendo traçada por especialistas: o interesse do público por viver a experiência dos pontos de venda. Com a recomendação para ficar em casa, diminuiu consideravelmente a circulação de pessoas nas lojas. Do pequeno ao grande empreendedor, o jeito foi apostar nas redes sociais e no e-commerce para continuar vendendo.

Segundo Fabio Faccio, diretor-presidente das Lojas Renner, o processo de transformação digital ocorre na marca desde 2018, mas foi acelerado. Os canais digitais, que vinham registrando bom desempenho mesmo antes da pandemia, ganharam ainda mais relevância em 2020: cresceram 126% e encerraram o ano representando 12,3% das vendas totais.

"Iniciativas originalmente previstas para os próximos anos foram antecipadas e colocadas em prática em tempo recorde. Um exemplo é o atendimento pelo WhatsApp, que permite aos consumidores comprarem digitalmente, mas com a assistência de um colaborador. Outro é a Prateleira Infinita, que disponibiliza aos clientes do e-commerce também o estoque das unidades físicas, aumentando a oferta de produtos. Além disso, houve o crescimento de muitos serviços que já estavam implementados, como as alternativas de checkout móvel, que representaram mais de 20% das vendas das lojas em 2020", mensura Faccio.

A Renner foi, ainda, a primeira varejista a tomar a decisão de fechar temporariamente todas as lojas físicas em março de 2020, antes dos decretos, conforme o executivo.

"Colocamos as pessoas no centro de nossas decisões, optando pela preservação da saúde e das vidas, com a manutenção de empregos e a reorganização das operações. Paralelamente, reavaliamos os investimentos previstos e adotamos uma série de medidas para apoiar nossa rede de fornecedores", diz Faccio.

Outro projeto pensado para o virtual foi o Renner Live Shop, que consiste em transmissões ao vivo com reviews e demonstrações de produtos. E, apesar do momento de foco no digital, a marca pretende seguir próxima dos consumidores. "Isso passa por investir nos nossos canais digitais e também na inauguração de novas lojas, inclusive no Rio Grande do Sul", adianta Faccio, em entrevista ao Marcas.

Paulo Kruse, presidente do Sindilojas Porto Alegre, considera que o comércio teve de repensar todo o seu modelo. "A forma de se relacionar com os clientes, de gerir equipes, controlar estoques, vender, entregar, tudo. Somente quem fizer essa avaliação urgente de mudar a mentalidade e colocar em prática novas ações conseguirá sobreviver. Muitos tiveram de entender todas as mudanças necessárias rapidamente, pois foram resistentes até enquanto podiam. Agora, em 2021, não há mais como manter essa postura. O ano seguirá difícil, mas o Sindilojas Porto Alegre permanecerá ao lado dos lojistas, defendendo a abertura das lojas e levando tendências, informações e subsídios para aqueles que desejam evoluir em meio à crise", salienta.

Indústria

Gilberto Petry, da Fiergs:

Gilberto Petry, da Fiergs: " demanda voltou com intensidade"
Crédito: /FIERGS/DIVULGAÇÃO/JC

A indústria, embora tenha se adaptado de forma mais prática do que o comércio, já que não há tanto contato com o público, precisou agir rapidamente para evitar surtos nas fábricas. Nos locais onde isso ocorreu, os prejuízos foram grandes, já que envolve afastamento de equipes e, em alguns casos, suspensão de atividades.

Determinados setores foram mais demandados durante a pandemia, enquanto outros viram os números enxugarem. De forma geral, foi um momento de preocupação.

Conforme o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Gilberto Petry, o impacto foi em diversas frentes. "Primeiramente, observou-se o cancelamento de muitos pedidos e a queda na produção por conta da necessidade de distanciamento social. A grande incerteza também resultou na postergação e na redução dos investimentos da economia, o que afetou vários segmentos", afirma Petry.

Nos meses de março e abril de 2020, o setor acumulou queda de 27,1%, a maior da história em dois meses. Na medida em que as atividades voltaram, o mercado se deparou com custos de insumos mais elevados e com a redução dos estoques. Em alguns segmentos, a demanda voltou com intensidade maior do que a esperada, e a falta de insumos e matérias-primas passou a ser um problema. A indústria encerrou o ano de 2020 com utilização da sua capacidade instalada (UCI) em níveis recordes. A média da UCI no último trimestre foi de 80,3%, maior valor desde 2014.

"Para 2021, as perspectivas ainda são de continuidade de recuperação. Em que pese as incertezas com essa nova onda de casos, a solução está mais próxima e existe um aprendizado trazido do ano passado. Assim, espera-se que o setor apresente um crescimento impulsionado, substancialmente, pela base de comparação estatística muito baixa e pela retomada gradativa do setor de serviços a partir do segundo trimestre", indica Petry.

A Stihl Brasil é um exemplo de quem viu sua produção aumentar em um ano tão desafiador. Conforme Cláudio Guenther, presidente da marca, diferentemente de muitos setores, o aquecimento do agronegócio brasileiro e a demanda de exportação, entre outros fatores, fomentou o cenário de expansão.

"A empresa vem enfrentando a pandemia adequando as estratégias do negócio aos movimentos mercadológicos atuais para viabilizar e garantir uma rápida reação. O resultado disso foi o crescimento de 51,2% no faturamento em 2020. E, para suportar essa alta na demanda de produção, investimos
R$ 151 milhões na unidade brasileira em 2020 e, ao longo deste ano, R$ 374 milhões ainda serão aportados", detalha o executivo.

A Stihl encerrou o ano passado com um aumento de 21% no quadro de funcionários e, nestes primeiros meses de 2021, foram preenchidas 250 posições - totalizando mais de 750 vagas de emprego geradas desde o início da pandemia.

Turismo

Nestor Tissot, prefeito de Gramado:

Nestor Tissot, prefeito de Gramado: "quase 90% de nosso PIB vem do turismo"
Crédito: /Prefeitura Gramado/Divulgação/JC

O turismo simplesmente parou por um período. Viagens internacionais foram canceladas, aeroportos tiveram redução histórica no volume de passageiros, e cidades turísticas ficaram vazias. Gramado, nos meses de mais restrições, tornou-se irreconhecível.

O prefeito do município, Nestor Tissot, diz que a falta de público afetou a economia. "Quase 90% de nosso Produto Interno Bruto tem como base o turismo. Estávamos preparados para a retomada econômica com a projeção de eventos públicos e privados, e extremamente esperançosos, porém, a nova variante impediu momentaneamente nossos projetos", diz ele.

O prefeito destaca que o governo trabalha em conjunto com os profissionais de saúde, representantes de classes econômicas e com a população para discutir o ponto de equilíbrio entre economia e saúde. "Temos a certeza de que, tão logo tenhamos vacinas suficientes para a imunização massiva de nossa comunidade e a conscientização da população com as medidas de prevenção, poderemos direcionar os esforços da administração na recuperação econômica, na criação de empregos e renda. Seguimos firmes e fortes acreditando na ciência e jamais deixando nossa fé de lado", admite Tissot.

A rede hoteleira acompanha esse movimento de queda brusca causada pela pandemia ao redor do mundo. O grupo Laghetto Hotéis, de acordo com o CEO Diego Cáceres, deu marcha à ré para se proteger.

"Tivemos que recuar alguns passos para sobreviver durante a crise à espera de dias melhores que ainda estão por vir. Ao mesmo tempo, nos preparamos para atender os nossos hóspedes e manter a nossa equipe na maior segurança, adotando todos os protocolos de distanciamento e de prevenção", expõe Cáceres.

Educação

Ir. Evilázio Teixeira, da Pucrs:

Ir. Evilázio Teixeira, da Pucrs: "mobilizamos uma força-tarefa multidisciplinar"
Crédito: /Pucrs/Divulgação/JC

Nunca, na história da geração atual, aulas foram canceladas de forma tão prolongada. Crianças, adolescentes e estudantes de todas as idades entraram, em 2021, no segundo ano de lições remotas. Isso fez com que o mercado de educação tivesse que se reinventar.

Na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), foram reduzidos investimentos, mas projetos estratégicos seguiram funcionando. "Muitas das ações que foram implementadas em 2020 já faziam parte do planejamento da Pucrs. Com a urgência de mudar as aulas presenciais, por exemplo, implementamos rapidamente um modelo próprio, diferente do EaD adotado no Brasil. É um ensino online que foca em garantir a aprendizagem de maneira criativa e eficiente, além de fortalecer as relações entre professor, estudante e instituição. Implementamos uma equipe de Mediação Online, houve aquisição de recursos tecnológicos necessários e, o mais importante, momentos periódicos de formação do corpo docente", aponta o irmão Evilázio Teixeira, reitor da universidade.

Paralelo a isso, a Pucrs integrou o Comitê Científico de Apoio ao Enfrentamento da Pandemia no Rio Grande do Sul, produzindo mais de 25 mil protetores faciais doados a diversas instituições, e mobilizou uma força-tarefa multidisciplinar com pesquisadores de diferentes áreas com resultados que já estão contribuindo a nível internacional. "Desenvolvemos testes de baixo custo para diagnóstico da Covid, e nosso hospital foi um dos 15 centros do País a participar dos testes clínicos para a vacina Coronavac", destaca.

A Pucrs Cultura realizou mais de 120 ações de música, literatura e oficinas de arte online e gratuitas para o público. Essas atividades tiveram, aproximadamente, 150 mil interações, e 161 artistas foram contratados. "Em 2021, seguiremos fomentando parcerias estratégicas, pois acreditamos que é na união de esforços com os diversos atores sociais que daremos respostas às necessidades da nossa comunidade. Além disso, seguimos empenhados em superar os desafios presentes exercitando nossa capacidade de agir de forma coesa e consistente, com sabedoria e humildade, em prol de nossa missão."

Nas áreas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, os alunos foram privados da socialização. O padre Jorge Álvaro Knapp, diretor do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, considera difícil viver isoladamente, mas se tornou algo necessário na pandemia. "A escola é um espaço de convívio por excelência, e é esse 'estar junto' que amplia os horizontes, que enriquece a aprendizagem e que fortalece a dimensão socioemocional dos alunos", explica ele.

Um dos legados do período, no entanto, são as novas práticas pedagógicas para educadores e novas habilidades para as famílias. Isso gerou transformações positivas no cenário educativo, como a capacidade de reinvenção dos professores e alunos, novas possibilidades de ensino e aprendizagem e o desenvolvimento da autonomia de crianças, adolescentes e jovens. Mas, por outro lado, saltou o abismo existente entre a falta de acesso a tecnologias e uma educação de qualidade.

"Vislumbramos o ano de 2021 com olhos de esperança de que dias melhores estão por vir. O Colégio Anchieta está mais preparado para lidar com as incertezas e seguir no modelo híbrido de ensino. Nossos professores estão capacitados e contamos com recursos tecnológicos para dar continuidade à nossa missão educativa, buscando uma educação integral e humanizadora."

Saúde

Nadine, do Hospital de Clínicas:

Nadine, do Hospital de Clínicas: "abrimos 105 novos leitos de CTI"
Crédito: /HCPA/Divulgação/JC

A área da saúde, obviamente, não teve escolha. Do dia para a noite, mudou a rotina hospitalar por conta do aumento do número de casos de Covid-19. Em alguns períodos, o sistema chegou a entrar em colapso, mas os profissionais, incansavelmente, buscaram formas de ajudar a população a enfrentar a pandemia.

Um dos hospitais referência no tratamento do coronavírus, o Moinhos de Vento, chegou a instalar um contêiner para o armazenamento de cadáveres. O superintendente executivo do local, Mohamed Parrini, reconhece a superação que todos vivem diariamente.

"A pandemia trouxe mais do que uma crise sanitária. Estamos lidando com crise econômica, crise social, crise política, crise humanitária. Um ano depois, não conhecemos bem esse vírus, não temos tratamento com comprovação científica, e o ritmo da vacinação ainda não é o ideal", avalia.

A missão da equipe, agora, é lidar com a "Long Covid", ou seja, sequelas e sintomas persistentes que podem provocar uma pandemia de incapacidade, pois afeta a população economicamente ativa. "Sem contar a demanda represada de pacientes com outras doenças. Os impactos vão além dos financeiros. Entendendo a gravidade da situação, tomamos medidas que reduziram a nossa receita, o que era esperado diante de uma pandemia sem precedentes", coloca Parrini.

O Hospital de Clínicas é outro destino das inúmeras ambulâncias que levam os pacientes que sofrem complicações. Conforme a diretora-presidente, Nadine Oliveira Clausell, a saúde foi a principal área atingida pela crise, o que impôs um desafio enorme a toda a sociedade, especialmente a quem atua na gestão das instituições.

"No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, tivemos a missão de estruturar e abrir 105 novos leitos de CTI e remanejar toda a atuação dos serviços e dos profissionais para atender à nova demanda trazida pelo coronavírus, sem esquecer de todas as outras doenças pelas quais nossa população, que depende do SUS, precisa de assistência", sintetiza ela.

Nadine ressalta o empenho dos profissionais e a dedicação de todos para fazer sempre o melhor no front, salvando vidas. "O desafio é continuar a ocupação gradual dos novos blocos, para os quais ainda necessitamos viabilizar recursos que permitam equipá-los", aponta Nadine.

Publicado em 26/04/2021.