Entrevista com a Great Place To Work: empresas estão mais preocupadas em atrair talentos



Kelly Bitencourt, diretora executiva da Great Place To Work em Porto Alegre, afirma que marcas com colaboradores felizes geram mais satisfação à clientela
CRÉDITO: /MARCELO G. RIBEIRO/JC
por Robson Hermes
Em meio a um mercado globalizado e dinâmico, a relação entre funcionários e empresas mudou. Trabalhar uma vida inteira em um mesmo lugar já não é mais o sonho dos jovens talentos e a busca por um propósito, muitas vezes, coloca-se acima da pretensão salarial. Por isso, as empresas tendem a se preocupar mais com as necessidades dos funcionários e buscam tornar-se mais atrativas e abertas à diversidade, sendo assim mais atrativas e competitivas na retenção dos jovens talentos. Consequentemente, o mercado percebe o movimento e abre portas para marcas com esse comportamento.
Nesse cenário, a Great Place To Work (GPTW), empresa que presta consultoria para potencializar boas práticas de gestão nas empresas, emerge. Além de realizar esse trabalho junto às lideranças das empresas, a GPTW elege os melhores lugares para trabalhar a nível mundial, pois possui atuação em 59 países. No Brasil, uma das sedes da GPTW fica na rua Anita Garibaldi, no bairro Mont'Serrat, em Porto Alegre. Em entrevista ao Marcas De Quem Decide, Kelly Bitencourt, diretora executiva da Great Place To Work, fala sobre a percepção com relação ao interesse das empresas em estarem cada vez mais entre as preferidas para trabalhar.
Marcas De Quem Decide - É possível dizer que, hoje, os funcionários estão mais exigentes ao escolherem as empresas para trabalhar e, caso descontentes, trocam com maior frequência? Por quê?
GPTW - Sim. Atualmente, permanecer em uma mesma empresa até a aposentadoria não é mais um desejo comum. O mercado está cada vez mais global e diverso, dinamizado pela tecnologia que transforma noções de mobilidade, espaço e tempo. As possibilidades aumentaram, a competitividade também e essas mudanças impactam nas relações de trabalho. Hoje as pessoas têm menos medo de mudar e não querem se sentir como máquinas, que separam severamente a vida pessoal e profissional. Elas buscam ambientes que as façam crescer, por um propósito no trabalho que esteja conectado com sua essência e valores pessoais, e isso faz com que coloquem o seu melhor no trabalho. As empresas têm o papel de propiciar um ambiente (seja ele físico ou não) com uma dinâmica que permita que as pessoas possam expor o seu melhor, inovem, errem, cresçam. E as organizações que enxergam as pessoas como um todo, não apenas profissionais, têm a chance de ter colaboradores muito mais conectados e a fim de fazer acontecer.
MDQD - Quando vocês perceberam a necessidade de criar uma certificação para empresas que possuem boas práticas de gestão (trabalhistas) e um bom ambiente de trabalho?
GPTW - Desde 1997, o GPTW auxilia as empresas no desenvolvimento de boas práticas de gestão. Hoje, o GPTW atua em 59 países e os rankings de Melhores Empresas para trabalhar servem para reconhecer e dar visibilidade às empresas que se destacam por seus excelentes resultados. 20 anos depois do início dessa jornada, com a crescente busca das empresas por maior atratividade, melhores resultados de negócios, o bom ambiente de trabalho tem se tornado cada vez mais relevante e o número de empresas que participam do programa GPTW aumentou muito. Dessa forma, lançamos, em 2017, a Certificação GPTW, uma forma de reconhecer as empresas que vêm fazendo um bom trabalho. Para a certificação (diferente dos rankings) não há limite de empresas e o que dá origem ao selo de empresa certificada é a resposta dos próprios colaboradores à pesquisa GPTW, que mede essencialmente confiança no ambiente de trabalho. As empresas certificadas com as maiores pontuações na pesquisa e na avaliação das práticas de gestão darão origem ao ranking GPTW Melhores Empresas para Trabalhar.
MDQD - Na visão de quem é empresário, por que é interessante ter uma certificação da Great Place To Work?
GPTW - A certificação é um grande atrativo para os profissionais, pois todo mundo quer trabalhar em empresas boas e preocupadas com o colaborador. Aos olhos do empresário, é a chance que se tem de atrair melhores talentos, trazer inovação e sustentabilidade para as organizações. Nossas pesquisas mostram que a remuneração está longe de ser o principal fator de permanência do funcionário. As pessoas permanecem nas empresas quando sentem que estão se desenvolvendo, quando têm qualidade de vida e quando identificam na cultura e nos valores da organização uma oportunidade de trabalhar por um propósito. Estes fatores fazem com que os empresários tenham que repensar suas práticas de gestão, para conquistarem os melhores talentos. Na prática, a relação é um ganha-ganha. Ter um bom ambiente de trabalho faz bem aos trabalhadores, aos clientes, aos gestores e traz melhores resultados de negócio. Enfim, é um ciclo virtuoso que se forma.
MDQD - Como se dá a atuação da GPTW em uma empresa que a contrata?
GPTW - O GPTW tem como missão ajudar cada organização a se tornar um excelente lugar para trabalhar. Para isso, atuamos com a preparação das empresas, compartilhamos práticas de gestão de empresas premiadas, ajudamos no desenvolvimento de líderes e colaboradores assim como na sensibilização sobre seus papéis nessa construção. O diagnóstico, através das pesquisas de ambiente de trabalho, é apenas uma forma de mensurar esse trabalho. Auxiliamos muito nos pós-pesquisa, pois de nada adianta o diagnóstico sem um bom plano de ação. E por mais que a empresa esteja bem hoje, o ambiente de trabalho é dinâmico e precisa ser trabalhado permanentemente.
MDQD - O que entra na avaliação da Great Place To Work?
GPTW - Para a certificação, o que entra na avaliação é a pesquisa com os colaboradores. Avaliamos essencialmente a relação de confiança entre líderes e funcionários. A metodologia contempla cinco dimensões: a credibilidade da liderança, o respeito às pessoas (preocupação com a pessoa e não só com o profissional), a imparcialidade no tratamento, o orgulho e a camaradagem (como chamamos a relação entre os colegas). Para a avaliação do ranking, também avaliamos um descritivo de práticas de gestão baseado em nove áreas de prática: Contratar/Receber, Inspirar, Falar, Escutar, Desenvolver, Agradecer, Cuidar, Celebrar e Compartilhar. Esta parte corresponde à 1/3 da avaliação para o ranking.
MDQD - Faz-se cada vez mais necessário discutir a diversidade e a inclusão nas empresas?
GPTW - Sim, o GPTW tem estimulado discussões sobre esse tema, inclusive publicamos recentemente um livro escrito pelo Michael Bush, CEO Global do GPTW, sobre diversidade (A Great Place to Work For All). Também revimos a pesquisa e incluímos várias perguntas sobre diversidade, pois queremos que as empresas sejam excelentes lugares para trabalhar para todos e não apenas para a maioria. Nossos estudos mostram que empresas diversas acompanham a evolução e as demandas da sociedade, assim como refletem em melhores resultados de negócios. O levantamento de dados feito a partir da lista Melhores Empresas para Diversidade 2016, realizada pelo GPTW Estados Unidos, apontou que organizações premiadas neste ranking apresentaram faturamento médio anual 24% maior do que o das concorrentes certificadas apenas como Great Place to Work.
MDQD - Vocês calculam que geraram impacto em mais de 1,5 milhões de pessoas, conforme publicado no site.
GPTW - Fazemos diversos estudos, todos os anos, para medir esse impacto. Alguns indicadores já falam por si mesmos, pois nas empresas GPTW as pessoas querem permanecer nas empresas (medimos através da rotatividade voluntária), adoecem menos, há menor absenteísmo. É um ganha-ganha, como mencionei, pois colaboradores, quando estão bem, atendem melhor os clientes, e as melhores empresas para trabalhar têm índices mais altos de satisfação de clientes, se comparadas a outras empresas. Além disso, são muito mais inovadoras, simplesmente porque quando existe confiança, principal ponto avaliado na pesquisa, é mais fácil dar ideias, ter autonomia, aspectos que são muito valorizadas pelos colaboradores.


Publicado em 28/03/2019.