O tempo e a comunicação digital no século XXI


Margot Pavan, Co-fundadora do UOL, atualmente responsável pelo desenvolvimento de audiência no Valor Econômico Margot Pavan, Co-fundadora do UOL, atualmente responsável pelo desenvolvimento de audiência no Valor Econômico

Margot.Pavan@valor.com.br


Numa sociedade que se comunica em fluxo, é preciso avaliar diariamente onde estão os impedimentos, o que precisa ser priorizado e redefinir foco e estratégia. Não são apenas os produtos que não podem mais esperar um longo ciclo de concepção e desenvolvimento. A comunicação também passa a lidar com o provisório e com o possível


A comunicação empresarial tradicionalmente sempre seguiu um tempo mais ameno que o frenético ritmo das redações. Jornalistas acostumados a trabalhar na pressão de fechamentos que exigiam horários precisos para colocar em movimento rotativas podiam se sentir mais relaxados ao ir cuidar da comunicação de uma grande empresa. Havia tempo. Tempo para planejar o produto, a comunicação, os destinatários. Cada ação a seu tempo. Nada é mais so last century do que esse cenário. De todas as inovações óbvias que nos rodeiam no século XXI, poucas são tão invisíveis como a mudança na maneira de perceber o tempo.
O controle do tempo na comunicação até o final do século XX decorria especialmente de uma característica: o broadcast. Considerando o controle dos meios de produção e distribuição da informação, fosse ela qual fosse, o cenário temporal dispunha de uma estrutura hierárquica de controle. Era possível traçar e agenciar cronogramas complexos e deadlines. Nas estruturas de produção, o século XX fez brilhar o PMO – Project Management Office, método de planejamento e gerenciamento de processos conhecido por definir e atribuir tarefas para diferentes participantes envolvidos em diferentes etapas com detalhados prazos definidos a priori. Já no século XXI, imperam metodologias ágeis: Scrum, Kanban, Lean, XP e outras são conhecimentos obrigatórios a partir da identificação dos problemas por Design Thinking. Mas o que basicamente mudou?
A comunicação não mudou. Porém mudaram os meios. Todos têm acesso às redes. Nelas a produção de conteúdo é incessante. E o conteúdo é produzido por todos. A estrutura não é mais regida por uma lógica de broadcast, mas sim por uma lógica de fluxo. Nesse novo ecossistema impera uma economia da atenção. Sendo a atenção um recurso escasso, é preciso a todo tempo escolher a quem vamos dedicar nossa atenção e, tendo dedicado atenção, temos que saber reagir rapidamente com as mudanças necessárias. Aqui aparecem claramente as diferenças do tempo num ecossistema em fluxo permanente. As mudanças também precisam ser permanentes. Isso em comunicação se traduz em não esperar mais longos prazos para dar respostas. Até o século passado, o furo de um veículo de comunicação só poderia ser ultrapassado 24 horas depois: na próxima edição. Hoje um furo é imediatamente absorvido em rede, compartilhado, respondido e repercutido por todos os concorrentes. Não são apenas os veículos, mas também as empresas que precisam se adaptar a essa nova rotina temporal na comunicação.
É por isso que as metodologias ágeis ganham cada vez mais espaço a cada dia. Numa sociedade que se comunica em fluxo, é preciso avaliar diariamente onde estão os impedimentos, o que precisa ser priorizado e redefinir foco e estratégia. Não são apenas os produtos que não podem mais esperar um longo ciclo de concepção e desenvolvimento. A comunicação também passa a lidar com o provisório e com o possível. E com o impermanente.
Saber se equilibrar nessa pressão imediatista é o grande desafio do século XXI. Há saberes que só se atingem com reflexão. Laços que só se formam com experiências reais compartilhadas. Por isso é cada vez mais comum nos ambientes corporativos de ponta a busca por imersões de detox digital (viagens caríssimas onde os participantes são convidados a deixar seus celulares na entrada) ou cursos de meditação com o objetivo de aumentar o foco, a concentração e a capacidade de entrega de altos executivos. Saber desligar o celular, parar de responder e-mails para completar uma tarefa, ler um livro inteiro e principalmente saber conversar com os outros são habilidades cada vez mais valorizadas numa sociedade digital. Exatamente por serem habilidades capazes de dilatar o tempo em que vivemos, formas de transformar o fluxo que consome nossa atenção em momento no qual nós consumimos o mundo.
Publicado em 29/03/2019.