Empreendedorismo:a força motriz das marcas


Jonatas Dornelles
antropólogo na Assessoria de Comunicação e Marketing da PUCRS Jonatas Dornelles antropólogo na Assessoria de Comunicação e Marketing da PUCRS

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O empreendedorismo está fortemente associado com atitudes inovadoras e de geração de empregos


Todas as marcas possuem um ponto em comum: elas surgem do empreendedorismo. Não existe marca sem antes alguém resolver empreender. O movimento inicial de criação de um produto ou serviço, a partir de uma ideia, já evoca a criação de uma marca. Tanto faz se o empreendimento for o "Cachorro-quente do Zé" ou o "Chez Jose Restaurant", a marca já surge como um direcionamento do negócio. O empreendedorismo cria produtos, serviços e, também, marcas. A marca é a dimensão mais abstrata dessa cadeia e onde se concentram os elementos simbólicos e subjetivos da relação com os clientes. É onde a reputação da empresa e sua imagem no mercado se situam. A marca está para além do que a empresa produz materialmente. A marca simboliza o que a empresa é. A marca gera engajamento e será com ela que o consumidor criará laços de amizade. A marca é o maior patrimônio da empresa, que pode permanecer a mesma mudando de endereço ou de atividade, mas fatalmente será outra se mudar de marca.
Atualmente, o movimento de empreendedorismo está em alta. Novos negócios e marcas estão surgindo todos os dias. Existem diversas ferramentas para empreender e que estão acessíveis às pessoas de um modo geral. E por que as pessoas resolvem abrir um negócio? Uma pesquisa realizada por uma parceria entre a PUCRS, o Jornal do Comércio, o Sebrae/RS e a Fajers, no Rio Grande do Sul, revelou dados interessantes sobre o assunto. Dos 1.770 entrevistados, 82% acreditam que alguém abre um negócio motivado por ter um trabalho desafiador, estimulante e que gere independência econômica. Ainda avaliando a percepção das pessoas sobre o comportamento empreendedor, a pesquisa revelou que 70% das pessoas acreditam que o empreendedor se destaca como sendo alguém que faz planejamento e tem persistência. Esses resultados mostram um pouco do imaginário sobre o ato de empreender e o quanto ele é fascinante. Apenas 1% das pessoas acredita que um empreendedor busque estabilidade financeira. E outro 1% acredita que ele deva ter uma habilidade intuitiva para seguir adiante. Ou seja, já caiu o mito de que basta ter "faro" para um negócio e que isso trará uma situação financeira estável.
A percepção sobre o empreendedorismo atual também está pouco associada com a atividade empresarial em essência. Apenas 3% dos entrevistados concordam com a ideia de que "um empreendedor é um empresário. Alguém que tem um negócio próprio, uma empresa. O que ele busca, na verdade, é conquistar um padrão de vida alto". Em vez disso, o empreendedorismo está fortemente associado com atitudes inovadoras e de geração de empregos. Para 45% dos entrevistados, "um empreendedor não precisa ter um negócio próprio, basta pensar e agir de forma inovadora". E para a maioria dos entrevistados, 52%, "um empreendedor é aquela pessoa que transforma uma ideia em negócio e gera emprego para a população". Existem diversos tipos de empreendedorismo. Não é o objetivo, aqui, tratar dessa diferenciação. O que está claro é que existe uma expectativa sobre o ato de empreender. Ela indica um cenário onde é menos importante a criação de empresas de uma forma tradicional e mais importante desenvolver atividades que envolvam inovação, desenvolvimento de ideias e geração de empregos.
A pesquisa teve uma ampla abrangência, captando a opinião tanto de quem não pensa em abrir negócio, mas, principalmente, de quem almeja abrir (em torno de dois terços da amostra foram compostos exclusivamente por esse segmento). Entre quem pretende abrir um negócio, a maioria (58%) ainda não sabe quando o fará. Porém uma grande parte (32%) já decidiu que será em até um ano. O restante (10%) pretende abrir negócio depois de um ano contado a partir do período da pesquisa, que foi realizada em dezembro de 2016. E por que as pessoas decidem abrir um negócio próprio? Para 47% de quem tem esse objetivo, é uma busca pela "realização pessoal, um sonho". Em segundo lugar, vem o desejo "de ter liberdade para colocar ideias em prática" (38%). Contudo, o novo empreendedor é pouco influenciado por amigos e familiares, pois apenas 3% dizem que sofreram essa força. E menos ainda (2%) receberá o negócio pronto como uma forma de sucessão familiar.
Outro dado revelador é que o desejo de se transformar em empreendedor é muito mais presente entre os mais jovens, que ainda não concluíram o ensino superior e que ganham até 2 salários mínimos atualmente. Nesse segmento, a busca pela realização pessoal, liberdade e independência financeira são fatores com maior peso na escolha do caminho empreendedor. Esses possíveis futuros empreendedores também percebem a necessidade de buscar formação específica sobre a atividade, pois chega a 43% o desejo de frequentar um curso específico sobre empreendedorismo. Os dados revelam que estamos diante de um cenário onde o empreendedor é um sujeito atuante, ativo e que busca traçar o próprio caminho. Esse perfil irá orientar a criação das marcas no futuro, que possivelmente estarão mais alinhadas com as ideias de inovação, sustentabilidade e geração de empregos. Faltaria ainda responder como se desenvolve a cultura empreendedora. Quais significados e valores estão em jogo na hora do indivíduo se identificar e assumir a trajetória como empreendedor? O modelo de McClelland se baseia mais nas capacidades pessoais inatas na hora de explicar o surgimento da motivação empreendedora. Seria necessário, também, explorar os componentes simbólicos que estão presentes nesse comportamento, o que poderá ser feito pela via antropológica com a utilização do método etnográfico.
Publicado em 27/03/2017.