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Porto Alegre, segunda-feira, 02 de janeiro de 2017. Atualizado às 15h19.

Jornal do Comércio

Panorama

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literatura

Notícia da edição impressa de 02/01/2017. Alterada em 02/01 às 16h20min

Livro mostra um outro lado de Fernando Pessoa

Livro dos autores Carlos Pitella e Jeronimo Pizarro revela interesse do autor português por magia, astrologia e ocultismo

Livro dos autores Carlos Pitella e Jeronimo Pizarro revela interesse do autor português por magia, astrologia e ocultismo


CIA DAS LETRAS/DIVULGAÇÃO/JC
Num lugar chamado Boca do Inferno, em Portugal, um bilhetinho dizia: "Não posso viver sem ti. A outra 'Boca do Inferno' vai pegar-me - e não será tão quente quanto a tua!". O autor era o ocultista britânico Aleister Crowley, chamado pelo apelido carinhoso de A Grande Besta 666 (e saudado por Paulo Coelho e Raul Seixas em Sociedade alternativa). Mas até o capeta sofre por amor - e Crowley resolveu simular um suicídio para se livrar de um romance tão ardente quanto conturbado.
Sabe quem o ajudou no plano? O poeta português Fernando Pessoa (1988-1935), que depois revelou a história em uma entrevista. Entrevista de mentira, diga-se, porque o autor inventou as perguntas e as respostas. Pessoa tinha interesse em magia, astrologia e ocultismo. É um poeta metido em histórias como essa - e dando uma risadinha de escárnio - que surge de Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida, livro de Jeronimo Pizarro e Carlos Pittella.
Pizarro, pesquisador da Universidade de Los Andes, na Colômbia, e Pittella, da Universidade de Brown, são dois dos principais nomes dos estudos pessoanos hoje. O título remete ironicamente às obras de autoajuda para mostrar um Fernando Pessoa pouco conhecido. O autor, dizem os pesquisadores, acaba eclipsado por suas grandes obras - mas ainda há o que conhecer dele.
"Cada documento tem uma história. Contamos nos dedos quantas pessoas passam pelos papéis de Pessoa com frequência. Queríamos dar uma ideia do arquivo como um todo, é um labirinto", relata Pittella. Embora bastante conhecido hoje, Pessoa só publicou um livro em vida, Mensagem (1934). Estima-se que a maior parte do que deixou escrito continue inédita.
O escritor também foi mais longe do que criar Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, seus alteregos mais famosos - aos 23 anos, inventou um heterônimo que era um pássaro, chamado Íbis. A ave não só escreveu poemas como enviava cartas para Ofélia, a única namorada do autor. "Dá-me a boquinha para comer?", suplicava.
Há no livro, aliás, um mapa com o caminho mais longo de bonde para deixar Ofélia em casa - assim os dois podiam passar mais tempo juntos (isso quando Álvaro de Campos não se intrometia na correspondência do casal, para dizer a Ofélia que o namorado não podia vê-la).
O livro não se resume a notas biográficas. Que tal ter um motivo para desrespeitar o acordo ortográfico? Pessoa odiou quando, em 1911, Portugal e Brasil tentaram unificar as ortografias - mas só a terrinha acatou as mudanças.
Em um texto de grafia arcaica até para a época, ele dizia: "O Estado não tem o direito a compellir-me, em materia extranha ao Estado, a escrever numa ortographia que repugno, como não tem direito a impôr-me uma religião que não aceito".
Apesar de, contando assim, muita coisa parecer galhofa, a obra é uma pesquisa rigorosa sobre o universo pessoano. "Tentamos fazer um livro gracioso, com reverência aos mitos (que cercam o poeta). A ideia é que as pessoas se apaixonem pela poesia dele. E vejam que foi como se ele tivesse transformado a própria vida em poema", avisa Pittella.
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