Localizada na Macrorregião Central do Estado, às margens do rio Jacuí, a cidade de Cachoeira do Sul foi um dos locais mais atingidos pelas enchentes de 2024. O acesso municipal pela histórica Ponte do Fandango ainda não foi retomado, visto que a estrutura passa por uma reforma para elevar sua altura buscando a resiliência climática. O problema logístico tem gerado entraves econômicos, ampliados pelas safras frustradas por estiagens ou chuvas excessivas ao longo dos últimos anos.
Nessa perspectiva, o prefeito da cidade, Leandro Balardin (PSDB), acredita que a retomada econômica que está em curso é uma das prioridades do seu governo — especialmente após a conclusão das obras da ponte, que está prevista para junho. A gestão municipal, entretanto, ainda tem outro grande desafio: o de colocar em dia as contas públicas, que estão com um déficit anual de R$ 66 milhões. A perspectiva, entretanto, é fechar 2026 com um saldo devedor menor.
Nesta entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio, Balardin comenta o cenário econômico da cidade que recebeu o segundo evento do Mapa Econômico do RS de 2026, realizado no dia 15 de abril. No encontro, foram debatidos os principais desafios e oportunidades de desenvolvimento econômico da região.
Nesse contexto, uma das principais oportunidades destacada por ele está relacionada à atração de empresas ao novo distrito industrial do município, vinculado ao governo estadual, que poderá impulsionar a retomada do porto e a navegação pela hidrovia do Jacuí. Já os entraves estão relacionados, na sua visão, à organização da gestão pública para dar conta de uma infraestrutura e logística deficitárias.
A economia, entretanto, tem conseguido se transformar. Um dos polos pioneiros da rizicultura no Rio Grande do Sul, Cachoeira do Sul está diversificando a produção agrícola. A soja atingiu uma nova fronteira nas últimas décadas rumo ao centro do Estado que atingiu o município. Além disso, as produções de noz-pecã e azeite de oliva se consolidaram, trazendo um alto valor agregado aos produtos comercializados. A indústria também toma força e, frente à reforma tributária, a gestão municipal busca incentivar o avanço no setor de serviços.
Jornal do Comércio — Quais acredita que são as principais oportunidades de desenvolvimento econômico de Cachoeira do Sul?
Leandro Balardin — Cachoeira do Sul tem como base a agricultura e a pecuária, a produção primária, em resumo. Mas é uma cidade com bastante comércio e espaço para a indústria. Temos um novo distrito industrial próximo ao porto que é a principal cereja do bolo daqui, com um programa estadual de incentivos que pode incentivar a chegada de novas empresas. O principal foco é potencializar, propagar, difundir e divulgar o distrito que tem áreas de mais de 100 hectares à disposição.
JC — Qual é o papel das indústrias no desenvolvimento da região?
Balardin — É bastante forte, tem impactado bastante. Existe o setor metal-mecânico, grandes agroindústrias, grandes empresas que tem se fortalecido e estão sobrevivendo mesmo com o impacto da agricultura.
JC — Há perspectiva de que o transporte hidroviário seja fortalecido pelo porto?
Balardin — O que pode fortalecer é exatamente a impulsão de novas empresas e indústrias no local. Há cerca de dois anos, Cachoeira do Sul recebeu a operação da Cargill, que é uma empresa multinacional e está enraizada, estabelecida na cidade, tendo comprado a Granol. E já tem dois novos empreendimentos se instalando próximo a ela no distrito industrial, além de termos espaço para atrair outros negócios. Nosso porto engatinha, mas a cidade tem no radar sempre o olhar para o futuro.
JC — E o distrito industrial do município, tem perspectiva de atrair novos negócios?
Balardin — A primeira missão que temos, diante de tudo que o município passou, é fortalecer a casa e não perder grandes empresas que já estão estabelecidas aqui. Não podemos olhar só para fora e esquecer o interno. Então, hoje, o foco é reorganizar o município, que também teve impactos políticos desastrosos na gestão passada. Estamos focando em organizar as contas públicas, buscando o equilíbrio. A infraestrutura da cidade se precarizou muito nos últimos governos, então tem bastante desafios.
JC — Como está a questão das obras da Ponte do Fandango?
Balardin — Tem a notícia ruim e a boa. A ruim é o impacto que já provocou pelos três anos de interdição da ponte. E a boa é que em dois meses e meio vamos ter uma ponte nova que vai durar por mais cem anos tranquilamente, dando passagem para caminhões de alta tonelagem, alto número de carga. O que passou foi muito ruim, já impactou muito a economia da cidade. A ponte ficou anos funcionando com para e siga, um período submersa na enchente (de 2024) e ano passado quase voltou a ficar submersa de novo. Com a nova ponte, esse transtorno tem data para acabar, 30 de junho. E, em julho, provavelmente estaremos com a ponte nova liberada. Essa novela está acabando.
JC — Por enquanto, o transporte tem sido de balsa para o acesso da cidade…
Balardin — Isso, e por desvios ou acessos secundários, pela ERS-287.
JC — Foi possível retomar o patamar econômico que a cidade tinha antes da enchente?
Balardin — Não. O município sofreu um impacto muito forte na economia. E isso afeta também o setor da produção primária. Existem produtores que estão escoando sua safra para municípios vizinhos e não para a cidade. Esse é o pior impacto que a ponte causou e nos causa, além de intempéries climáticas, que afetaram lavouras e o agronegócio. Tem coisas que a nova ponte pode recuperar. Mas a chuva e a inundação podem voltar a afetar a cidade, o Estado e a própria economia nacional.
JC — E qual é a perspectiva de retomada?
Balardin — Estamos trabalhando em um projeto em parceria com o Sebrae, que é focado na retomada do desenvolvimento econômico da cidade. É a primeira vez que o município faz um convênio com eles, com foco de buscar subsídio, apoio, suporte, conhecimento e o know-how que tem o Sebrae em política pública, auxiliando municípios a fazer planos de desenvolvimento econômico. Já estamos nesse plano, caminhando, desde julho do ano passado. E esperamos lançar o plano de retomada nos próximos meses.
JC — Tem projetos de tornar a cidade mais resiliente ao clima?
Balardin — Sim, o próprio acesso da ponte tem uma elevação. Não muito grande, mas já tende a ajudar nisso.
JC — A agropecuária é protagonista em Cachoeira do Sul. Tem sido possível diversificar a produção?
Balardin — O município tem despertado nessa última década especialmente neste setor. Se tornou uma referência na produção de noz-pecã e de azeite de oliva. São dois segmentos que se fortaleceram muito nos últimos dez anos, que estão saltando aos olhos e auxiliando na economia do município.
JC — São produtos de maior valor agregado…
Balardin — Sim, Cachoeira do Sul é a maior produtora de noz-pecã da América Latina e está muito forte no azeite de oliva. Tem indústrias daqui que estão, inclusive, sendo premiadas nacional e internacionalmente, como a Lagar H, a Puro e a Olivas do Sul. Já é um carro-chefe na cidade para estimular mais e fortalecer a economia.
JC — Enxerga potencial de expansão dos negócios?
Balardin — Sim, já estão se expandindo e divulgando cada vez mais a cidade internacionalmente.
JC — O arroz também é bastante forte na cidade…
Balardin — Já foi o principal produto da cidade, mas não é mais, porque a soja disparou. Mas continua tendo a sua força e resiliência. Tem bastante lavoura ainda. A cidade foi pioneira no Estado em rizicultura. Mas, hoje, a soja avançou bem mais do que o arroz.
JC — Como está a atração de investimentos no município?
Balardin — Não está do jeito que gostaríamos, mas esperamos que possamos nos fortalecer o mais breve possível. O setor da construção civil está muito forte e o de loteamentos urbanos também. A agropecuária está se expandindo, porque temos muita área de lavoura. São esses segmentos que têm crescido.
JC — E qual é a estratégia para melhorar o ambiente de negócios?
Balardin — A ideia é vender o distrito industrial do porto. E fizemos o Programa de Incentivos ao Desenvolvimento Econômico de Cachoeira do Sul (Prodesul), que busca incentivar e potencializar empresas tanto de fora quanto as que já estão da cidade. Abrimos o leque para não ser apenas indústria e poder contemplar o setor de serviços.
JC — Tem problemas de oferta de mão de obra no município?
Balardin — É controverso. Porque falta emprego. Mas, ao mesmo tempo, tem setores da indústria, especialmente metalmecânica, que carecem de mão de obra qualificada.
JC — Enxerga alguma possibilidade de expansão do turismo regional?
Balardin — Nunca conseguimos vender o rio Jacuí como uma fonte turística. Mas ele tem uma prainha a ser revitalizada e qualificada. Vamos fazer tudo que for possível para agregar mais eventos culturais e de turismo ao município. Cachoeira do Sul ainda não conseguiu se vender, mas estamos trabalhando bastante nisso.
JC — Como a cidade pretende trabalhar para se preparar para a reforma tributária?
Balardin — Já fizemos a operacionalização de sistemas e softwares de gestão ativa. É enfrentar e pronto. Esperamos não ter quedas maiores nas receitas.
JC — Pretendem investir no setor de serviços pensando na distribuição do futuro Imposto sobre Bens e Serviços (IBS)?
Balardin — Sem dúvidas, porque o consumo é a principal fonte do IBS. Queremos ter o comércio local fortalecido, agregando. Mas, ao mesmo tempo, o município é muito comprador de serviços de fora, de maquinário de fora. Acaba equilibrando.
JC — Como estão os investimentos públicos?
Balardin — Adquirimos recentemente duas novas patrolas. Não era comprada nenhuma pelo município há 17 anos. No final do ano passado, também adquirimos duas novas ambulâncias, que também não eram compradas há dez anos. Inauguramos uma escola de educação infantil, que há dez anos não era inaugurada nenhuma. Estamos retomando a economia e buscando melhorar as condições de estruturas públicas. São conquistas que, um dia por vez, vamos chegando lá.
JC — O senhor comentou sobre o desafio em reequilibrar as contas públicas. Como está a atual situação?
Balardin — O endividamento da cidade era mais de R$ 200 milhões. O déficit anual do ano passado, quando assumimos a prefeitura, era de R$ 66 milhões. Chegamos ao final de 2025, mesmo com esse déficit, com apenas R$ 296 mil de insuficiência financeira. Neste ano, também temos perspectiva de déficit, mas um pouco menos, de R$ 55 milhões. Trabalhamos com muita estratégia de reformas a serem feitas, como a previdenciária.
JC — E em relação ao marco legal do saneamento, acredita que será possível cumprir com a meta de universalizar os serviços até 2033?
Balardin — A Corsan/Aegea está com o indicador de saneamento em torno de 47%. Está longe ainda de ter 90% de universalização, conforme prevê a legislação. Isso está projetado para ocorrer em 2033 em Cachoeira do Sul. Ainda é uma cidade muito atrasada, mas está acima da média estadual.
JC — O que acredita que ainda representa um entrave para o desenvolvimento econômico regional?
Balardin — A organização da gestão pública, para poder dar melhor atenção a áreas como infraestrutura, acessos municipais, logística… Para podermos atrair investimentos e atendermos melhor quem está em casa.
Perfil
Natural de Cachoeira do Sul, na região Jacuí Centro, Leandro Tittelmaier Balardin (PSDB), de 51 anos, é prefeito sua cidade-natal, eleito em 2024. Além disso, é vice-presidente da gestão 2026/2027 da Federação dos Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs). Bacharel em direito, administrador de empresa e gestor cultural, iniciou a vida profissional aos 14 anos, como empacotador de supermercado, servente de obras e torneador de botas. Levou vida ativa em movimentos sociais e comunitários desde a juventude, atuando em grupos de escotismo, tradicionalismo, esportes e motociclismo, entre outros. Aos 19 anos, ingressou na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS), onde trabalhou por sete anos. Na vida pública, exerceu dois mandatos de vereador, assumindo a presidência do legislativo cachoeirense por um ano. Foi Diretor de Trabalho, Emprego e Renda e de Turismo e Eventos na Prefeitura de Porto Alegre. Na Capital, ainda atuou como Secretário Municipal Adjunto de Desenvolvimento Econômico, na Coordenação-Geral no Gabinete do Prefeito e na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Esporte, nesta última, ocupou interinamente a chefia da pasta por duas vezes. Foi também membro dos conselhos municipal e estadual de Turismo e conselheiro fiscal da Ceasa/RS.