*De Cachoeira do Sul
Nativa da América do Norte e trazida ao Brasil na década de 1870 por imigrantes dos Estados Unidos, a noz-pecã conquistou cada vez mais espaço abaixo da Linha do Equador. E foi no Rio Grande do Sul onde encontrou as melhores oportunidades para se desenvolver. O País é o quarto maior produtor do fruto no mundo — e 80% da produção está em solo gaúcho.
Para 2026, a expectativa é de supersafra, após frustrações climáticas dos últimos anos. A colheita iniciou em abril e seguirá até o início do inverno, sendo esperado um volume superior a 8 mil toneladas. “Ficamos de ver quanto acima, mas estou estimando nove mil toneladas, que é a maior safra de todos os tempos que o Brasil deve colher”, avalia o CEO e fundador da Divinut, Edson Ortiz.
A empresa, sediada em Cachoeira do Sul, na Região Jacuí Centro, comercializa seus produtos majoritariamente ao exterior, tendo como principais mercados a Europa, com a Espanha como porta de entrada, a América do Norte, via Canadá, o Oriente Médio, a partir da Arábia Saudita, e o norte da África, pelo Egito. Também abastece o mercado interno, com foco na venda para empresas, como Outback, Zaffari, Ritter e Cacau Show.
Divinut comercializa mudas para produtores parceiros iniciarem ou ampliarem o cultivo de noz-pecã
TÂNIA MEINERZ/JC
Mas a perspectiva é de alçar voos maiores. Em maio, Ortiz irá à China para participar de dois encontros internacionais do setor. Um, o International Nut & Dried Fruit Council, do qual será painelista, em Macau. “Vou falar em nome da América Latina e puxar bastante para o Brasil, vai ser um momento bem legal”, garante. Na sequência, o executivo rumará a uma feira em Xangai.
A expectativa é a de inserir o produto gaúcho no mercado do leste asiático. “O Brasil acabou de abrir o mercado chinês para noz-pecã descascada, em 2024. Só que a safra seguinte foi ruim. Agora, vai ter matéria-prima. E aí poderemos mandar para a China continental”, avalia Ortiz.
Os encontros internacionais, aliás, foram o motor da empresa em tempos de dificuldade, como a pandemia de Covid-19. À época, uma supersafra foi combinada com uma paralisação dos bares e restaurantes e a Divinut atendia apenas o mercado interno.
“Começamos a comprar a matéria-prima porque não queríamos desassistir os produtores. Estávamos com uma tonelada em estoque. E o dinheiro acabando. Tivemos que renegociar com os produtores. Só tinha um caminho, abrir mercados. Não nos considerávamos com maturidade para exportar e precisamos arriscar tudo”, relembra Ortiz.
Investimento multiplicou a capacidade de produção
O negócio não apenas deu certo como cresceu. Tanto é que a empresa está finalizando um investimento de R$ 10 milhões para multiplicar a sua capacidade de produção, especialmente destinada à exportação da noz-pecã descascada — mas que, conforme Ortiz, a necessidade de aportes constantes para qualificar a produção, já ultrapassou o valor inicialmente estimado.
Até então, a Divinut operava com apenas dois descascadores, que foram ampliados para doze. E a empresa chegou a uma capacidade de processar até 11 mil toneladas de nozes — duas mil a mais do que toda a safra brasileira prevista para 2026.
Capacidade atual permite o processamento de 11 mil toneladas de nozes, mais do que toda a safra brasileira
TÂNIA MEINERZ/JC
Há área prevista para a construção de mais prédios na agroindústria, em um espaço aos fundos da atual estrutura, onde, hoje, está situado o viveiro. Mas os planos são para um futuro ainda incerto. “A gente vai explorar ao máximo a capacidade instalada atual para poder depois pensar nessa expansão. Então, pelos próximos dois ou três anos, certeza que não vamos expandir o prédio”, conta o CEO.
Parceria com produtores é estratégica
A empresa não planta as nogueiras, árvores que geram a noz-pecã. Apenas comercializa mudas criadas em viveiros e realiza testes genéticos de aprimoramento. Mas oferece auxílio aos produtores para que possam aprimorar suas técnicas no cultivo da planta. E isso faz com que a produção esteja espalhada em diferentes lugares.
“Temos pomares comerciais com nossas plantas em 76% dos municípios gaúchos, 47% dos catarinenses, 20% dos paranaenses e 7% dos paulistas. Hoje, temos cerca de cinco mil produtores. É muito pulverizado”, explica Ortiz.
Produtores parceiros comercializam noz-pecã para o processamento da Divinut
TÂNIA MEINERZ/JC
Há, inclusive, diferentes tamanhos de propriedades que comercializam com a Divinut. Conforme o CEO, alguns dos produtores possuem apenas uma nogueira e, mesmo assim, conseguem ampliar a renda a partir da sua exploração comercial. Afinal, a produção pode ser aliada a outras culturas.
“Quem cria ovelha, por exemplo, pode plantar nogueira. Continua com a renda da ovelha, faz um conforto térmico animal, que é importante, e ainda tem uma segunda renda. Isso, sem ter malefício para a primeira renda. Pelo contrário, potencializando ela”, defende o executivo.
Trufas chegam para agregar valor
As nogueiras podem ser exploradas para mais de um produto. Afinal, é possível inocular trufas, uma espécie de fungo, nas mudas. O fungo é comestível e tem alto valor econômico, e cresce em simbiose com a planta. No RS, se desenvolve a do tipo Sapucay, que varia, normalmente, de R$ 8 a R$ 14 por grama e pesa, em média, entre 10 e 20 gramas.
A espécie foi descoberta há alguns anos por uma equipe da professora Zaida Antoniolli, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Uma parceria com o grupo foi firmada pela Divinut para o desenvolvimento das mudas trufadas. Também estão sendo investigadas novas trufas.
“Não é só pelo aspecto comercial, mas porque o fungo é benéfico para a produção da noz-pecã. Ele potencializa a absorção de nutrientes, a proteção contra doenças e aumenta a produtividade. Todo movimento para melhorar a nogueira, melhora a trufa e vice-versa. Uma coisa não compete com a outra. Isso sim é um projeto novo”, explica Ortiz.