O 2023 foi um ano atípico para os gaúchos, já que o Rio Grande do Sul enfrentou eventos climáticos severos, com chuvas acima do padrão, cheias históricas em grande parte de seus corpos hídricos e inundações significativas em dezenas de munícipios. Enquanto especialistas veem algumas dessas ocorrências como evitáveis, o governo estadual tem apresentado alternativas para o futuro, visando combater esta crise climática.
Nestes últimos dois meses, foram apresentadas medidas pertencentes ao Plano de Governança Climática do Rio Grande do Sul, entre as quais destaca-se o programa Proclima 2050, que destina R$ 52 milhões em investimentos sustentáveis para o período de 2023-2026, além da neutralização das emissões de carbono até o ano que nomeia o projeto. O objetivo principal é reduzir o impacto das mudanças climáticas na população gaúcha, focando na mitigação das emissões de gases do efeito estufa (GEE) e na adaptação para neutralidade das emissões líquidas desses gases.
PHD em Desastres Naturais, o engenheiro florestal Marcos Leandro Kazmierczak enxerga uma demora na criação dessas medidas e destaca que várias das tragédias que marcaram o 2023 dos gaúchos eram “evitáveis”, devendo acender ainda mais o alerta para o futuro.
“Se aconteceu uma vez, ocorrerá novamente”. É partindo desse princípio que o especialista adverte sobre o aumento progressivo e prejudicial na temperatura do Rio Grande do Sul, prevendo que essa situação esteja muito agravada até 2040. Os modelos meteorológicos responsáveis pela simulação de cenários futuros projetam três possiblidades para o Estado dentro dos próximos 16 anos: RCP 2.6, RCP 4.5 e RCP 8.5.
Para Kazmierczak, a última, apesar de ser a mais pessimista, também é a mais provável, estando alinhado com a trajetória climática atual do Estado. Neste cenário, que implica em elevações consideráveis nas emissões de GEE, teríamos um aumento significativo no volume de chuvas e dias com precipitação mais intensa, além de crescimento da temperatura máxima e do percentual de dias quentes e secos no Rio Grande do Sul.
Os outros dois cenários, mais otimistas, projetam estabilização da temperatura média do Estado, algo que só poderá ocorrer através de uma maior conscientização populacional, mas, principalmente, da criação de cada vez mais políticas públicas.
Marcos destaca também que grandes impactos econômicos tendem a aparecer em caso de elevação da crise, especialmente no agronegócio, onde as mudanças na temperatura tendem a afetar culturas cruciais. O Proclima 2050 até visa enfrentar esse tipo de desafio, mas o especialista enfatiza que medidas preventivas dentro de cada munícipio também são cruciais.
"Do ponto de vista da prevenção, muitas das ocorrências deste ano poderiam ter sido evitadas"
O ano que passou testemunhou diversas tragédias climáticas, incluindo um ciclone extratropical devastador em setembro, considerado pelo governador Eduardo Leite a maior tragédia ambiental já registrada no Estado. Kazmierczak enfatiza que esses eventos, além de evitáveis do ponto de vista das mudanças climáticas, poderiam ser prevenidos por ações governamentais.
O Projeto Elos 2022 aponta que em 74% dos municípios da Região Sul, a equipe de Defesa Civil é composta por apenas uma ou duas pessoas. Além disso, praticamente todas as cidades enfrentam problemas estruturais nesse serviço, com grande déficit de equipamentos. A coincidência, é que muitas dessas cidades deficitárias estão localizadas justamente próximas aos grandes rios.
Além disso, muitas das localidades inundadas pertencem a áreas de preservação permanente, definidas pelo Código Florestal Brasileiro. Ou seja, cidades construídas em pontos de alto risco, que não deveriam ser ocupadas justamente pelo risco de cheia dos rios.
“Em relação a esses eventos extremos, eu sempre faço a comparação com um acidente de avião, nunca é uma única causa, mas sim um conjunto de coisas. Então, um passo inicial seria começar a resolver essa questão de governança e melhor capacitação da Defesa Civil, até porque sem ter recursos básicos, fica muito difícil de auxiliar a população e ficaremos na eterna busca pela reconstrução”, afirma o PHD em Desastres Naturais.
Com o El Niño persistindo até julho de 2024 e as mudanças climáticas causando aumento na temperatura média no Estado, prevê-se mais chuvas nos próximos meses. Nesse sentido, Kazmierczak exemplifica que “Porto Alegre teve a grande cheia de 1941 e só teve outro fenômeno parecido 82 anos depois, porém, agora, não demorará tanto tempo para o próximo episódio dessa magnitude”.
Concomitante às informações supracitadas, segundo um gráfico da Climate Central, caso haja manutenção nas mudanças de temperatura no Rio Grande Sul dentro dos próximos 16 anos, em 2040, todo o Bairro Arquipélago, na Capital, estará inabitável, ocupado pelas águas do Guaíba. Pensando em todas essas situações, o engenheiro florestal propõe ações imediatas, incluindo a realocação de moradores de áreas de risco e a instalação de estações meteorológicas para o monitoramento preciso dos rios.
Kazmierczak destaca ainda a importância de vencer a inércia para evitar futuros gastos em reconstrução. "Diversos dados globais já indicam que cada investimento na prevenção acaba gerando muita economia no futuro. Por isso, é importante agirmos já. Gastar hoje pra não precisar pagar esse preço maior ainda no futuro", finaliza.