Sob efeito do verão 2024/25, considerado a melhor alta temporada em cinco anos, é com confiança em uma performance positiva que o Sindicato de Hotéis, Restaurantes do Litoral Norte do Estado encara o próximo veraneio. "Depois de cinco anos, tivemos um grande boom neste verão", afirma Ivone Ferraz, presidente do sindicato. O desempenho se deve, em particular, ao fluxo de argentinos e uruguaios, que melhorou na comparação com anos anteriores. "A presença de turistas argentinos e uruguaios causou esse plus, um incremento de 60% nas nossas hospedagens no verão de 2025", afirma a dirigente.
Conforme ela, a pandemia por Covid-19 deixou grande parte dos hotéis e restaurantes endividada, já que nenhum negócio tinha uma reserva compatível com aquela situação inédita. "Ainda estamos pagando conta da pandemia, mas esperamos um bom verão 2026", projeta, na expectativa de que o movimento ao menos repita o do veraneio passado.
O Sindicato de Hotéis e Restaurantes do Litoral Norte do Estado representa em torno de 4 mil a 5 mil estabelecimentos, entre hotéis e restaurantes com efetivo apelo turístico, compreendendo a faixa beira-mar de Osório a Torres. Destes, a entidade estima que 20% fecham durante o inverno e retomam atividades somente quando se aproxima a alta temporada (dezembro a março).
A Junta Comercial, Industrial e de Serviços do Estado (JucisRS) revela um universo ainda maior. Considerando os códigos CNAE (classificação nacional de atividades econômicas) específicos para hotéis, bares, restaurantes e similares - e somando apenas Capão da Canoa, Torres, Tramandaí, Imbé e Xangri-lá - o número de estabelecimentos ativos (até 22 de julho), sem distinção de porte, chega a 47,3 mil. Lancherias e bares despontam no ranking dessas atividades.
Coordenador da Comissão de Graduação do Bacharelado em Desenvolvimento Regional, do Campus Litoral Norte da Ufrgs, Ricardo Dagnino lembra que singularidades da região - o turismo atípico, como o de segundas residências, o cíclico e o pendular - representam desafios para o segmento de bares, restaurantes e hotéis. Turistas atípicos como esses raramente utilizam hotéis, pois têm suas segundas residências para ficar "hospedados". Por outro lado, nada impede que frequentem estabelecimentos de alimentação.
Dagnino acrescenta ao cenário a vigência de um processo avançado de transição demográfica (redução da fecundidade e aumento da expectativa de vida). "Nesse contexto, o principal componente do crescimento demográfico não são mais os nascimentos e sim a migração. Para o Litoral Norte, isso é um fato concreto", avalia. Ivone corrobora. Segundo ela, estima-se que houve um acréscimo em torno de 30% no número de moradores. "E claro que isso dá um impacto grande no mercado e nos estabelecimentos de alimentação", observa.
Na avaliação da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), o setor de hospedagem e alimentação estão entre os mais sensíveis às variações de comportamento de consumo e mobilidade da população. Assim, iniciativas que incentivem a permanências das pessoas nos espaços urbanos por mais tempo, com segurança e infraestrutura adequada, são fundamentais para dinamizar a atividade econômica e ampliar as oportunidades de negócios.
São exemplos disso a primeira rua coberta de Capão da Canoa e a nova orla gastronômica de Torres, ambas novidades da temporada 2024/25, que são detalhadas nas próximas páginas.
Apesar do cenário mais dinâmico, a presidente do sindicato reconhece que o Litoral Norte ainda é muito refém do sol e do mar como atrativos. É essa dependência que faz os donos de hotéis, por exemplo, lidarem com situações dicotômicas: falta leito no verão e sobra no inverno. Feriadões com folga na sexta-feira ou na segunda-feira - como o da Páscoa, o mais atrativo deles - tendem a significar de 90% a 100% da lotação. Na baixa temporada, a ocupação chega a cair para 15%.
Para quem planeja ocupar leitos no Litoral Norte no próximo verão, Ivone aconselha antecedência. "Estamos com o mês de janeiro praticamente lotado", afirma. "É importante que, já no mês de agosto, setembro, as pessoas façam as suas reservas, principalmente para feriados, como Réveillon, para poder garantir um bom apartamento e bons preços", completa.
O sindicato não tem ferramentas que possam medir especificamente o faturamento do setor que representa. Ilustrativamente, informa que, no caso dos hotéis, são cerca de 22 mil leitos, com diária média entre R$ 150 e R$ 300.
Do ponto de vista de investimentos, não há nada muito significativo há pelo menos cinco anos. A reforma na fachada e nas aberturas do hotel Ficare Torres, um investimento de R$ 400 mil, em 2019, foi um dos últimos movimentos. Uma das mais recentes grandes operações a inaugurar na região foi o Hotel Sesc, em Torres, que completou 20 anos em dezembro passado.
Paralelamente, é possível identificar um acentuado aumento na oferta do modelo Airbnb, como alternativa aos hotéis. Ainda que cada um mantenha vantagens competitivas específicas, há concorrência real: Airbnb compete mais diretamente com hotéis econômicos e de categoria média. Dados da AirDNA, uma provedora de análise de aluguel de curto prazo que monitora o desempenho de mais de 12 milhões de anúncios em mais de 150 mil mercados no mundo, indicam que houve uma alta robusta na demanda desde 2019.
A pedido da reportagem, a plataforma fez um levantamento restrito a Capão da Canoa, Torres, Tramandaí, Imbé e Xangri-lá. "Podemos observar um crescimento significativo na demanda nos últimos anos, com cada cidade dobrando ou até triplicando o número de diárias reservadas em comparação aos níveis pré-pandemia", afirma Sabrine Louhichi, relações públicas. A AirDNA afirma ter uma precisão entre 95 e 99% nos dados do Airbnb e Vrbo. "No entanto, esses mercados permanecem altamente sazonais, com a demanda fora de temporada sendo muito mais variável e representando apenas uma pequena fração da atividade na alta temporada", acrescenta ela.