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Publicada em 15 de Maio de 2026 às 20:42

Dono da rede de postos SIM vê biocombustíveis como oportunidade para o RS

Presidente das empresas Argenta, empresário Neco Argenta foi entrevistado no podcast Mapa Econômico do RS

Presidente das empresas Argenta, empresário Neco Argenta foi entrevistado no podcast Mapa Econômico do RS

Sarah Oliveira/Especial/JC
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Guilherme Kolling
Guilherme Kolling Editor-chefe
Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul oscila a cada ano, dependendo do clima, as empresas Argenta têm crescido dois dígitos a cada exercício. Sempre atento a novas oportunidades de negócios, o empresário Neco Argenta avalia, nesta entrevista, concedida ao podcast Mapa Econômico do RS do Jornal do Comércio, possibilidades que podem alavancar a economia gaúcha.
Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul oscila a cada ano, dependendo do clima, as empresas Argenta têm crescido dois dígitos a cada exercício. Sempre atento a novas oportunidades de negócios, o empresário Neco Argenta avalia, nesta entrevista, concedida ao podcast Mapa Econômico do RS do Jornal do Comércio, possibilidades que podem alavancar a economia gaúcha.
Na Serra, o empresário vê a expansão do enoturismo, com atração de visitantes estrangeiros, como uma boa chance de alavancar a economia da região. No seu setor, Argenta aponta a produção de biocombustíveis com o beneficiamento de grãos produzidos no Estado como uma forma inteligente de o Rio Grande do Sul avançar. Ainda no agro, defende investimentos em irrigação, para dar estabilidade à produção gaúcha.
Jornal do Comércio – Qual é a grande oportunidade para o desenvolvimento econômico da Serra Gaúcha?
Neco Argenta – A Serra Gaúcha passa por uma transformação, assim como nosso Estado deverá passar. Estamos em uma localização geográfica que não é das melhores, na ponta do País. Por que São Paulo é São Paulo? Por várias questões, mas também por conjuntura da localização. Aquele polo de São Paulo é importante. E hoje a maioria das empresas gaúchas importa matérias-primas de São Paulo. E boa parte do produto pronto vai para São Paulo.
JC – Tem um custo logístico nessa ida e volta...
Argenta – Teve época em que o transporte não representava muito no custo do produto. Mas hoje o custo logístico de trazer e levar o produto impacta muito no valor agregado. Claro, depende do produto – se for joias, não vai ter muita diferença. Agora, quando faço em escala, isso diferencia muito. Então, precisamos passar por uma transformação... Falando da Serra, temos um novo negócio que se chama enoturismo. O agroturismo, para fazer com que nossos agricultores permaneçam na agricultura, produzindo salame, queijo, vinho, produtos que eles possam comercializar. Isso está muito latente no exemplo de Bento Gonçalves, em todo o interior do Vale dos Vinhedos. O Vale dos Vinhedos há 30 anos não existia. Quem vinha para o Rio Grande do Sul ia para Gramado e Canela. Hoje está vindo a Bento, está vindo para Flores da Cunha. Então, tem um bom espaço para atuar no turismo.
JC – Há ainda espaço para expansão do enoturismo na Serra?
Argenta – Muito, muito... Estão surgindo projetos novos todo dia. Nós temos um projeto da vinícola Luiz Argenta também. Então, vemos a transformação, houve uma mudança na visão do ser humano após a pandemia: as pessoas estão viajando mais, as pessoas estão "aproveitando mais a vida". Aquele foi um choque e mudaram-se alguns hábitos. Então, as pessoas estão ávidas. No mercado não tínhamos muita oferta de turismo no Brasil, tinha as praias, mas surge esse novo business que, para mim, tem muito a ser trabalhado e muito a evoluir na Região da Serra.
JC – Tem muito turismo de gaúchos e visitantes de outros estados. Mas há espaço para o Vale dos Vinhedos e a Serra Gaúcha atraírem turistas internacionais ao RS?
Argenta – Com certeza. Quem já fez alguma viagem internacional vai entender: não tem lugar nenhum (turístico no mundo) que você não encontre um japonês. Concorda?
JC – Verdade. E agora os chineses...
Argenta – Chineses também... Eles têm essa cultura de viajar. Lembro a primeira viagem que fiz aos Estados Unidos, eu observei, quantos japoneses! Era turismo mesmo. E pergunto: quantos japoneses enxergamos aqui no Rio Grande do Sul? Praticamente nenhum. Então, o que o que vem antes, o ovo ou a galinha? A hora que promovermos... Temos toda a questão de infraestrutura, aeroportos, estradas, as empresas estarem organizadas para receber esse turismo. Tem um nicho de mercado para ser atuado. Temos um espaço importante aí.
JC – Vender o Rio Grande do Sul...
Argenta – Paralelo a isso, temos oportunidades aqui intelectualmente, um pouco diferente de uma boa parte do Brasil.
JC – Polo de universidades, parques tecnológicos, formação...
Argenta – Isso. Tudo o que temos de educação, podemos ter hub como em Novo Hamburgo tem a parte de back office do Santander. Está surgindo esse projeto aqui em Eldorado do Sul (de data center). Tem um espaço muito bom também pela mão de obra que já temos e podemos aperfeiçoar, podemos criar um hub de Inteligência Artificial.
JC – Avançar na área da inovação...
Argenta – É o que estou falando, na inovação, temos um espaço justamente pela população que temos aqui.
JC – Voltando à questão da infraestrutura. A solução para a Serra é o aeroporto de Vila Oliva em Caxias do Sul?
Argenta – Sim, porque o (atual) aeroporto de Caxias do Sul tem outra proposta, voos regionais, com aeronaves menores. Se fosse feito hoje, olhando a questão meteorológica, o aeroporto de Caxias não estaria onde está, a questão de neblina... E Vila Oliva é muito melhor. Então, os aeroportos, com a privatização... Toda vez que venho a Porto Alegre, lembro do nosso antigo aeroporto há 20 anos. E olha a transformação.
JC – Outro terminal, organização...
Argenta – Não tenho nada contra o governo estar operando ou não negócios, mas esse é um negócio que na iniciativa privada acontece muito mais fácil. Olha a infraestrutura no nosso aeroporto. E essas privatizações, algumas aqui no Rio Grande do Sul, andei por muitas cidades também. A mudança que aconteceu nos últimos dois anos nas infraestruturas (nos aeroportos) em Bagé, Uruguaiana, Passo Fundo, Ijuí, Pelotas, muita mudança na infraestrutura. Então, isso já é um bom caminho. E entendendo o momento como o Estado estava e está, não tem condições de conseguir fazer infraestrutura, estradas. Esse modelo de concessão de rodovias deu certo em São Paulo há 40 anos, deu certo aqui no Rio Grande do Sul com a nossa Freeway. Então, essa questão das privatizações, melhoria nas estradas também faz muito bem para o Estado. E é como falávamos: infraestrutura, aeroportos, rodovias, em paralelo vem aí as empresas entendendo que tem oportunidade, isso sim é uma forma inteligente de distribuir renda.
JC – Em relação à indústria, o caminho da Serra para se desenvolver ainda mais nessa área  é com projetos mais nichados? Essas indústrias têm espaço para crescer mais do que grandes na sua avaliação?
Argenta – Com certeza. A gente nasceu olhando para a Marcopolo e Randon. Elas continuam gigantes, mas vejo que essas oportunidades nichadas em empresas menores, olhando produtos com valor agregado, entendo também tem espaço. Vejo que também tem espaço nesse nicho. "Pô, mas então as grandes indústrias deixarão de estar aqui?" Não necessariamente elas precisam deixar de estar aqui, mas criando mais oportunidades para outras crescerem. 
JC – Outra oportunidade de desenvolvimento do Rio Grande do Sul, essa mais no agro e na Região Norte do Estado, é o beneficiamento de grãos para produção de etanol e biodiesel. Como avalia esse movimento?
Argenta – Essa é mais uma oportunidade. Houve um tempo em que os governos estaduais não olharam muito para o agronegócio. Se tivéssemos feito algo estruturado há 20 anos, talvez boa parte do que estamos sofrendo hoje com a falta de água, por falta de irrigação, estaríamos (vivendo) de forma diferente. Se tivéssemos pensado em infraestrutura, barragens, irrigação, porque essa é uma tendência... Quem trabalha com produção no agro sabe que o tempo é o senhor da razão. Não estamos colhendo o que deixamos de plantar. Essa é uma transformação – ao invés de focar em escala, produzir mais –, ter uma garantia de produção. Não estou criticando governo nenhum, todos passaram aqui, esquerda, direita, centro. Estou falando do histórico. E ainda tem tempo para isso (fazer irrigação), porque essa questão do clima cada vez notamos que vai preponderar sobre a produção.
JC – Foram quatro estiagens em seis anos no Rio Grande do Sul.
Argenta – Pronto, estamos falando sobre isso. E aí sim vem o advento de produzir soja e um biocombustível. Temos projetos importantes de indústrias de biocombustíveis no Estado. Somos o maior produtor de biodiesel do Brasil, com várias plantas. Isso sim é inteligente, transformar soja em um produto para consumirmos aqui e para a exportação. Nessa mesma linha, estão entrando projetos agora de etanol, seja etanol de milho no Centro do País, seja projetos de trigo aqui no Estado. Essa é uma transformação importante, é um bom momento também que o mundo está vivendo. A matriz energética ainda é bastante alimentada por combustíveis minerais, mas não vejo problema de ser vegetal. O primeiro óleo diesel criado por um alemão Rudolf Diesel – por isso que o nome (do combustível) é diesel – era de óleo vegetal, de óleo amendoim. O óleo mineral surgiu nos anos 1920. Sempre fui incentivador e sempre acreditei no etanol. A matriz energética, em especial no Brasil, passa pelo etanol, por tudo que produzimos de cana. Agora com o etanol de milho, somos autossuficientes, estamos exportando muito. Então, a matriz energética passa pelo etanol e isso tudo passa por plantio. Essa oportunidade agrega valor ao campo do Rio Grande do Sul.
JC – De commodity a produto industrializado...
Argenta – Perfeito.
JC – Como vê essa transformação de mercado? Carro elétrico, carro híbrido, combustíveis renováveis...
Argenta – São dois momentos. Não sou um técnico, mas, para mim, o petróleo é infinito. Agora se vai ser usado como matriz energética para os veículos? Acho que vai ser uma parte do mercado, não total como foi até tempos atrás. Com essa mudança da matriz energética, entram veículos a etanol, biocombustível, entram veículos híbridos, que, para mim, é o que mais se adequa. Um veículo vai andar 23, 24, 25 quilômetros por litro, mais amigável com o meio ambiente. Agora, isso é uma transformação. Hoje o mundo todo é dependente do petróleo. A transformação que pode acontecer sem a indústria do petróleo, sem a arrecadação para municípios, estados e países onde o petróleo gira.... Acho que tem um período aí, primeiro de transformação e segundo de adequação na matriz energética, pelos orçamentos de municípios, estados e países.
JC – E o carro elétrico...
Argenta – O carro elétrico é a quarta vez que ele vem, não é um negócio que foi inventado nos Estados Unidos agora. Vimos aqui há 40 anos o Gurgel, que era um carro elétrico. E vejo que tem uma oportunidade, sim. Tanto é que os chineses estão chegando cada vez mais com veículos com custo menor, isso também tem impacto na questão financeira... Mas vão conviver com várias matrizes energéticas. E essa transformação, se analisarmos o carro elétrico puro, estamos diminuindo a produção mundial. Ficaríamos aqui o dia inteiro falando sobre a mudança da matriz energética, mas é uma transição e com certeza vai acontecer. E, retornando na pergunta anterior, (biocombustíveis) vem ao encontro para agregar valor ao nosso Estado aos nossos produtores.
JC – E percebe uma transformação da economia do Rio Grande do Sul ligada aos eixos de inovação e sustentabilidade? Isso está no dia a dia das empresas?
Argenta – Acredito que tem mais espaço. Essa questão da mudança da matriz energética é isso: quem falava em indústria de biodiesel há 10 anos? Estamos produzindo aqui. Quem falava de usina de etanol há 10 anos? Estão surgindo projetos no Estado. Já tem uma funcionando, lá do Cássio Bonotto (CB Bioenergia, usina de etanol de trigo, em Santiago). E está surgindo mais uma da Be8 em Passo Fundo.
JC – Etanol de trigo...
Argenta – A trigo, mas é eclética, também pode produzir através de outros produtos. Essa é uma transformação que pode acontecer com mais intensidade no Estado.

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