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Publicada em 09 de Abril de 2026 às 19:01

Rio Grande do Sul voltou a perder participação no PIB do Brasil em 2025

Participação do Rio Grande do Sul no PIB do Brasil nos últimos anos

Participação do Rio Grande do Sul no PIB do Brasil nos últimos anos

JC
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Ana Stobbe
Ana Stobbe Repórter
O Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul tem um componente de grande peso: a agropecuária. Dependente do clima, ela faz com que a economia gaúcha oscile de acordo com as safras boas e as frustradas. Isso porque quando a atividade primária vai mal, toda a cadeia do agronegócio — incluindo a atividade industrial — é impactada. E foi justamente por problemas climáticos que o Estado voltou a perder participação no PIB do Brasil.
O Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul tem um componente de grande peso: a agropecuária. Dependente do clima, ela faz com que a economia gaúcha oscile de acordo com as safras boas e as frustradas. Isso porque quando a atividade primária vai mal, toda a cadeia do agronegócio — incluindo a atividade industrial — é impactada. E foi justamente por problemas climáticos que o Estado voltou a perder participação no PIB do Brasil.
Nos anos 2020, o clima foi um ator importante no cenário econômico do RS. Afinal, sucessivas safras frustradas por estiagens derrubaram a relevância do Estado perante o País. Nos últimos seis anos, apenas 2021 pode ser visto como verdadeiramente positivo — justamente quando o PIB estadual cresceu 9,3% e a participação no PIB nacional subiu de 6,2% para 6,5%, o mesmo patamar de 2019. Entretanto, em seus piores momentos, nos anos de 2022 e 2023, o índice chegou aos 5,9%.
A economia ensaiou uma retomada em 2024, o ano da trágica enchente que abalou o Rio Grande do Sul. Sem uma forte estiagem como a dos anos anteriores, a perspectiva era boa para a safra. Entretanto, as fortes chuvas trouxeram perdas de camadas superficiais do solo e das colheitas que ainda não haviam sido realizadas, incluindo parte das lavouras de soja e de milho. Mesmo assim, foi possível recuperar, um pouco, da participação perdida, subindo a contribuição estadual no PIB brasileiro para 6,2%. 
"Como a maior parte da soja e do milho já tinha sido colhida, a enchente não gerou uma perda muito grande na agropecuária. A indústria foi afetada em um primeiro momento, com a perda dos bens de capital, mas se recuperou. A produção caiu em maio, voltou em junho e depois se estabilizou. E o comércio disparou, porque as pessoas precisavam repor seus eletrodomésticos, automóveis, etc. Material de construção, por exemplo, foi um setor que subiu bastante", explica o economista do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (DEE-RS), Martinho Lazzari. 
A isso, conforme o pesquisador, se somaram as políticas de transferência de renda para pessoas atingidas pelas cheias e recursos injetados em obras de recuperação da infraestrutura — pública e privada. "Isso tudo fez girar bastante a economia. E o PIB do Estado cresceu 4,8% em 2024, um aumento maior do que o do PIB do Brasil", acrescenta.
Mas 2025 não foi generoso e a participação do Rio Grande do Sul no PIB nacional caiu para 5,9% novamente. "O ano começou bem, as safras de arroz, milho, fumo e uva, foram muito bem, cresceram bem. Só que veio uma estiagem um pouco tardia, que atingiu a soja, que teve uma quebra de 25%. Como é o principal produto, isso acabou fazendo com que a agropecuária caísse no ano 6,8%, dada a representatividade que esse produto tem no setor. Ao final do ano, crescemos 0,9%, abaixo do Brasil, que cresceu 2,3%", explica.
Variação anual do PIB gaúcho (%) 2026 | JC
Variação anual do PIB gaúcho (%) 2026 JC
A indústria, por outro lado, teve um bom desempenho, mas não foi capaz, sozinha, de segurar a economia. Já o comércio desacelerou, em uma tendência natural após a disparada causada pela necessidade de reposição dos bens atingidos pelas enchentes. Ambos os setores tiveram indicadores semelhantes aos nacionais. 

Impacto do tarifaço foi menor do que o esperado

Um desafio que diferentes setores enfrentaram em 2025, especialmente indústrias exportadoras, foi a imposição de tarifas a produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. As medidas iniciaram em agosto, mas não foram aplicadas de maneira uniforme. Entre os produtos que inicialmente seriam impactados, alguns receberam isenções. Posteriormente, houve diversas reviravoltas, com parte das taxações sendo considerada ilegal pela Suprema Corte dos EUA e as tarifas já existentes sendo alteradas pelo presidente norte-americano. 
Fato é que, no PIB, as consequências foram menores do que o esperado. "O impacto não foi muito claro. As tarifas surgiram em agosto, mas depois tiveram várias exceções e posteriormente baixaram. Então, o que se imaginava em um primeiro momento, não se consolidou. Alguns setores conseguiram driblar as tarifas ou triangular o comércio", avalia Lazzari.
As estratégias variaram de acordo com o segmento econômico: "No caso do fumo, enviaram para a Suíça o que iria aos Estados Unidos. A indústria de armas, que exporta bastante aos EUA, aumentou a produção em relação a 2024 e meio que antecipou as vendas, então acabou não sofrendo tanto. O setor de calçados, que caiu em 2025, deve ter relação com as tarifas. Outros setores é difícil avaliar", acrescenta o pesquisador.

Expectativas para 2026 são otimistas

Para 2026, as perspectivas são melhores, levando em consideração o primeiro trimestre do ano. E, caso a economia se comporte em conformidade com o esperado, pode ser que o Rio Grande do Sul possa retomar, pelo menos em parte, sua participação no PIB nacional. 
"Começamos o ano com uma perspectiva super boa, de uma safra de soja de cerca de 21,4 milhões de toneladas, ante as 13,6 milhões (de toneladas) de 2025. É uma recuperação bem forte, caso essa estimativa se confirme, que faria com que a agropecuária crescesse bastante e impulsionasse a economia do Estado, talvez com um crescimento acima da média nacional. Ocorrendo isso, recuperaríamos um pouco das perdas de participação (no PIB nacional) de 2025", conjectura Lazzari. 
O ano, aliás, não foi imune à estiagem. Entretanto, ela chegou tardiamente e com menor intensidade que em temporadas anteriores, afetando menos as lavouras de soja — o principal produto do RS. "Mesmo que tenha uma frustração de safra e que não seja exatamente o que é esperado, deverá ser bem maior do que foi no ano passado. Isso faz com que a agropecuária tenha um crescimento importante neste ano", explica o especialista. 
Outros setores têm uma previsibilidade mais difícil. "O comércio, por exemplo, vinha desacelerando, mas ainda não se sabe se vai se estabilizar ao longo do ano. Tem todo um cenário macroeconômico nacional, de alta de juros e endividamento que pode afetar o comércio ao longo do ano", acrescenta Lazzari. 

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