Chegou a vez dos espumantes da Serra Gaúcha. Produto já apontado como diferenciado por quem o conhece, com a entrada em vigor do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul prevista para 1º de maio deste ano, ele deve ganhar ainda mais evidência. Mesmo ainda com muitas dúvidas sobre o funcionamento do acordo, o que se sabe é que o horizonte de um mercado mais aberto com os europeus – tanto dentro do Brasil quanto para exportações – é favorável aos produtos que realcem as características únicas da produção econômica na macrorregião Serra do Mapa Econômico do Rio Grande do Sul. Os espumantes, é claro, estão entre os mais destacados.
"É verdade que entrarão produtos europeus com preços mais competitivos nas prateleiras, mas também é verdade que esse movimento vai ampliar o mercado consumidor brasileiro para produtos de maior qualidade, melhorar o paladar deste consumidor, e o espumante, diferente do vinho, fideliza muito mais o cliente. Quando conhece e se identifica com uma marca, o consumidor de espumante é muito fiel. E aí está uma grande oportunidade para a nossa produção", explica o responsável pela vinívola Cave Geisse, Daniel Geisse. A perspectiva do setor é de que, nos próximos anos, o consumo de espumantes cresça, em média, 10% no Brasil.
A cada ano, a vinícola leva ao mercado, em média, 300 mil garrafas de espumantes, com uma perspectiva de chegar a 500 mil garrafas anuais. Produção feita nos chamados Altos de Pinto Bandeira. Eis aí um diferencial de terroir e, por consequência, de valor agregado ao mercado. Geisse, que representa a segunda geração da família à frente da vinícola, lidera hoje também a Associação dos Produtores de Vinhos de Pinto Bandeira (Asprovinho), responsável pela Denominação de Origem (DO) dos espumantes dos Altos de Pinto Bandeira. É a primeira DO de espumantes no chamado "novo mundo", quando se trata da produção vinícola.
Há também uma Identificação de Procedência (IP) reconhecida para a produção de uvas em Pinto Bandeira. No caso dos Altos, há mais especificidades. Além da produção exclusiva de uvas Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico, elas devem ser cultivadas em espaldeira, dentro de uma área de 65 quilômetros quadrados, com altitude entre 520m e 770m, que abrange ainda uma parte das áreas de Farroupilha e Bento Gonçalves, e a produção precisa ser feita pelo método tradicional, com as uvas prensadas inteiras e com a segunda fermentação na garrafa.
"O resultado é um espumante já reconhecido pelo alto padrão por especialistas do mundo inteiro", garante Geisse. Ao todo, cinco vinícolas produzem hoje os espumantes certificados dos Altos de Pinto Bandeira. Os espumantes de Pinto Bandeira chegaram ao mercado com o selo da DO em 2023. De acordo com o Sistema de Declarações Vinícolas (Sisdevin) do Governo do Estado, desde 2006 o município de Pinto Bandeira produziu 320 mil litros de espumantes engarrafados na localidade.
A Denominação de Origem ou Identificação de Procedência serve como selo protetor no cenário que se desenha com o acordo Mercosul e União Europeia. Estes produtos terão, pelas regras do acordo, respeitadas as suas exclusividades. E neste aspecto, as regiões abordadas na macrorregião Serra do Mapa Econômico correm na frente em relação ao restante do Rio Grande do Sul e até em relação a outras regiões do Brasil. Ao todo são 14 registros reconhecidos pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) no Estado, sendo nove nesta macrorregião – e seis se referem à produção vitivinícola: Pinto Bandeira, Altos de Pinto Bandeira, Vale dos Vinhedos, Monte Belo do Sul, Farroupilha e Altos Montes.
A Cave Geisse foi a pioneira da certificação dos Altos de Pinto Bandeira e é a de maior produção entre as associadas. Seus espumantes, além do mercado nacional, chegam também à Inglaterra, Estados Unidos e Holanda. É exportada 7% da produção. E, de acordo com Daniel Geisse, mesmo com o otimismo na relação com a União Europeia, este é o limite da produção. "Não estamos projetando aumentar o volume da nossa produção, mas valorizarmos mais o nosso produto e o nosso terroir com essa abertura", aponta.
Exportações devem expandir nos próximos anos
A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) estima que, ao longo dos próximos 15 anos, as exportações industriais gaúchas para a União Europeia possam se expandir em aproximadamente US$ 801,3 milhões.
A entidade aponta os diferenciais para a indústria gaúcha com o acordo:
- Agroindústria Competitiva: O acordo facilita a exportação de carnes (bovina, aves), soja, tabaco, calçados e móveis, setores de forte atuação gaúcha, reduzindo custos e barreiras técnicas.
- Setor Vitivinícola: A taxa de importação para vinhos europeus no Brasil (hoje em 27%) deve cair, ao mesmo tempo que o setor gaúcho de vinhos e espumantes ganha competitividade internacional com o zeramento de tarifas em até 12 anos.
- Exportações do Vale do Rio Pardo: O acordo favorece a ampliação das exportações e o acesso à tecnologia na região.
- Modernização Industrial: A redução de tarifas para maquinários e componentes europeus facilitará a modernização tecnológica das indústrias gaúchas, aumentando a produtividade.
- Redução de Burocracia: A simplificação e harmonização de procedimentos alfandegários pode reduzir custos no comércio internacional.