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Publicada em 15 de Maio de 2026 às 18:03

Neco Argenta: de uma sala alugada em Flores da Cunha a um conglomerado bilionário

Presidente das empresas Argenta, empresário Neco Argenta foi o entrevistado do programa de estreia da nova temporada do podcast Mapa Econômico do RS

Presidente das empresas Argenta, empresário Neco Argenta foi o entrevistado do programa de estreia da nova temporada do podcast Mapa Econômico do RS

SARAH OLIVEIRA/ESPECIAL/JC
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Guilherme Kolling
Guilherme Kolling Editor-chefe
Neco Argenta começou a trabalhar aos 12 anos como auxiliar de entregas de móveis em Flores da Cunha. Com tino comercial, aos 18 tinha uma promissora carreira como representante da empresa de móveis Florense, viajando todo o Brasil. "Era um momento importante da minha vida. Nunca tinha viajado em avião, tinha saído de Flores da Cunha em uma excursão escolar a Gramado e Canela, e estava com um bom salário, viajando o Brasil inteiro, nos melhores hotéis."
Neco Argenta começou a trabalhar aos 12 anos como auxiliar de entregas de móveis em Flores da Cunha. Com tino comercial, aos 18 tinha uma promissora carreira como representante da empresa de móveis Florense, viajando todo o Brasil. "Era um momento importante da minha vida. Nunca tinha viajado em avião, tinha saído de Flores da Cunha em uma excursão escolar a Gramado e Canela, e estava com um bom salário, viajando o Brasil inteiro, nos melhores hotéis."
Mas uma fatalidade mudou tudo: seu pai teve um mal súbito e faleceu. Para ficar perto da mãe, aceitou o convite do irmão para deixar o emprego e abrir uma empresa. Tinha 21 anos. Começaram com uma sala alugada de 12 metros quadrados e formaram um conglomerado, que faturou R$ 24 bilhões no ano passado. São mais de mil postos de gasolina, com as bandeiras SIM, Charrua e Petronas. "Somos a quarta maior distribuidora do Brasil, atrás de Ipiranga, Shell e Vibra", observa o empresário à frente do grupo com 7 mil funcionários.
O negócio começou focado no setor vinícola e gradualmente foi sendo verticalizado – comercialização de açúcar, transportadora até o primeiro posto de combustíveis, em 1993. O setor se tornou o principal foco de Argenta, que atualmente tem 14 empresas. Metade é do segmento Combustíveis e Logística: SIM Rede, SIM Distribuidora, SIM Aviação, SIM Lubrificantes, Querodiesel, Charrua e Frotaúnica. As outras sete empresas estão divididas em Serviços e Soluções (A27, Aiva, Nexta e DNA) e em Agronegócio e Varejo: Vinícola Luiz Argenta, Argenta Participações e Arlazul.
Neco Argenta detalhou sua trajetória em entrevista ao podcast Mapa Econômico do RS. O episódio abriu a segunda temporada do programa e pode ser visto neste link.
Jornal do Comércio – Como começou sua trajetória até a expansão das empresas Argenta?
Neco Argenta – Sou de Flores da Cunha, cidade pequena com 30 mil habitantes. Mas quando nasci, eram 8, 9 mil habitantes. Sou de uma família humilde, meu pai era barbeiro – o único da cidade – minha mãe era do lar, dona de casa. Sou o terceiro filho de uma família de três irmãos, minha irmã tem quase 15 anos a mais do que eu, é professora. E meu irmão tem 8 anos a mais do que eu. Tudo na minha vida aconteceu muito cedo. Eu, com 12 anos – com o desejo de ter o meu dinheirinho para fazer minhas coisas – assinei a carteira de trabalho. Estudava de manhã e trabalhava à tarde.
JC – Começou a trabalhar aos 12 anos...
Argenta – Comecei em uma loja de móveis e eletrodomésticos como auxiliar de entregas. Aos 15 anos, fui convidado para trabalhar na mesma função na Lojas Colombo do saudoso Adelino Colombo, pessoa ímpar, eu admirava muito. Aos 18 anos, fui convidado para trabalhar na Móveis Florense. Uma empresa renomada, comecei como office boy, depois de seis meses me convidaram para trabalhar como supervisor de vendas, que atuava viajando o Brasil, visitando os principais clientes da Florense em todos os estados. 
JC – Já tinha o faro comercial...
Argenta – O comercial sempre tive, é um dom nessa questão do relacionamento, do comercial. De gostar de comprar e vender, negociar de uma certa forma. A gente herda um pouquinho (da família o jeito), não vou falar de tios e avós se não vai levar muito tempo... E as coisas aconteceram muito rápido. Aos 18 anos, eu nunca tinha viajado em avião. Tinha saído de Flores da Cunha em uma excursão escolar a Gramado e Canela. Então, a Florense foi a melhor escola que podia ter naquele momento. Imagina um menino com nem 19 anos e começa a viajar...
JC - Ganha visão de mundo...
Argenta – Visão de mundo. Foi importante, porque sou de uma família humilde do interior de Caxias do Sul. Para começar, quem era de Flores Cunha e ia a Caxias era nomeado na época como colono, com preconceito. Hoje a gente se orgulha de ser colono. Mas teve um período que era pejorativo (ser chamado de colono). Então, sair Flores de Cunha, viajar, conhecer pessoas, representar uma empresa como a Florense foi o grande salto na minha vida. Mas com 21 anos foi o período mais difícil, em 1985. Meu pai teve um mal súbito, eu inclusive estava em Manaus (AM) pela Florense, consegui voltar a tempo. E um dia depois meu pai veio a falecer, teve um infarto, e depois o segundo (infarto), já no hospital. Minha irmã era casada e meu irmão também. Mesmo ficando 40 dias fora em viagem, eu morava com meus pais. E aí minha mãe falou para o meu irmão: "pô, e o Neco!?". Porque na época não tinha cuidadora, minha mãe ia ficar em casa sozinha. E aí meu irmão me chamou para montarmos um negócio e ficar próximo à mãe. Na época eu era muito jovem, de uma certa forma (nessa idade) a gente não olha muito para frente, tem um ímpeto maior... Se fosse hoje... Eu tinha um bom salário, viajando o Brasil inteiro, nas capitais, interior, nos melhores hotéis. Um momento muito importante na minha vida. Mas aceitei o convite dele para montarmos um negócio.
JC – Qual?
Argenta – Flores da Cunha sempre foi o maior produtor de uvas do Brasil, agora, faz cinco ou seis anos que também é o maior produtor de vinhos do Brasil. Tinha mais de 200 vinícolas no interior e meu irmão trabalhava em um escritório como auxiliar de contabilidade, e a maioria dessas vinícolas do interior fazia contabilidade lá. E, naquele momento, essas vinícolas estavam começando a engarrafar com marca própria. Por muito tempo faziam só vinho a granel e vendiam para grandes cooperativas.
JC – A evolução do vinho gaúcho...
Argenta – Isso, a evolução do vinho gaúcho. Aí ele me propôs: "vamos montar um negócio de produtos para a indústria vinícola". Poxa, eu trabalhei com móveis... E aí, com 21 anos, alugamos uma sala de 12 metros quadrados e alugamos um telefone – na época telefone era um bem... E começamos em 1985, 86 devagar. Em 1987 que tivemos mais tração no negócio. Em seguida aos produtos da indústria vinícola veio o açúcar. No processo vinícola, na hora da fermentação, é usado o açúcar, e depois no vinho suave. Aí começamos a trabalhar com açúcar fortemente, entregando para padarias, confeitarias, fábricas de refrigerantes, fábricas de balas, pirulitos. E seguimos nossa caminhada. Em meados de 1988, compramos nosso primeiro caminhão em um consórcio. E iniciamos, subíamos com arroz (ao centro do País) e descíamos com açúcar, que comercializávamos, fazíamos a entrega e o transporte do açúcar.
Negócios foram verticalizados a partir de oportunidades; primeiro caminhão para transporte foi comprado nos anos 1980 | Acervo Argenta/Divulgação/JC
Negócios foram verticalizados a partir de oportunidades; primeiro caminhão para transporte foi comprado nos anos 1980 Acervo Argenta/Divulgação/JC
JC - Já era um segundo negócio...
Argenta – O transporte foi em virtude do açúcar. E o terceiro negócio, que estamos atendendo até hoje, foi um posto de combustível. Na época os postos fechavam na sexta-feira à noite e nós trabalhávamos sábado e domingo, e precisávamos abastecer a frota. Já tínhamos uns 10, 12 caminhões. E aí alugamos um posto que hoje chamamos de posto matriz, onde tudo começou, em Flores da Cunha. Alugamos o primeiro posto e fomos crescendo, vimos que tinha oportunidade, nossa frota foi crescendo também, chegamos a 80 caminhões pesados. Veio o primeiro posto e aí o sonho de termos uma rede de postos na Serra. E seis meses depois do posto de Flores apareceu uma oportunidade em Bento Gonçalves. Na época não tinha informática, era no papel. Mas adquirimos o posto de Bento, depois veio em Caxias do Sul e Farroupilha. Iniciamos no setor de combustíveis por uma necessidade, como falei, para atender a nossa demanda.
O primeiro posto de combustíveis dos irmãos Argenta foi alugado em 1993 em Flores da Cunha | Acervo Argenta/Divulgação/JC
O primeiro posto de combustíveis dos irmãos Argenta foi alugado em 1993 em Flores da Cunha Acervo Argenta/Divulgação/JC
JC – Essa consolidação de quatro postos foi em que ano?
Argenta – Entre 1992 a 95. O primeiro posto foi no final no início de 1993. O início foi mais devagar, depois começamos a andar um pouco mais rápido.
JC – Sempre vendo oportunidades e verticalizando os negócios...
Argenta – Uma coisa foi puxando a outra. Eu tenho uma máxima que uso praticamente todos os dias, para quem trabalha comigo, eu sempre falo: "Pessoal, o caminho se faz caminhando". Então, por mais que tenhamos uma projeção, plano estratégico... Hoje é tudo mais rápido, as evoluções... Tua empresa pode estar maravilhosamente bem hoje no nicho mercado em que está concorrendo e pode surgir uma inovação. E se você não se atualiza... Lembrem o que era Kodak (multinacional que popularizou o uso de filme fotográfico e máquinas portáteis de fotografar). Com o iPhone... Muda a tecnologia, se você ficar na mesma porque é líder de mercado... Uma vez os tempos eram outros, as transformações demoravam mais tempo.
JC – A Argenta foi crescendo gradualmente nesses 40 anos. São quantas as empresas Argenta hoje? A marca mais famosa é a rede SIM de postos de combustíveis.
Argenta – Temos 14 empresas. A Argenta Participações é a empresa proprietária de outras empresas, a holding. Somos eu e meu irmão os sócios. É um negócio familiar. Temos uma JV (joint venture) com um negócio pequeno que é uma fábrica de Arla (agente redutor de líquido automotivo). Nessas 14 empresas, nove atuam no setor de combustíveis. A SIM Distribuidora, temos a Charrua, a Nexta – que é o projeto da Petronas – e temos a SIM Rede Postos, que talvez seja o que mais o pessoal conhece, a marca mais famosa. Temos ainda a Aiva, que produz produtos lubrificantes. A Arlazul, a Querodiesel, que adquirimos em 2022...
JC – Um ecossistema no setor de combustíveis que foi formado quando foram surgindo oportunidades...
Argenta – Perfeito. A Charrua foi uma oportunidade que casou com o nosso desejo no momento adequado, assim como a Querodiesel. Temos a SIM Aviação, empresa que atua no mercado de aviação no Centro e Centro-Oeste do Brasil. Hoje somos um grupo de 14 empresas com 7 mil funcionários.
JC – E faturamento, em 2025, de R$ 24 bilhões. É esse o número?
Argenta – Em 2025, esse é o número que faturamos, sim.
JC – Antes da entrevista falávamos sobre o PIB do Rio Grande do Sul, que oscila a cada ano conforme o clima e a safra. Mas as empresas Argenta estão crescendo dois dígitos há vários anos...
Argenta – "Pô, como é que cresce?" Às vezes o mercado não entende. Fundamos nossa empresa no dia 12 de outubro de 1985, então completamos 40 anos. Nosso crescimento nos primeiros anos eram importantes, mas, com uma base menor, ele representava menos. Nos últimos sete, oito anos, que acabamos ampliando nosso negócio, crescendo. Hoje somos o quarto maior cliente Petrobras do Brasil. Somos a quarta maior distribuidora do Brasil, atrás de Ipiranga, Shell e Vibra. Consolidando todos os nossos postos, somos um complexo com mais de mil postos em todo o ecossistema que temos – Charrua, Petronas, SIM.
JC – Está em todos os estados do Brasil?
Argenta – Ainda não estamos em todos os estados do Brasil. Estamos no Sul, Centro e Centro-Oeste do País. E o projeto da Petronas é expandir para todo o mercado brasileiro. O Rio Grande do Sul é um estado que tem sofrido por muito tempo e agora, ultimamente, com questões relacionadas ao tempo, ao clima, enchente, quebras de safra. Ainda somos um estado muito dependente do agronegócio. Mas conseguimos, em um setor que vem crescendo – tu mesmo estavas falando antes, fora do ar, que a frota de carros cresceu muito mais do que a população nas últimas décadas – claro, o veículo ficou um bem mais fácil de ser adquirido, tem o trânsito... Então, entramos em um nicho de mercado que nos oportunizou crescermos. Claro que a nossa essência passou e passa pelo Estado, mas hoje já atuamos em vários estados. Então, isso fornece ao nosso negócio poder ir ultrapassando limites estaduais.

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