A Macrorregião Central do Rio Grande do Sul ainda tem dificuldades em gerar riquezas, embora seja a parte do Estado que mais cresce proporcionalmente o seu Produto Interno Bruto (PIB). Parte disso, está relacionado à baixa industrialização local, que também faz com que o PIB per capita — ou seja, a divisão da economia regional pela população que ali reside — seja baixo.
“Teve crescimento nos últimos anos da produção de soja, que desceu das Missões para locais como Santiago e Cachoeira do Sul. Mas é uma região, como um todo, que tem pouca indústria. E, muitas vezes, os serviços qualificados, de maior valor agregado, têm relação com a atividade industrial”, explica o pesquisador do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (DEE-RS) Martinho Lazzari.
Nesse cenário, é possível ver variações entre os Conselhos Regionais de Desenvolvimento Econômico (Coredes): enquanto alguns têm conseguido se desenvolver, outros puxam a cifra do PIB per capita da macrorregião para baixo. Enquanto os vales do Rio Pardo e o do Taquari figuram na primeira parte da tabela do ranking dos maiores valores, obtendo, respectivamente, a 8ª e a 11ª posição, o Vale do Jaguari, o Jacuí Centro e a Região Central estão entre os dez piores classificados.
Diversos fatores explicam as diferenças entre as macrorregiões gaúchas em termos de PIB per capita, conforme o economista: “Se pegar a agropecuária, a região de Passo Fundo, Cruz Alta e Erechim planta soja, milho e trigo, que são altamente produtivos. Os melhores indicadores também estão em áreas mais industriais do Estado, como Região Metropolitana, Serra, Vale do Taquari, e a porção Norte. E alguns municípios contam com serviços especializados, de maior valor agregado”, exemplifica.
Na equação, é fácil compreender. Crescem as áreas com alta produtividade agrícola e industrial — no caso do Rio Grande do Sul, muitas vezes, como parte de uma mesma cadeia, onde as indústrias estão associadas ao setor primário —, assim como as que se consolidam como polos de oferta de serviços especializados.
A situação da Macrorregião Central está melhor apenas do que a da porção Sul do Estado, composta pelas regiões Sul, Fronteira Oeste, Campanha e Centro-Sul. “Se pegar a região de Uruguaiana, por exemplo, tem indústria. Mas é muito ligada ao beneficiamento de arroz ou de bovinos. São setores industriais que não têm alta produtividade. E um grande PIB per capita é como se tivesse produtividade para todo mundo. Se pegar a indústria de alimentos, ela vai ter uma produtividade bem menor que a metal-mecânica. E isso se traduz em um menor valor agregado”, pontua Lazzari.
Rio Grande e Pelotas, entre as cidades dessa parte do Estado, possuem indicadores melhores, por concentrarem indústrias, especialmente as atreladas ao porto localizado na região. Entretanto, Lazzari destaca que há intensas variações na produtividade atreladas às demandas flutuantes do polo naval.
Na prática, é difícil vislumbrar um redesenho dessa configuração dos maiores e menores PIBs per capita do Estado, conforme o pesquisador. “Olhando como era a distribuição em 2002, que é o primeiro ano da série histórica, praticamente não mudou. Um ou outro Corede teve mudança de posição. Nesses mais de 20 anos, tivemos a entrada da soja para outras regiões, secas, inundações. A economia não cresceu muito, e fica difícil alguma região crescer acima da média. Se olhar no longo prazo, as diferenças estão meio cristalizadas. Dificilmente você vê algum Corede avançar. Eles evoluem de maneiras diferentes, mas a disparidade tende a se manter”, conjectura Lazzari.
Serra possui o maior PIB per capita do Estado
Uma das áreas mais dinâmicas do Rio Grande do Sul, a macrorregião da Serra, tem se desenvolvido intensamente. Concentrando 17,20% do produto interno bruto (PIB) gaúcho, essa área do Estado também tem atraído população. E a combinação desses fatores resulta em uma alta produtividade, a transformando na porção do RS com o maior PIB per capita.
Composta pelas regiões da Serra, Hortênsias, Campos de Cima da Serra, Paranhana e Encosta da Serra e Vale do Caí, a macrorregião se fortalece com base no forte polo metal-mecânico e em atividades de alto valor agregado. É com base nisso que se constrói o indicador.
“A Serra engloba aquela região de Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Farroupilha e Carlos Barbosa, municípios que têm indústrias muito fortes, como a metal-mecânica e a moveleira. São empregos que geram uma produtividade maior e, consequentemente, uma produção e renda maiores. É uma área que tem atraído população exatamente pela oferta de trabalho”, explica o economista e pesquisador do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (DEE-RS), Martinho Lazzari.
Ao analisar os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), classificação utilizada pelo governo estadual gaúcho e que divide o território gaúcho em 28 zonas, é perceptível a pujança justamente na região onde está a conurbação entre as cidades citadas pelo pesquisador. Afinal, o Corede Serra é o segundo no ranking do PIB per capita seguindo essa divisão, atrás apenas do Alto Jacuí, na Macrorregião Norte.
Regiões Norte e Metropolitana também possuem bons indicadores
Mas não é apenas a Serra que tem apresentado bom desempenho ao dividir o seu PIB pela sua população. “Ao olhar as regiões, é possível traçar uma linha e dividir o Estado, saindo da região de Santa Rosa e chegando na Metropolitana. E essa parte de cima é a área mais desenvolvida em termos econômicos e, de certa maneira, sociais também. Por outro lado, as porções sul, central e noroeste do RS têm indicadores menores”, analisa Lazzari.
A Macrorregião Metropolitana é a que concentra as maiores fatias populacionais e econômicas do Estado. Enquanto 37,3% dos gaúchos residem lá, conforme os dados do último censo do IBGE, de 2022, 39,61% do PIB de 2023 estava nessa faixa que engloba a Região Metropolitana de Porto Alegre, o Vale do Sinos e o Litoral Norte. Mesmo assim, no PIB per capita, ela não lidera.
“São regiões muito populosas. E as que têm o PIB per capita maior são áreas menos povoadas, que muitas vezes, têm uma alta concentração industrial numa região menor. E é uma parte do Estado que tem municípios muito ricos, como Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo. Mas outros, como Alvorada e Viamão, têm uma condição bem inferior. Na média, acaba ficando para trás”, explica Lazzari.
A Macrorregião Norte ocupa a terceira posição, fruto de sua agropecuária com alto valor agregado, de indústrias ligadas ao setor primário — como a de máquinas e equipamentos — e a consolidação de algumas de suas cidades como polos de serviços especializados. Entretanto, áreas mais próximas à fronteira Noroeste apresentam indicadores menores.