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Publicada em 09 de Abril de 2026 às 16:48

Rio Grande do Sul deverá começar a perder população a partir de 2027

Envelhecimento da população deverá guiar políticas públicas e impactar economia nos próximos anos

Envelhecimento da população deverá guiar políticas públicas e impactar economia nos próximos anos

EVANDRO OLIVEIRA/JC
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Ana Stobbe
Ana Stobbe Repórter
A população brasileira está envelhecendo. Em um cenário no qual mulheres têm menos filhos e a longevidade cresce, a tendência é de que o número de moradores comece a diminuir. Essa realidade está mais acentuada no Rio Grande do Sul, que concentra 19 das 20 cidades brasileiras com mais idosos, conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022. Entre os gaúchos, o número de habitantes deverá começar a decair já em 2027, enquanto, no nível nacional, a projeção é de que isso aconteça apenas em 2042. 
A população brasileira está envelhecendo. Em um cenário no qual mulheres têm menos filhos e a longevidade cresce, a tendência é de que o número de moradores comece a diminuir. Essa realidade está mais acentuada no Rio Grande do Sul, que concentra 19 das 20 cidades brasileiras com mais idosos, conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022. Entre os gaúchos, o número de habitantes deverá começar a decair já em 2027, enquanto, no nível nacional, a projeção é de que isso aconteça apenas em 2042. 
Um dos principais motivos é a queda nas taxas de fecundidade — ou seja, a média de filhos para cada mulher. A redução é fruto de variáveis como o aperfeiçoamento e a disseminação de métodos contraceptivos, aliada ao aumento da escolaridade. 
"O pico de nascimentos foi na década de 1980, uma geração que teve uma quantidade maior de pessoas e que entrou em idade reprodutiva até o início dos anos 2000. Nessa época, as mulheres já estavam tendendo a ter menos filhos, mas tinha essa crescente de mulheres chegando na idade reprodutiva, o que compensava um pouco a queda de fecundidade. Mas chegamos ao contexto atual, em que já reduziu o número de mulheres chegando à idade reprodutiva aliado à queda das taxas de fecundidade", explica o gerente de projeções e estimativas do IBGE, Márcio Mitsuo Minamiguchi.
Atualmente, as regiões Sul e Sudeste do Brasil têm os indicadores mais baixos do País, incluindo as maiores idades médias em que as mulheres se tornam mães. No Rio Grande do Sul, em 2010, as gaúchas tinham seus filhos, em média, aos 27,8 anos. Em 2022, aos 29 anos, a segunda maior média do País, abaixo apenas do Distrito Federal (29,3 anos). 
A isso, soma-se um problema: um alto índice de gaúchos deixando o Estado, movimento que não é compensado pela chegada de novos residentes. "Quando ainda existia uma diferença grande entre o total de nascimentos e o total de óbitos, mesmo perdendo população por migração, ainda a população crescia. Agora, como essa diferença vem se estreitando, a capacidade de manter o crescimento, mesmo com saldo migratório negativo, tem diminuído", acrescenta Minamiguchi.
O Rio Grande do Sul possui mais emigrantes do que imigrantes, com um saldo migratório negativo de -77.839 habitantes no Censo de 2022. Conforme o IBGE, a taxa líquida de migração, que mede a parcela populacional que um local perdeu ou ganhou pelos movimentos migratórios, foi de -0,72%. 
"Todos os cenários preveem um saldo migratório negativo para o Rio Grande do Sul. E o efeito das enchentes também não foi de atrair moradores. Esse tipo de crise pode atrair mão de obra em um primeiro momento, para a construção civil, por exemplo. Eventualmente, uma ou outra pessoa fica, mas, nesse contexto, é bem difícil. É como aconteceu no Rio de Janeiro, na época das obras das Olimpíadas de 2016. Em geral, é temporário", conjectura Minamiguchi. 

Atração de população e preparação para as mudanças climáticas são desafios do RS

A atratividade de novos moradores, buscando mitigar, em partes, a redução populacional tem um viés econômico. Afinal, com menos pessoas em idade ativa no mercado de trabalho, a escassez de mão de obra, já enfrentada em diversos segmentos das matrizes produtivas gaúchas, deverá se agravar. E, além disso, a produtividade tende a cair. 
Mas trazer novos residentes e manter os atuais em solo gaúcho é um desafio e tanto. Não apenas as enchentes repeliram pessoas do Estado, como sucessivas estiagens frustraram safras inteiras, fizeram o Rio Grande do Sul perder participação na economia gaúcha e, como clima, economia e crescimento demográfico são variáveis que se relacionam, o RS passou a perder ainda mais residentes. 
Economista Aod Cunha relaciona sequência de estiagens à perda de população em áreas do RS | TÂNIA MEINERZ/JC
Economista Aod Cunha relaciona sequência de estiagens à perda de população em áreas do RS TÂNIA MEINERZ/JC
"O Rio Grande do Sul é o segundo estado com mais incidência de secas graves, dado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), desde 1990. Se a gente pega 85% do território, ou seja, excluindo as regiões Metropolitana, Serra e Litoral, é a região do Brasil com a maior incidência de secas nos últimos 40 anos. E, quando olhamos para os fluxos migratórios dessas regiões afetadas, eles são negativos justamente pela recorrência de secas. Então, diria que sim, o fenômeno climático das secas é uma explicação da perda de população, principalmente no Interior", avalia o economista Aod Cunha. 
Para o especialista, o Rio Grande do Sul precisará dar conta cada vez mais dessa correlação para pensar em um crescimento econômico. "Do ponto de vista dos efeitos climáticos, o Estado precisa avançar no tema de irrigação, armazenamento e reserva d'água em escala maior, principalmente no Interior. Porque quando se tem uma seca, tem também uma destruição de renda não só da agricultura, mas do comércio, dos serviços, e uma perda de oportunidades", acrescenta. 
A partir disso, surgem outros desafios. Afinal, será preciso reter a juventude e atrair novos moradores em idade de trabalho para dar conta da produção no Estado, seja na agropecuária, nos serviços ou na indústria. E, além da questão climática, outros fatores precisam ser levados em consideração. 
"É necessário fazer com que o Rio Grande do Sul tenha melhor qualidade de vida de maneira geral, principalmente para os jovens, avançando em áreas como educação, saúde, segurança e entretenimento. É necessário melhorar essa atratividade. Tem alguns lugares que têm conseguido fazer isso, como o Uruguai, que é um país aqui perto e que perdeu muita gente, mas, aos poucos, foi se reinventando, melhorando a qualidade de vida, a segurança e a educação, se tornando um lugar mais tranquilo e investindo em tecnologia, e que tem conseguido reverter um pouco esse efeito demográfico. Para o Rio Grande do Sul é mais ou menos algo parecido", avalia Aod. 
A receita, conforme o economista, é evidente: "É uma combinação de duas vertentes, uma econômica, ou seja, irrigação e geração de empregos, e outra de oferta de serviços que melhoram a qualidade de vida e gerem uma percepção do jovem querer ficar porque a vida vai acontecer nesse lugar onde ele vai estar", conclui. 

Estado precisará desenvolver políticas públicas para a transição demográfica

Com a mudança no perfil demográfico, as demandas populacionais também mudam. Um menor volume de jovens em comparação com o de idosos, o que já é visível em diferentes cidades gaúchas, faz com que os gestores públicos lancem outros olhares para as políticas desenvolvidas em cada local. 
"A idade é um fator bem determinante para a questão de políticas públicas. Se a população for formada por crianças, é um tipo de demanda, se for de idosos, é outra. Sempre vão existir esses diferentes segmentos, mas o peso de cada um muda a partir da composição dessa população. E os gastos são diferentes também para cada faixa etária", explica Minamiguchi.
Aod já observa, nos últimos anos, essa mudança: "A gente tem uma conta de previdência pior. E tem efeitos na área da saúde, vamos ter uma pressão maior por demandas no campo da saúde pública, porque a população, quando envelhece, demanda mais por esses serviços. Por outro lado, estamos passando por um processo de diminuição da demanda de escolas, porque diminuiu a proporção de crianças em idade escolar no ensino básico. Com uma quantidade menor de crianças para serem atendidas, dá para investir mais em qualidade. São dois exemplos, educação e saúde, que são afetados por esse movimento demográfico", avalia. 
Em alguns municípios, essas questões já são prioridade. É o caso de Veranópolis, na Serra, conhecida como "terra da longevidade" desde a década de 1990, quando o Atlas do Desenvolvimento Humano, da Organização das Nações Unidas (ONU) apontou uma expectativa de vida na cidade bastante superior à do Brasil. Se, lá, as pessoas poderiam esperar viver até os 71,59 anos, no nível nacional, a tendência era de 63,3 anos. 
Com a longevidade dos habitantes de Veranópolis, prefeito Cristiano Dal Pai destaca políticas voltadas ao público idoso | TÂNIA MEINERZ/JC
Com a longevidade dos habitantes de Veranópolis, prefeito Cristiano Dal Pai destaca políticas voltadas ao público idoso TÂNIA MEINERZ/JC
"Temos ações efetivas na assistência social, na saúde, no atendimento. Temos um programa que será lançado nos próximos dias para adaptação das casas para que os idosos tenham conforto nas suas atividades. É adaptar banheiro, rampas… Sabemos que, uma coisa muito básica a se pensar na longevidade, por exemplo, é a abertura da porta do banheiro, que tem que ser para fora e não para dentro porque, se o idoso cai, ele não fica trancado. Então, são várias pequenas ações que, no final, o cômputo geral dá um resultado muito grande dentro da cidade", exemplificou o prefeito veranopolitano, Cristiano Valduga Dal Pai, em entrevista ao Jornal do Comércio. 

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