O Rio Grande do Sul tem sido um destino consolidado entre imigrantes que buscam no Brasil melhores condições de vida. A maior parte deles, venezuelanos, que ingressam no Brasil pela Região Norte, mas seguem rumo às terras gaúchas.
E o mercado de trabalho formal tem aberto as portas para esses estrangeiros: ao todo, foram criadas 10 mil novas vagas de emprego para imigrantes em 2025, em um total estimado em 53.384 postos de trabalho ocupados por nascidos no exterior, conforme dados do Novo Caged e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) reunidos pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS).
"O mercado formal de trabalho no Rio Grande do Sul tem crescido num ritmo mais lento do que poderia. Mas a presença de imigrantes internacionais nesse mercado tem crescido bastante. Em 2022, por exemplo, eram cerca de 26 mil vínculos de migrantes em empregos formais. Em 2025, estimamos que sejam mais de 53 mil. Mais do que dobrou", avalia o chefe da seção de Informação e Pesquisa da FGTAS, Juliano Almeida.
Frente à transição demográfica, que está invertendo a pirâmide etária do Rio Grande do Sul, o sociólogo da FGTAS considera ser importante a chegada dessa população de migrantes para compensar a perda populacional prevista para os próximos anos. "O mercado de trabalho é bastante afetado por isso. E os migrantes internacionais que vêm em idade ativa ajudam a mitigar essa problemática. Então, a acolhida é estratégica. Acompanhar essa movimentação e promover uma integração econômica é central para que essas pessoas, de fato, se estabeleçam no Rio Grande do Sul", explica.
E é notável que, entre as 20 cidades com mais concentração de imigrantes internacionais empregados — que correspondem a 68% de todas as vagas destinadas a essa população no Estado —, seis ficam na Macrorregião da Serra. Caxias do Sul, sua maior cidade, é, inclusive, a líder no ranking, com estimativa de 8.573 vínculos contratuais ativos com nascidos no exterior, superando até mesmo a capital, Porto Alegre, que possui 4.717.
Cidades da Serra e da Região Norte lideram na contratação de imigrantes internacionais
O motivo por trás disso está em um polo metalmecânico forte e em uma vocação industrial presente em diversas cidades serranas. Entre elas, além de Caxias do Sul, destacam-se Garibaldi, Bento Gonçalves e Farroupilha. Afinal, o serviço nas indústrias é o mais comum entre os vínculos empregatícios desses estrangeiros.
"O que temos observado é que o crescimento da presença de imigrantes é maior no Interior do que na Capital e na Região Metropolitana de Porto Alegre. São regiões industriais onde a taxa de desocupação é mais baixa que no Estado que, por si, já tem um índice baixo. Na parcela do território gaúcho que inclui Serra e Litoral Norte, ela está em 3,2%, enquanto no Rio Grande do Sul como um todo é de 3,7%, segundo uma metodologia experimental do IBGE que mede a taxa de desocupação em estratos geográficos. Então, tem mais oportunidades nesses lugares", analisa Almeida.
O mesmo se repete na Macrorregião Norte, onde indústrias, especialmente frigoríficos, que possuem maior dificuldade em encontrar mão de obra, conforme o sociólogo da FGTAS, investem na contratação de estrangeiros. Não é de se estranhar que Erechim, Passo Fundo e Marau estejam entre as cinco cidades com mais imigrantes empregados no mercado de trabalho formal.
Nessa parte do território gaúcho, entretanto, há outra cidade que se destaca: Santa Rosa, com seu polo metalmecânico. E, lá, o perfil de imigrantes é diferente: os argentinos que, tradicionalmente realizavam migrações pendulares na fronteira, têm passado a fixar residência no Estado e o município está sendo intensamente buscado por eles.
"Santa Rosa é um polo regional industrial e está recebendo esses migrantes que saem da Argentina em função de mudanças políticas na condição do país e do crescimento da pobreza lá. Isso estimula a migração laboral. Há alguns anos, eles faziam movimentos pendulares e retornavam ao país vizinho. Agora, observamos que estão buscando uma oportunidade de vínculos de emprego sem prazo determinado, o que significa que estão planejando estabelecer domicílio no Brasil. Em 2022, eram 1.300 argentinos empregados no Estado. Em 2025, chegam a quase 5 mil", explica Almeida.
Venezuelanos representam mais da metade dos estrangeiros que atuam no mercado de trabalho formal no RS
No caso da Região Central, com as indústrias fumageiras do Vale do Rio Pardo e as alimentícias do Vale do Taquari, também é possível vislumbrar migrações. Entretanto, dessa porção do Estado, apenas Lajeado figura entre as 20 cidades com maior número de migrantes empregados.
Já a Região Sul é pouco expressiva nos vínculos ativos de imigrantes. Isso porque enfrenta uma geração de empregos abaixo da média estadual, com um alto índice de informalidade — o que não se restringe a estrangeiros. No ranking das cidades que mais empregam pessoas de outros países, destacam-se nessa parte do território gaúcho apenas as cidades fronteiriças do Chuí e de Santana do Livramento, marcadas pela migração pendular de uruguaios.
"Essas pessoas que vivem na fronteira, muitas têm atividade dos dois lados e, inclusive, cidadania em ambos os países. E tem ainda a questão da informalidade, porque a economia é menos forte na Metade Sul do Estado. É um caminho de passagem para muitos cubanos, mas que miram as zonas industriais. E não é surpresa que tenha uma menor presença de imigrantes fixados ali, porque o mercado formal de trabalho já é mais restrito nessa região, que tem uma taxa de desocupação de quase 5%, maior que a média estadual", complementa Almeida.
Macrorregião Metropolitana atrai perfis diversos de estrangeiros
Embora esteja atrás da Serra e do Norte do Estado, a Macrorregião Metropolitana concentra um importante contingente de imigrantes no mercado de trabalho formal. Afinal, há, nela, uma vasta gama de atividades profissionais: da indústria ao comércio, dos serviços especializados aos que não exigem formação específica. Consequentemente, o perfil dos estrangeiros é bastante diverso.
Há, é claro, imigrantes que, sozinhos, contam a história de muitos. É o caso de Miriannys de Los Angeles, de 29 anos, venezuelana como 55% dos estrangeiros que trabalham no Rio Grande do Sul. A sua nacionalidade é, inclusive, a que mais tem crescido sua participação nos ingressos ao País.
Como a maioria desses migrantes, ela deixou seu país por Roraima, estado brasileiro que faz fronteira com a Venezuela. E, de lá, rumou ao Sul. O motivo? Dificuldades econômicas relacionadas à conturbada política de sua nação. A tudo isso, somou-se uma gravidez de Miriannys. Os planos? Realizar o parto no Brasil, onde havia mais estrutura, e retornar, quando possível, para casa.
Mas as expectativas acabaram se transformando. O que era para ser uma mudança temporária, em 2026 se encaminha para o seu nono ano de residência no Brasil. "Quando chegamos aqui, em 2018, a situação lá ficou pior. Foi um momento ainda mais difícil, e decidimos ficar. Ganhei minha filha e uma amiga viajou com o esposo para o Rio Grande do Sul", relembra Miriannys.
Roraima estava superpopulada, com falta de moradias disponíveis e de vagas de trabalho. Foi daí que surgiu a vontade de ir ao Sul. "Quando cheguei aqui, eu não tinha nada. Igual quando deixei a Venezuela, só com uma mala. Meu marido trabalhava de pedreiro e, às vezes, com a diária que ele recebia só conseguíamos comer, pagar as coisas de casa e complementar um pouco o aluguel", conta a imigrante. Outra dificuldade era a barreira linguística, que, por aplicativos de telefone e no convívio diário com a população local, foi transpassada gradualmente.
Chegando ao Rio Grande do Sul, em 2020, não tardou a conseguir um emprego. Com o auxílio de um grupo voltado ao apoio de estrangeiros, pôde encontrar uma casa para alugar junto ao esposo e, em poucos meses, foi contratada para trabalhar na padaria do Grupo Asun, em Cachoeirinha. Com o tempo, foi crescendo profissionalmente e hoje é a responsável pelo setor.
Miriannys de Los Angeles, 29, estava grávida quando migrou da Venezuela ao Brasil com o marido
Acervo Pessoal/Divulgação/JC
Hoje, Miriannys tem sua casa própria e pôde trazer boa parte da família para morar junto a ela. "Menos meu pai, que ainda está apegado às coisas dele lá", conta. Deles, apenas os menores de idade ainda não estão formalmente empregados.
Para o futuro, ela planeja conseguir obter o diploma que, por ter deixado o país, não foi emitido pela universidade em que estudou. E, assim, poder atuar na área à qual dedicou seus estudos: a Engenharia de Petróleo. Sonhando com um horizonte melhor, espera poder, um dia, voltar — ao menos para visitar — à nação em que viveu grande parte de sua vida.
Jordaniano enfrentou barreira do idioma e levou seis meses até encontrar primeiro emprego
De um perfil diferente é o jordaniano Majdi Halawani, 38 anos, cuja nacionalidade ainda é pouco expressiva no Estado, mas que chegou ao País no mesmo ano que Miriannys. Diferente dela, entretanto, ele sempre residiu em Porto Alegre, para onde veio com o apoio do Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (Gaire) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
A instituição, e alguns gaúchos que o acolheram, o ajudaram, não apenas financeiramente, mas com toda a burocracia da imigração. Assim como a encontrar uma vaga de emprego no setor de tecnologia da informação (TI), no qual possuía mestrado e experiência profissional no seu país de origem.
"Eu vim para começar a vida do zero. Sem emprego e sem dinheiro. Algumas pessoas me ajudaram com documentos, a achar lugar para ficar. Recebi dinheiro também. Algum tempo atrás, teria vergonha de dizer isso, mas, hoje, não. Foi difícil porque não falava nada de português e procurei por quase seis meses até achar o meu primeiro emprego, em uma empresa de TI", relembra Halawani.
Embora o setor de tecnologia tenha, tradicionalmente, o inglês como um idioma cotidiano, ele precisou aprender a língua nacional do Brasil. Para isso, realizou um curso de português voltado a estrangeiros no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). "Era um projeto maravilhoso, com voluntários muito educados conosco, que nos ajudaram com muita paciência e sorrisos. É por isso que eu amo o Brasil, porque essas coisas fazem a diferença na jornada de um imigrante", relata o jordaniano.
Halawani, desde então, passou por outras empresas, como a PMWeb — à qual é muito grato, especialmente pelas políticas de diversidade — e a KPMG, onde trabalha atualmente. E o amor com o Brasil só cresceu.
Majdi Halawani, 38, veio da Jordânia e atua no setor de tecnologia da informação
Acervo Pessoal/Divulgação/JC
"Meu plano era ficar alguns meses aqui e depois me mudar para o Canadá. Mas, depois de alguns meses no Brasil, senti que era o meu lugar. Agora, sou brasileiro. Aqui é a minha casa. Viajei para muitos países, mas esse é o lugar mais mente aberta que eu conheci. Sou gringo, muçulmano, e gay. Tenho uma cultura diferente. Sou muito teimoso. E, mesmo tão diferente dos brasileiros, estou vivendo muito bem, sinto que não sou discriminado ou julgado pela maioria das pessoas", conta Halawani.
Seu plano futuro é o de criar uma organização para ajudar pessoas como ele. Um sonho que ainda pretende concretizar. "Quero dar auxílio quando eles chegarem, com a língua, habilidades e cursos para conectar eles com o mercado. Tem muitos imigrantes que chegam sem educação formal e sem falar português. Isso faz a diferença. E um dia ainda vou fazer isso", conclui.