Porto Alegre,

Publicada em 09 de Junho de 2026 às 18:09

Moradores de Santa Maria mantêm ligação com a história ferroviária

Para quem vive nas casas, presença de negócios e eventos mantém região viva

Para quem vive nas casas, presença de negócios e eventos mantém região viva

Gabriel Margonar/Especial/Cidades
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Quando fala sobre a Vila Belga, o aposentado Paulo Conceição costuma repetir uma frase que resume sua relação com o local: "Minha história se confunde com essa região."

Aos 66 anos, o presidente da Associação dos Moradores Ferroviários da Vila Belga acompanha a trajetória do conjunto histórico desde a infância. Filho de ferroviário, começou a frequentar a região ainda criança, fez curso de eletricista no Centro de Formação Profissional Ferroviária e construiu sua vida em torno de uma estrutura que, durante décadas, organizou o cotidiano de Santa Maria.
Quando fala sobre a Vila Belga, o aposentado Paulo Conceição costuma repetir uma frase que resume sua relação com o local: "Minha história se confunde com essa região."
Aos 66 anos, o presidente da Associação dos Moradores Ferroviários da Vila Belga acompanha a trajetória do conjunto histórico desde a infância. Filho de ferroviário, começou a frequentar a região ainda criança, fez curso de eletricista no Centro de Formação Profissional Ferroviária e construiu sua vida em torno de uma estrutura que, durante décadas, organizou o cotidiano de Santa Maria.
"Desde os cinco anos eu já vinha para cá. Depois estudei na formação ferroviária, estagiei em setores da ferrovia e trabalhei em diferentes cidades. Acompanhei toda a evolução da ferrovia, desde o período da Viação Férrea até a privatização", conta.
Entre as lembranças mais marcantes estão as visitas à antiga cooperativa dos ferroviários. "Eu vinha comprar tecido, carne, mantimentos. Quando minha avó morreu, eu tinha uns 11 anos e vim comprar o tecido para fazer as roupas de luto. São memórias que ficaram para a vida toda".
Para Conceição, a principal riqueza da Vila Belga não está apenas nas casas preservadas ou nos tombamentos conquistados ao longo dos anos. "O principal desafio hoje é preservar a Vila sem perder os moradores. Ainda temos muitos ferroviários e familiares de ferroviários vivendo aqui. Esse patrimônio imaterial precisa permanecer vivo."
A preocupação encontra eco na história de José Carlos Rodrigues de Oliveira, de 73 anos. Natural de Cacequi, ele chegou a Santa Maria em 1978 por causa da ferrovia e mora na Vila Belga há mais de quatro décadas.
"Foi a própria ferrovia que me trouxe para Santa Maria e que me proporcionou esta casa onde moro até hoje", lembra. Operador rodoferroviário, Oliveira trabalhou quase 34 anos na atividade. Durante boa parte desse período, viu a região viver o auge da movimentação ferroviária.
"Naquela época tudo girava em torno da ferrovia. Existia a cooperativa, onde fazíamos compras. Eu mesmo passei 26 anos comprando lá". A lembrança mais dolorosa, por outro lado, está associada ao período da privatização. "Foi muito triste. Vi muitos colegas saírem chorando. Tinha gente com 10, 15 ou 20 anos de serviço que ainda estava longe de se aposentar e não sabia o que faria dali para frente", diz.
Com o declínio da atividade ferroviária, a região entrou em um período de esvaziamento e abandono, conta. "A gente via os vagões se deteriorando, a vegetação crescendo e os espaços sem utilização. Foi uma fase triste para quem viveu os tempos da ferrovia."
Nos últimos anos, entretanto, ambos passaram a acompanhar uma nova transformação da Vila Belga. Eventos culturais, restaurações e novos empreendimentos devolveram movimento a uma área que por muito tempo permaneceu à margem da cidade. "É bom ver a região movimentada novamente", diz Oliveira. "Os eventos acontecem e não causam problemas. Pelo contrário, ajudam a manter viva a história do lugar."
E, apesar das mudanças, algumas características permanecem as mesmas. Entre elas, a convivência entre vizinhos. "Tem gente que mora aqui há décadas. Todos se conhecem, existe amizade e respeito", afirma. "Como sou um dos moradores mais antigos, o pessoal costuma me procurar para conversar sobre a história da Vila Belga", brinca.
Para Conceição, é justamente essa combinação entre patrimônio, memória e vida cotidiana que diferencia o conjunto histórico de outros espaços preservados. "Hoje a Vila Belga é um cartão-postal. Mas, acima de tudo, continua sendo um espaço vivo", finaliza.

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