A ocupação crescente dos espaços históricos coincidiu com um movimento mais amplo de revitalização do chamado Centro Histórico Ferroviário, formado pela Vila Belga, Gare da Estação Férrea, avenida Rio Branco e demais estruturas ligadas à antiga malha ferroviária.
Nos últimos anos, intervenções de infraestrutura e recuperação patrimonial passaram a alterar a paisagem da região. Entre elas estão a recuperação da pavimentação histórica da Vila Belga, melhorias urbanas na avenida Rio Branco e projetos de restauração de edifícios históricos.
O principal deles é a recuperação da antiga Associação dos Empregados da Viação Férrea, contemplada pelo programa Iconicidades. A obra receberá cerca de R$ 13 milhões e deverá abrigar espaços voltados à economia criativa, atividades artísticas e preservação da memória ferroviária.
Outro exemplo é o Mercado da Vila Belga, instalado em um prédio que integrou a antiga cooperativa ferroviária e que hoje reúne iniciativas ligadas à inovação, educação e empreendedorismo. Segundo o prefeito Rodrigo Décimo, as ações ganharam força a partir de 2021, com a criação do Distrito Criativo Centro-Gare. "O que buscamos é transformar essa região em um espaço capaz de preservar sua história e, ao mesmo tempo, gerar oportunidades para a cidade", afirma.
Na avaliação dele, a preservação histórica é justamente um dos diferenciais da região. "O patrimônio não é um obstáculo ao desenvolvimento. Pelo contrário, é um dos principais ativos desse território."
Já para o coordenador da Comissão de Patrimônio Cultural do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS), José Daniel Craidy Simões, o aspecto mais importante do processo não está apenas nas obras, mas na ocupação efetiva dos espaços. "Revitalizar significa devolver vida a um lugar. No caso da Vila Belga, muitas edificações estavam subutilizadas e não tinham ocupação plena". Segundo ele, um dos maiores riscos para qualquer conjunto histórico é justamente o abandono:"Quando portas permanecem fechadas e não há circulação de pessoas, acumulam-se problemas estruturais que aceleram a deterioração", ressalta.
Para Simões, a relevância da Vila Belga vai além do valor arquitetônico. "Ela representa um período importante da formação de Santa Maria e da expansão ferroviária no Rio Grande do Sul. Resgatar e ressignificar esse espaço significa valorizar a própria história da cidade."
Ainda, o arquiteto acredita que os efeitos da revitalização tendem a alcançar diferentes setores da economia local. "É uma semente capaz de impulsionar o desenvolvimento econômico, turístico e cultural. Os benefícios aparecem na hotelaria, na gastronomia, no comércio e na própria valorização da cidade", conclui.
E assim, mais de um século depois de nascer para servir à ferrovia, a Vila Belga volta a atrair pessoas por outros motivos. Os trilhos deixaram de ser protagonistas, mas o movimento permanece. Agora, impulsionado pela cultura, pela gastronomia e pela tentativa de construir um novo futuro sem abrir mão da memória que ajudou a formar Santa Maria.