Porto Alegre,

Publicada em 09 de Junho de 2026 às 17:51

Vila Belga mantém viva a memória ferroviária em Santa Maria

Conjunto de 84 casas geminadas que atravessou o auge dos trens sobreviveu à decadência e, atualmente, abriga novos negócios

Conjunto de 84 casas geminadas que atravessou o auge dos trens sobreviveu à decadência e, atualmente, abriga novos negócios

Gabriel Margonar/Especial/Cidades
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Poucos lugares ajudam a contar a história de uma cidade tão bem quanto a Vila Belga, em Santa Maria. Construído para abrigar trabalhadores ferroviários no início do século XX, o conjunto de 84 casas geminadas atravessou o auge dos trens, acompanhou a transformação da cidade em um dos principais entroncamentos ferroviários do Sul do Brasil e sobreviveu à decadência do setor que lhe deu origem.
Poucos lugares ajudam a contar a história de uma cidade tão bem quanto a Vila Belga, em Santa Maria. Construído para abrigar trabalhadores ferroviários no início do século XX, o conjunto de 84 casas geminadas atravessou o auge dos trens, acompanhou a transformação da cidade em um dos principais entroncamentos ferroviários do Sul do Brasil e sobreviveu à decadência do setor que lhe deu origem.
Hoje, mais de um século depois das primeiras residências entregues, a antiga vila operária segue habitada. As casas preservam características originais do período e compõem um dos conjuntos arquitetônicos mais singulares do Rio Grande do Sul. Mas, mais do que um patrimônio edificado, o local guarda a memória de gerações de ferroviários que ajudaram a moldar a identidade santa-mariense.
A história da Vila Belga começa em um momento de profunda transformação para Santa Maria. No início dos anos 1900, a Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Brésil, empresa da Bélgica responsável pela operação da malha ferroviária gaúcha, impulsionou o crescimento da cidade e criou a necessidade de moradias para seus funcionários. Em 1905, a companhia adquiriu a área onde seriam construídas a estação ferroviária e as residências destinadas aos trabalhadores. As primeiras casas começaram a ser entregues em 1907.
“A importância da Vila Belga vai além da questão habitacional”, afirma o arquiteto e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Caryl Eduardo Jovanovich Lopes, que dedicou sua tese de doutorado ao tema. “A construção da estação ferroviária e da Vila alterou a dinâmica de crescimento urbano da cidade”, continua.
As primeiras casas começaram a ser entregues em 1907 | Arquivo TV Campus/Divulgasção/Cidades
As primeiras casas começaram a ser entregues em 1907 Arquivo TV Campus/Divulgasção/Cidades
A partir daquele momento, a cidade passou a se expandir em direção à estação. A avenida Rio Branco ganhou protagonismo e a região se transformou em um polo de hotéis, restaurantes e comércio voltado aos viajantes que cruzavam o Estado pelos trilhos.
Presidente da Associação dos Moradores Ferroviários da Vila Belga, Paulo Conceição afirma que, em determinado período, a região chegou a abrigar cerca de 14 hotéis - que recebiam passageiros vindos de diferentes partes do Brasil e do Prata, como argentinos, paraguaios e uruguaios. "Como os trens não circulavam durante a noite, muitos viajantes precisavam permanecer em Santa Maria antes de seguir viagem", contextualiza.
Esse movimento também aproximou a cidade dos circuitos culturais da época. “Trouxe artistas e companhias que passavam pelo Prata e acabavam vindo para cá. Isso ajudou a consolidar uma relação muito forte da cidade com a cultura”, recorda Conceição. Não por acaso, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) define a Vila Belga como um “testemunho físico excepcional da era do carvão e do ferro”, período em que Santa Maria se consolidou como o coração ferroviário do Sul do Brasil.
O valor histórico está presente também na arquitetura. Tombado em nível municipal e estadual, o conjunto reúne casas térreas geminadas, alinhadas à rua e com pequenos quintais nos fundos. A unidade arquitetônica preservada permite compreender como a ferrovia influenciou a ocupação urbana da cidade ao longo do século passado.
Mas a importância da Vila Belga não se resume às construções. Ela fazia parte de uma ampla estrutura social criada pelos ferroviários: trabalho, educação, saúde, lazer e abastecimento estavam diretamente conectados à atividade ferroviária. As residências eram destinadas principalmente a profissionais de nível intermediário da companhia, como telegrafistas, técnicos especializados e chefes de setor. Vivendo próximos e compartilhando a mesma rotina, eles construíram uma comunidade fortemente integrada. “Como trabalhavam juntos e viviam próximos, existia uma forte integração entre as famílias”, observa Lopes. “A história da ferrovia se mistura com a própria história de Santa Maria.”
Um dos pilares dessa organização foi a Cooperativa de Consumo dos Empregados da Viação Férrea, criada em 1913. Inicialmente voltada ao abastecimento dos trabalhadores, a iniciativa ampliou suas atividades e passou a oferecer serviços de saúde, educação e qualificação profissional.
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“A cooperativa criou escolas profissionalizantes, mantinha uma casa de saúde, tinha fábrica de café, fábrica de sabão, tipografia, fabricação de móveis, alfaiataria, padaria e farmácia. Era um shopping da época”, conta. A rede de convivência se completava com clubes recreativos, esportivos e culturais mantidos pelos ferroviários, fortalecendo os vínculos entre trabalhadores e suas famílias.
Cooperativa criada em 1913 centralizava serviços e funcionava como um shopping | Gabriel Margonar/Especial/Cidades
Cooperativa criada em 1913 centralizava serviços e funcionava como um shopping Gabriel Margonar/Especial/Cidades
A mudança começou na segunda metade do século XX, quando o transporte rodoviário passou a receber prioridade nos investimentos públicos. Para Lopes, os reflexos foram sentidos na própria paisagem urbana. Como as residências pertenciam à empresa ferroviária e eram alugadas aos funcionários, a falta de investimentos afetou a manutenção dos imóveis. Com o fim do transporte ferroviário de passageiros, toda a região da estação perdeu protagonismo.
O momento mais delicado ocorreu durante a privatização da ferrovia, nos anos 1990. Foi nesse contexto que os processos de preservação ganharam força. O tombamento municipal começou a ser discutido ainda nos anos 1980 e foi seguido pelo reconhecimento estadual. “Sem o tombamento, provavelmente grande parte desse patrimônio já teria desaparecido”, afirma Lopes.
Essa lógica ajuda a explicar por que a Vila Belga segue viva mais de um século após sua criação. Diferentemente de muitos conjuntos históricos transformados apenas em atração turística, ela continua sendo um espaço de moradia, convivência e memória. “Hoje ela é um cartão-postal, mas acima de tudo é um espaço vivo”, resume Conceição.

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