Durante décadas, a movimentação dos trens definiu o ritmo da vida em Santa Maria. Passageiros chegavam e partiam diariamente, hotéis se espalhavam pelo entorno da estação ferroviária e o comércio prosperava impulsionado pelo fluxo constante de viajantes. Quando a ferrovia perdeu protagonismo ao longo da segunda metade do século XX, porém, a dinâmica da região mudou.
A antiga centralidade ferroviária da cidade foi gradualmente substituída por áreas de expansão urbana. Hotéis fecharam as portas, imóveis ficaram vazios e parte das estruturas que ajudaram a impulsionar o crescimento da cidade passou a conviver com a deterioração e o abandono.
Mas quem circula hoje pela Vila Belga encontra uma realidade diferente daquela observada há duas ou três décadas. Cafés, restaurantes, galerias, espaços culturais e empreendimentos criativos passaram a ocupar construções históricas, atraindo moradores e visitantes para uma área que voltou a ganhar protagonismo na vida urbana santa-mariense.
Parte dessa transformação começou há 11 anos, a partir de uma iniciativa dos próprios moradores. Criado em 2015, o Brique da Vila Belga nasceu de uma proposta simples: oferecer um espaço para que moradores comercializassem produtos produzidos na própria comunidade. A ideia rapidamente cresceu.
"Percebemos que uma feira restrita aos moradores teria pouca capacidade de expansão. Então decidimos abrir espaço para artesãos, produtores e expositores de toda a cidade e da região", recorda o criador e diretor-geral do evento, Kalu Flores.
O resultado apareceu rapidamente. Atualmente, o Brique reúne cerca de 200 expositores cadastrados e recebe aproximadamente 100 participantes por edição. Realizado no primeiro e no terceiro domingo de cada mês, tornou-se uma das principais atrações culturais de Santa Maria.
Segundo Flores, os efeitos ultrapassaram os limites da própria feira. "A partir do Brique começaram a surgir galerias de arte, lojas de artesanato, cafés, antiquários e outros negócios que encontraram aqui um ambiente favorável", diz.
O evento também surgiu em um período particularmente sensível para a cidade, ainda impactada pela tragédia da Boate Kiss. Em um momento de poucas atividades culturais, a iniciativa ajudou a devolver circulação de pessoas à região e uma alternativa de lazer aos santa-marienses que viviam um luto coletivo. "Antes as pessoas vinham fotografar os casarios. Hoje elas vêm para permanecer aqui. Além da arquitetura, passaram a existir atrações culturais, música, gastronomia e atividades para toda a família", celebra.