A escassez de óleo diesel, decorrente de especulações e movimentações das distribuidoras de combustível em resposta à guerra no Oriente Médico, vem provocando uma onda restrições em serviços públicos em municípios do interior do Rio Grande do Sul, com impacto direto no transporte coletivo urbano e rural. Um levantamento da Federação dos Municípios do RS (Famurs) indica que ao menos 142 prefeituras do RS enfrentam dificuldades no abastecimento, levando gestores a priorizar áreas essenciais como saúde e transporte de pacientes, enquanto outras atividades são reduzidas ou suspensas.
Um dos casos críticos é o de Tupanciretã, que decretou situação de emergência administrativa em 19 de março, diante do risco de colapso no abastecimento de combustível. O decreto estabelece medidas de racionalização do uso da frota municipal e prioriza serviços como transporte de pacientes, ambulâncias, coleta de resíduos e manutenção de estradas. A administração também autorizou a contratação emergencial de diesel, caso haja interrupção no fornecimento, e alertou para impactos econômicos, especialmente no escoamento da safra agrícola.
Em Pelotas, na região Sul, onde a prefeitura já havia acionado o Ministério Público na semana passada, para apurar o aumento irregular de preços e limitações na distribuição, tem havido atraso na entrega. Segundo o secretário executivo do Consórcio do Transporte Coletivo, Enoc Guimarães, empresas enfrentam atraso na entrega do combustível e já recorrem a postos de gasolina para abastecimento emergencial. “Nem frete nós estamos conseguindo”, relatou, ao mencionar ainda aumento de custos que já soma cerca de R$ 186 mil em poucos dias. Se o fornecimento não for normalizado, o gestor não descarta a adoção do plano de contingência elaborado com a prefeitura, para a redução de operações dos coletivos.
Em outras regiões do Estado, o transporte público já vem operando com restrição. Em São Leopoldo, o sistema coletivo teve horários ajustados nos fins de semana anteriores e, agora, a partir desta terça-feira (24), para evitar a suspensão do serviço. Linhas com menor demanda passaram por redução, enquanto os horários de pico foram mantidos integralmente. A prefeitura afirma que a medida busca preservar a continuidade do atendimento diante da incerteza no abastecimento.
Em Bento Gonçalves, na Serra, as empresas concessionárias do transporte público realizaram ajustes operacionais no transporte coletivo no sábado e no domingo, e programadas para o próximo fim de semana. Nesses dias, a operação será mantida das 5h45 às 13h. Após esse horário, os serviços serão suspensos. Também haverá suspensão total dos horários do sistema Pega Fácil. Já aos domingos, haverá suspensão total da operação do transporte coletivo.
Situação semelhante ocorre em Novo Hamburgo, onde a operação foi readequada aos fins de semana. Um plano de contingência reduziu horários em 29 das 93 linhas, especialmente nos períodos de menor fluxo, com o objetivo de garantir a circulação durante toda a semana sem interrupções. A administração municipal afirma que a decisão foi baseada em análise técnica da demanda.
No sul do Estado, Rio Grande já havia registrado impactos desde o início do mês. A concessionária do transporte público reduziu horários em linhas com menor movimento, ampliando intervalos entre viagens para economizar combustível e manter o serviço ativo pelo maior tempo possível. A justificativa apresentada inclui a dificuldade de compra de diesel no mercado.
Apesar de dados da ANP e da Petrobras indicarem normalidade na produção e no fornecimento às distribuidoras, a Assembleia Legislativa realizará uma audiência pública nesta quarta-feira (25), para investigar possíveis falhas na distribuição e indícios de especulação de preços. O debate deve reunir representantes do setor e órgãos de controle para apurar as causas do desabastecimento.