As passagens de ônibus intermunicipais no Rio Grande do Sul têm apresentado valores significativamente superiores aos de viagens interestaduais, mesmo em trajetos mais curtos. Um evantamento do Jornal Cidades aponta que o preço médio por quilômetro nas rotas dentro do Estado é de R$ 0,52, considerando a as categorias intermediárias de conforto, como semi-direto, executivo e semileito, enquanto viagens de Porto Alegre a Florianópolis registram média de R$ 0,30 por km, e até São Paulo, R$ 0,21. Na prática, o custo no RS pode ser até 147,6% maior do que os destinos nacionais.
Entre os destinos analisados com saída da Capital, Caxias do Sul, Gramado e Rio Grande aparecem com as tarifas mais elevadas, chegando a R$ 0,58 por quilômetro. Já Santana do Livramento apresenta o menor valor, com R$ 0,40 por km. Em números absolutos, a passagem mais cara é para Uruguaiana, a 624 quilômetros de Porto Alegre, com preço médio de R$ 334,51. Na categoria leito-cama, o valor chega a R$ 639,55, superando o custo de uma viagem equivalente até São Paulo, que, mesmo com distância de 1.144 quilômetros, custa R$ 592,76.
A diferença de preços está diretamente relacionada ao modelo de regulação adotado. No Rio Grande do Sul, o transporte intermunicipal é normatizado pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), que define uma tabela tarifária baseada em coeficientes técnicos. O cálculo leva em conta insumos como óleo diesel, manutenção da frota, mão de obra e características do serviço, além da distância percorrida. Na prática, o valor final da passagem resulta da multiplicação desse coeficiente pelo número de quilômetros do trajeto.
Esse modelo pode limitar a flexibilidade das empresas. Segundo o presidente da Federação das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio Grande do Sul (Fetergs), Sérgio Tadeu Pereira, as operadoras devem seguir rigorosamente a tabela definida pelo poder concedente. “A única possibilidade de redução de preços é quando as empresas transportadoras fazem ofertas de descontos em determinadas datas”, afirma. Ele destaca que eventuais tarifas mais baixas dependem da demanda e da taxa de ocupação dos veículos.
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Já no transporte interestadual, regulado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a lógica é diferente. Conforme a Resolução nº 6.033/2023, o setor opera em regime de autorização, sem exclusividade e com liberdade de preços. As empresas podem definir suas tarifas conforme estratégia comercial, oferecendo valores diferenciados por horário, trecho ou nível de ocupação. Esse ambiente de livre concorrência tende a pressionar os preços para baixo, especialmente em rotas com maior oferta de operadores.
Dentro do atual regramento estadual, as alternativas para reduzir o custo ao consumidor são restritas. Além de promoções pontuais, não há margem para variações estruturais nos preços, já que o modelo tarifário é centralizado. Mesmo assim, a ausência de reajustes desde dezembro de 2024 tem ajudado a conter aumentos mais expressivos, embora pressões recentes sobre combustíveis, em decorrência do conflito no Oriente Médio, possam alterar esse cenário.
Apps de caronas oferecem preços competitivos mas trazem riscos, alerta Fetergs
Com alternativas de preço bem inferiores ao praticado pelas empresas de ônibus tradicionais, aplicativos de carona têm ganhado popularidade entre viajantes regulares dentro e fora do Estado. Uma viagem de Porto Alegre a Uruguaiana pelo aplicativo Blablacar, por exemplo, foi encontrada pela reportagem por R$ 170, valor cerca de 50% mais barato que a passagem convencional. Para Rio Grande, o valor de R$ 78 representa uma economia de 56%.
Apesar da diferença de preço, o setor formal alerta para riscos. O presidente da Fetergs, Sérgio Tadeu Pereira, afirma que o passageiro que opta por esse tipo de serviço “não sabe em que carro está embarcando” e nem as condições do motorista, além da ausência de fiscalização estatal. “Esse passageiro está fazendo um voo às cegas”, adverte.
A concorrência com alternativas informais e a mudança de comportamento dos consumidores também têm impacto direto na sustentabilidade do sistema tradicional. Segundo a Fetergs, a redução da demanda afeta não apenas as empresas de transporte, mas também as rodoviárias, que dependem da movimentação de passageiros para manter suas operações. Em municípios menores, com menor fluxo, essa perda de receita pode inviabilizar economicamente a manutenção das estações, levando ao seu fechamento. Somente no ano passado, 14 estações rodoviárias foram fechadas no RS.
Embora o Daer informe não haver registro recente de fechamento de rodoviárias no Estado em 2026, o cenário de longo prazo preocupa o setor. A combinação entre modelo tarifário rígido, concorrência de serviços não regulados e mudanças no perfil de consumo coloca em xeque a competitividade do transporte rodoviário intermunicipal no Rio Grande do Sul.