Porto Alegre,

Publicada em 14 de Agosto de 2025 às 18:42

Especialista destaca falhas pré-pandemia no ensino público do RS

Ausência de investimentos e formação dos docentes são apontados como motivos para resultados aquém do esperado

Ausência de investimentos e formação dos docentes são apontados como motivos para resultados aquém do esperado

Camila Domingues/Palácio Piratini/JC
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Larissa Britto
Larissa Britto Repórter
Na quinta e última reportagem da série sobre a educação no Rio Grande do Sul, o Jornal Cidades entrevistou um especialista em educação para entender como os baixos índices de alfabetização no Estado, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), impactam os estudantes gaúchos e quais soluções devem ser aplicadas na rede pública de ensino. O professor de Educação da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Sani Belfer Cardon diz que as problemáticas evidentes na educação não iniciaram na pandemia de coronavírus, em 2020, ou na enchente de 2024, como destacou o ministro da Educação Camilo Santana durante apresentação dos resultados do Indicador Criança Alfabetizada, em julho.
Na quinta e última reportagem da série sobre a educação no Rio Grande do Sul, o Jornal Cidades entrevistou um especialista em educação para entender como os baixos índices de alfabetização no Estado, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), impactam os estudantes gaúchos e quais soluções devem ser aplicadas na rede pública de ensino. O professor de Educação da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Sani Belfer Cardon diz que as problemáticas evidentes na educação não iniciaram na pandemia de coronavírus, em 2020, ou na enchente de 2024, como destacou o ministro da Educação Camilo Santana durante apresentação dos resultados do Indicador Criança Alfabetizada, em julho.
“Nós temos problemas no sistema público de educação bem anteriores à pandemia. Esses problemas devem-se à falta de investimento, de formação de professores, de infraestrutura e à falta de algo que é bem importante, a busca ativa de estudantes que estão fora da escola”, afirma. Porém, o professor, que atua com a organização e políticas da educação básica e com psicologias da educação com foco em aprendizagem, ressalta que essas adversidades calamitosas agravaram ainda mais o cenário da educação pública.
Ele menciona que um dos problemas anteriores tanto às cheias, quanto à pandemia é a falta de professores. A pesquisa Radar, realizada pelo Centro dos Professores e Funcionários de Escola do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS) Sindicato, divulgada em abril deste ano, apresenta um quadro de precariedade na rede estadual de ensino. O levantamento aponta que faltam ao menos 1,6 mil profissionais, entre docentes, funcionários e especialistas. Além disso, as disciplinas de inglês, matemática, educação física e português apresentam maior déficit de docentes, respectivamente. 
Sani explica que esse cenário de escassez faz com que muitos docentes com uma formação específica assumam outros componentes curriculares. “Há outros fatores que acabam influenciando e explicando porque um percentual tão pequeno não quer ser professor. Como, por exemplo, a valorização. Mas não estou falando somente sobre a questão salarial. É claro que a remuneração influencia. É só ver o que se paga para um professor estadual hoje. Além disso, esse professor tem uma exigência muito grande de trabalho sem ter tempo para isso. Há uma exigência muito grande porque não tem formação continuada. A própria infraestrutura escolar também influencia, porque há escolas que não têm nem biblioteca”, ressalta.
Nesse sentido, as cidades de São Vendelino, Arroio do Padre, Cruzeiro do Sul e Taquari – que apresentaram um declínio significativo na alfabetização entre 2023 e 2024 – investiram em formação continuada aos professores da rede municipal. Esse processo, segundo Sani, é essencial para que os professores se mantenham atualizados em relação às mudanças educacionais mesmo após concluírem sua graduação. 
“O professor sai da universidade e o mundo educacional continua. Ele pode fazer uma especialização, mas tem custos. No caso dos professores da rede pública, que ganham pouco, há a necessidade de fazer uma formação continuada. Hoje em dia, nós temos uma quantidade imensa de estudantes que têm transtornos e deficiências e estão incluídos em classes regulares. O professor que saiu da universidade, ou não teve nada sobre essa temática, ou teve uma ou duas disciplinas. Então, ele precisa ter uma formação continuada sobre essas questões”, pontua.
Como solução para qualificar a educação, ele propõe seguir as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), que foi instituído em 2014 com projetos até 2024, mas prorrogado até 31 de dezembro deste ano. Contudo, Sani diz que muitas das metas propostas pelo PNE não foram atingidas por falta de investimento e o plano foi estendido por mais 10 anos. O PNE, segundo o MEC, é um plano estratégico que estabelece diretrizes, objetivos, metas e estratégias para a educação no Brasil ao longo de dez anos. Ele visa orientar e promover a melhoria da qualidade da educação em todos os níveis e modalidades de ensino. 
Em nota, a Secretaria Estadual da Educação (Seduc) diz que os dados do MEC, que demonstram que o País não alcançou a meta de 60% das crianças alfabetizadas, refletem um cenário nacional desafiador, marcado por desigualdades históricas, impactos da pandemia e fragilidades estruturais que afetam diversas redes de ensino no País.
Na nota, a pasta complementa que "não se pode atribuir a um único estado a responsabilidade pelo não atingimento da meta nacional de alfabetização e que o desempenho do RS no ano de 2024 deve ser compreendido tanto no contexto dos desafios, enfrentados coletivamente em todo o território nacional, quanto diante das situações excepcionais vividas pelo Estado".

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