O sol forte e o calor acima dos 30 ºC não afastaram o público da Praça da Alfândega neste sábado (15), feriado da Proclamação da República e penúltimo dia da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre. Pelo contrário: desde as primeiras horas da manhã, era difícil cruzar os corredores sem esbarrar em alguém. O Centro Histórico parecia dividido — quase vazio em suas ruas laterais, com muitos comércios fechados, mas tomado por leitores, famílias e curiosos no entorno das bancas.
Com 79 expositores e mais de 300 autores participantes, o clima era de satisfação entre quem faz a Feira acontecer diariamente. “O sol atraiu bastante gente, embora nós aqui dentro da banca estejamos suando bastante. Mas vendendo bastante, graças a Deus”, contou rindo Neiva Piccinini, da Livraria Província, entre um atendimento e outro. Segundo ela, o movimento deste sábado foi o mais intenso de toda a feira: “Todos os dias foram muito bons, mas o fim de semana sempre é mais forte. Já batemos nossa meta de vendas”, celebra.
Na visão dos expositores da Editora Libretos, o calor também trouxe público numeroso - mas não necessariamente disposto a abrir a carteira. “Tem bastante gente, mas muitos vêm com listinhas de livros específicos. É mais movimento do que compra”, observou Mara Massera, que ainda assim avaliou o sábado como o dia mais cheio da edição.
Para Marcelo Spalding, da Editora Metamorfose, o saldo também é positivo. “2025 tem sido o ano mais agitado desde a pandemia. Já vendemos perto de mil exemplares durante os dias de feira”, disse. Sobre o fato de o evento terminar alguns dias antes do feriado da Consciência Negra, na quinta-feira, dia 20, o que poderia impulsionar ainda mais o movimento, Spalding reconhece que a data ajudaria nas vendas, mas não vê prejuízo no formato atual. “Feriado sempre ajuda, claro, mas a feira já tem um período longo. 17 dias estão de bom tamanho.”
A movimentação confirma o bom desempenho do evento: até a metade da semana, já haviam sido vendidos quase 145 mil exemplares, alta de 11,75% em relação ao mesmo período de 2024. A lista de mais procurados mistura clássicos como "1984", "A metamorfose" e "Orgulho e preconceito" com sucessos contemporâneos como "Deixe ir", de Fabrício Carpinejar, e "Coração sem medo", de Itamar Vieira Jr.
As crianças da Feira
Entre adultos e sacolas abarrotadas de livros, as crianças também marcaram presença na Praça da Alfândega. Acompanhadas pelos pais, circulavam entre as bancas infantis, encantadas com capas coloridas e personagens conhecidos.
“Eu queria achar "O Pequeno Príncipe" porque a professora leu na escola e eu gostei”, contou Sofia, 9 anos, segurando um sorvete ao lado da mãe, Juliana Vargas, que aproveitava para reforçar a estante de casa. “É bom ver ela pedindo livro em vez de brinquedo”, disse a mãe, sorridente.
Perto dali, o pequeno Joaquim, 7 anos, folheava um livro sobre dinossauros. “Ele ama essas histórias, quer saber o nome de todos”, comentou o pai, Rafael Mendes, morador de Viamão, que visitava a feira pela primeira vez depois da enchente histórica de 2024. “Está linda, cheia, viva. Dá gosto de ver o Centro de Porto Alegre assim”, celebra.
Como é comum em eventos de grande público no Rio Grande do Sul, também eram diversas as camisas da dupla Gre-Nal que contrastavam com o forte sol que assolou Porto Alegre. Uma das torcedoras era Manuela, 8 anos, acompanhada do pai, procurando algum livro sobre o clube do coração.
“Ela quer algo que fale do Inter, especialmente sobre a fundação e os ídolos. Já perguntou se tinha livro do D’Alessandro”, contou o pai, Lucas Silveira, rindo. “Se não tiver, vamos levar algum de futebol mesmo. O importante é manter o coloradismo, a leitura e essa parceria”, finaliza.
Enquanto o sol começava lentamente a se despedir atrás dos prédios do Centro, a multidão seguia entre as árvores e as lonas brancas. A Feira do Livro, que termina neste domingo (16), encerra mais uma edição mantendo o que há de mais raro em tempos acelerados: o prazer coletivo da pausa para ler - ou, nas palavras do próprio tema deste ano, o convite para beber dessa fonte.