Nas últimas semanas, a CEEE Equatorial solicitou a retirada de 24 famílias que residem há quase 50 anos nas Vilas Nossa Senhora Aparecida e São Borja, no bairro Sarandi, devido à ocupação de uma área de alta tensão, o que segundo a empresa, representa risco e inviabiliza a manutenção da rede elétrica. A Associação Comunitária Nossa Vila Aparecida (Aconvi) buscou a Defensoria Pública para contestar a ação, destacando que as famílias, muitas em situação de vulnerabilidade, não possuem recursos para realocação e que a empresa não ofereceu alternativas dignas.
A Defensoria Pública planeja elaborar uma defesa baseada no histórico de vida e na intenção de permanência das famílias, solicitando um estudo do risco real e explorando opções de mitigação ou realocação digna pelo município, caso o risco seja confirmado. Além disso, a comunidade, que também foi severamente afetada pelas inundações de 2024, critica a sentida falta de apoio da prefeitura durante a calamidade, contrastando com os esforços de auto-organização e solidariedade entre os vizinhos.
Ao Jornal do Comércio, moradores expressam indignação e angústia com a possibilidade de despejo. Após enfrentarem as dificuldades de uma enchente recente, Maria Heloisa da Rosa e Fabiana Rodrigues Santos enfatizam que a comunidade, que antes era um local descampado, foi construída pelos moradores por esforço e organização popular. "Isso aqui era valão, era buraco. Solicitamos aterro - fomos atrás de internet, de luz. Conseguimos que CEEE colocasse luz para nós. Isso aqui era chão batido. É importante frisar que aqui antes, nada tinha", conta Maria Heloisa, que mora na rua do Povo há 35 anos. Ela foi uma das primeiras pessoas a serem citadas, há cerca de dois meses.
Elisa Maria, Fabiana e Maria Heloisa são moradoras da Rua do Povo
DANI BARCELLOS/ESPECIAL/JC
"Eu nasci e me criei aqui. Tenho 50 anos e há 50 anos moro aqui", diz Fabiana. Ela relata a sensação de angústia e insegurança das últimas semanas. "Estamos numa situação complicada, estamos nesse impasse, não sabemos se vamos ficar ou se vamos sair. Construímos isso aqui, fomos em muita reunião de Orçamento Participativo para ter o asfalto, a luz, a água, o saneamento básico. A gente pegava água no posto para tomar banho, para comer, tudo".
As moradoras veem a citação como incoerência da Equatorial, apontando que a remoção por questões de segurança não parece se aplicar a empresas e empreendimentos da mesma área. "Achamos indigno. Há 50 anos atrás não era perigoso? Ao longo dos anos se situaram aqui a Fiergs, a Havan, a Stok (Center), outros. Agora que o centro está chegando na periferia, querem jogar os periféricos para onde?", questiona Maria Heloisa.
A comunidade, formada por trabalhadores com laços familiares e sociais fortes, está se articulando e buscando a defensoria pública para defender seu direito de permanência. Diante da incerteza, Fabiana afirma que a rua do Povo não vai desistir fácil. "Vamos continuar lutando. Crescemos juntos — não somos vizinhos, somos uma família. Se um precisa de alguma coisa, sempre tem outro para estender a mão".
Segundo moradores, o apoio comunitário é essencial para segurança financeira e emocional
DANI BARCELLOS/ESPECIAL/JC
Laços comunitários para uma economia sustentável
A organização comunitária, personificada principalmente pela Associação Comunitária Nossa Vila Aparecida (Aconvi), desempenha um papel central no desenvolvimento das famílias da Vila Nossa Senhora Aparecida, especialmente no contexto da ação de despejo e das cheias de 2024. Moradores destacam que a organização não é apenas uma resposta à crise atual, mas um elemento vital que permitiu a própria construção e sobrevivência da comunidade.
Na sede da Associação Nossa Vila Aparecida, acontecem as atividades da Justa Trama e do banco comunitário Justa Troca
DANI BARCELLOS/ESPECIAL/JC
A Associação oferece oficinas e cursos de qualificação profissional, a comitiva de costura Univens, a Cooperativa Justa Trama e o banco comunitário Justa Troca. A Justa Trama comercializa produtos feitos de algodão agroecológico. A cooperativa faz parte de uma cadeia produtiva que reúne cerca de 700 trabalhadores nas cinco regiões do Brasil (RS, MS, MG, CE e RO). Em Porto Alegre, é composta por 24 mulheres que atuam no corte, costura, bordados, serigrafia, tingimento e controle de estoque.
Para Nelsa Nespolo, líder da cooperativa, o trabalho feito pela Justa Trama tem em seu cerne a economia solidária, com esforço coletivo, e um recorte de cuidado pelas pessoas e pelo meio ambiente. "Vemos que podemos organizar uma fábrica, uma cooperativa que gere renda, que gere resultado econômico. Mas necessariamente tu não precisa explorar as pessoas, tu não precisa destruir o meio ambiente. Dá pra gente conviver numa sociedade mais justa", indica.
Em Porto Alegre, a Cooperativa Justa Trama é composta por 24 mulheres que atuam no corte, costura, bordados, serigrafia, tingimento e controle de estoque
DANI BARCELLOS/ESPECIAL/JC