Em uma casa de 111 anos, localizada em uma das ruas mais tradicionais do Centro Histórico de Porto Alegre, está o Café Mal Assombrado. Prestes a completar quatro anos de operação, o negócio une cafeteria, livraria e programação cultural na rua Fernando Machado, conhecida também como rua do Arvoredo, cenário de um dos crimes e lendas mais famosos da história da Capital.
A relação entre o endereço e a proposta do café não é coincidência. O casarão está justamente na rua onde ocorreu o chamado Crime da rua do Arvoredo, episódio que marcou Porto Alegre no século XIX e que, até hoje, desperta curiosidade de moradores e turistas.
A história é uma das que mais despertam a curiosidade da cineasta Martina Mombelli, sócia do empreendimento ao lado do namorado e músico André Neto. "Essa é a mais famosa de todas. Só que a gente nota que as pessoas não sabem que o serial killer era uma pessoa e o açougueiro era outra", comenta.
Entre 1863 e 1864, o ex-policial José Ramos e sua companheira, Catarina Palse, assassinaram e esquartejaram homens em um casarão da antiga rua do Arvoredo. Os corpos eram entregues ao açougueiro Carlos Claussen, que, segundo relatos da época nunca comprovados oficialmente, utilizaria a carne para produzir linguiças vendidas à elite porto-alegrense.
Mais do que alimentar o imaginário popular, o caso se tornou ponto de partida para um projeto cultural que movimenta centenas de pessoas todos os meses. Antes de abrir o café, Martina trabalhava como cineasta e produtora audiovisual, enquanto André conciliava a carreira de músico com uma antiga paixão pela história de Porto Alegre. Desde a adolescência, ele pesquisava documentos, livros e relatos sobre crimes, lendas e personagens da cidade.
Quando recebia artistas de outras cidades em sua casa, fazia questão de apresentar Porto Alegre por um roteiro pouco convencional. "Ele mostrava a cidade dizendo ‘aqui morreu fulano, aqui assassinaram não sei quem, aqui aconteceu o caso da linguiça de carne humana’. As pessoas começaram a indicar umas às outras e diziam que, quem viesse para Porto Alegre, precisava conhecer a cidade com ele", lembra Martina.
O que começou como um passeio ganhou forma em 2019. Martina percebeu que as caminhadas dialogavam com esse universo e sugeriu transformá-las em um evento aberto ao público.
A expectativa era reunir cerca de 10 pessoas. “Se trinta aparecessem, já seria considerado um sucesso”, comenta Martina, falando que o resultado surpreendeu. Em menos de 24 horas, mais de 1,8 mil pessoas se inscreveram no evento criado nas redes sociais. “Tive que cancelar as inscrições, porque não sabia o que fazer com tanta gente. Depois, fomos organizando em grupos para cada final de semana. Foi assim que nasceu o Porto Alegre Mal Assombrada", conta.
Para além do terror
O passeio se transformou em empresa, ganhou funcionários e, três anos depois, deu origem ao Café Mal Assombrado. Hoje, a Caminhada Macabra segue acontecendo e continua atraindo visitantes de diferentes partes do Brasil e até do exterior.
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"Durante muito tempo, vinham pessoas do mundo inteiro. Muita gente passava um ou dois dias em Porto Alegre antes de seguir viagem para a Serra ou para a Argentina e fazia questão de conhecer esse outro lado da cidade. Depois voltavam trazendo amigos e familiares", diz.
Essa preocupação em revisitar os fatos históricos também orienta a proposta do café. Apesar da temática ligada ao sobrenatural, os sócios afirmam que o objetivo nunca foi transformar tragédias em entretenimento ou investir em sustos para o público.
"A ideia é, justamente, falar desses assuntos. A história da Maria Degolada, por exemplo, é uma história de feminicídio. Isso continua acontecendo até hoje. A gente usa essas histórias para refletir sobre o mundo em que vive, e não terror pelo terror." Segundo Martina, esse cuidado diferencia o projeto de iniciativas que reproduzem apenas o aspecto sensacionalista das lendas urbanas.
Proposta do negócio
Enquanto a caminhada apresenta os principais casos históricos, o café amplia essa experiência por meio de uma programação permanente. Além da cafeteria, da livraria e do cardápio inspirado nas histórias da cidade, o espaço recebe saraus literários, sessões de cinema comentadas, shows, peças de teatro e palestras sobre história, ocultismo e arte macabra. "O nosso ponto forte é o cultural. As pessoas acabam se surpreendendo com os cafés e os doces temáticos, mas o que faz elas virem até aqui é a programação."
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Os eventos costumam ocorrer entre sexta-feira e domingo e, segundo Martina, frequentemente têm ingressos esgotados. Recentemente, o casarão ganhou ainda um novo ambiente destinado a oficinas, encontros, aniversários, casamentos e eventos privados, ampliando a capacidade de ocupação do espaço.
Às vésperas de completar quatro anos, o Café Mal Assombrado também vive um momento de expansão. Além da operação na Fernando Machado, os sócios passaram a integrar o projeto de ocupação cultural do Viaduto Otávio Rocha, reforçando a atuação em iniciativas voltadas ao patrimônio histórico do Centro.
Para os próximos anos, o objetivo é consolidar o negócio como uma referência turística e cultural de Porto Alegre, fortalecendo ainda mais a conexão entre memória, arte e gastronomia. "A gente vê que isso já acontece naturalmente, mas quer ampliar cada vez mais. Queremos que quem venha a Porto Alegre, ou até quem mora aqui, encontre um lugar para conhecer melhor a história da cidade", afirma.
Endereço e horário de funcionamento
O Café Mal Assombrado POA está localizado na rua Fernando Machado, nº 513, no Centro Histórico de Porto Alegre. A cafeteria opera de quarta-feira a domingo, das 14h às 20h.

