Júlia Fernandes

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Repórter

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Em casarão centenário, café transforma lendas e crimes de Porto Alegre em experiência cultural

O Café Mal Assombrado opera há quatro anos no Centro Histórico da Capital
Em uma casa de 111 anos, localizada em uma das ruas mais tradicionais do Centro Histórico de Porto Alegre, está o Café Mal Assombrado. Prestes a completar quatro anos de operação, o negócio une cafeteria, livraria e programação cultural na rua Fernando Machado, conhecida também como rua do Arvoredo, cenário de um dos crimes e lendas mais famosos da história da Capital.
Em uma casa de 111 anos, localizada em uma das ruas mais tradicionais do Centro Histórico de Porto Alegre, está o Café Mal Assombrado. Prestes a completar quatro anos de operação, o negócio une cafeteria, livraria e programação cultural na rua Fernando Machado, conhecida também como rua do Arvoredo, cenário de um dos crimes e lendas mais famosos da história da Capital.
A relação entre o endereço e a proposta do café não é coincidência. O casarão está justamente na rua onde ocorreu o chamado Crime da rua do Arvoredo, episódio que marcou Porto Alegre no século XIX e que, até hoje, desperta curiosidade de moradores e turistas.
A história é uma das que mais despertam a curiosidade da cineasta Martina Mombelli, sócia do empreendimento ao lado do namorado e músico André Neto. "Essa é a mais famosa de todas. Só que a gente nota que as pessoas não sabem que o serial killer era uma pessoa e o açougueiro era outra", comenta.
Entre 1863 e 1864, o ex-policial José Ramos e sua companheira, Catarina Palse, assassinaram e esquartejaram homens em um casarão da antiga rua do Arvoredo. Os corpos eram entregues ao açougueiro Carlos Claussen, que, segundo relatos da época nunca comprovados oficialmente, utilizaria a carne para produzir linguiças vendidas à elite porto-alegrense.
Mais do que alimentar o imaginário popular, o caso se tornou ponto de partida para um projeto cultural que movimenta centenas de pessoas todos os meses. Antes de abrir o café, Martina trabalhava como cineasta e produtora audiovisual, enquanto André conciliava a carreira de músico com uma antiga paixão pela história de Porto Alegre. Desde a adolescência, ele pesquisava documentos, livros e relatos sobre crimes, lendas e personagens da cidade.
Quando recebia artistas de outras cidades em sua casa, fazia questão de apresentar Porto Alegre por um roteiro pouco convencional. "Ele mostrava a cidade dizendo ‘aqui morreu fulano, aqui assassinaram não sei quem, aqui aconteceu o caso da linguiça de carne humana’. As pessoas começaram a indicar umas às outras e diziam que, quem viesse para Porto Alegre, precisava conhecer a cidade com ele", lembra Martina.
O que começou como um passeio ganhou forma em 2019. Martina percebeu que as caminhadas dialogavam com esse universo e sugeriu transformá-las em um evento aberto ao público.
A expectativa era reunir cerca de 10 pessoas. “Se trinta aparecessem, já seria considerado um sucesso”, comenta Martina, falando que o resultado surpreendeu. Em menos de 24 horas, mais de 1,8 mil pessoas se inscreveram no evento criado nas redes sociais. “Tive que cancelar as inscrições, porque não sabia o que fazer com tanta gente. Depois, fomos organizando em grupos para cada final de semana. Foi assim que nasceu o Porto Alegre Mal Assombrada", conta.

Para além do terror

O passeio se transformou em empresa, ganhou funcionários e, três anos depois, deu origem ao Café Mal Assombrado. Hoje, a Caminhada Macabra segue acontecendo e continua atraindo visitantes de diferentes partes do Brasil e até do exterior.
"Durante muito tempo, vinham pessoas do mundo inteiro. Muita gente passava um ou dois dias em Porto Alegre antes de seguir viagem para a Serra ou para a Argentina e fazia questão de conhecer esse outro lado da cidade. Depois voltavam trazendo amigos e familiares", diz.
Essa preocupação em revisitar os fatos históricos também orienta a proposta do café. Apesar da temática ligada ao sobrenatural, os sócios afirmam que o objetivo nunca foi transformar tragédias em entretenimento ou investir em sustos para o público.
"A ideia é, justamente, falar desses assuntos. A história da Maria Degolada, por exemplo, é uma história de feminicídio. Isso continua acontecendo até hoje. A gente usa essas histórias para refletir sobre o mundo em que vive, e não terror pelo terror." Segundo Martina, esse cuidado diferencia o projeto de iniciativas que reproduzem apenas o aspecto sensacionalista das lendas urbanas.

Proposta do negócio

Enquanto a caminhada apresenta os principais casos históricos, o café amplia essa experiência por meio de uma programação permanente. Além da cafeteria, da livraria e do cardápio inspirado nas histórias da cidade, o espaço recebe saraus literários, sessões de cinema comentadas, shows, peças de teatro e palestras sobre história, ocultismo e arte macabra. "O nosso ponto forte é o cultural. As pessoas acabam se surpreendendo com os cafés e os doces temáticos, mas o que faz elas virem até aqui é a programação."
Os eventos costumam ocorrer entre sexta-feira e domingo e, segundo Martina, frequentemente têm ingressos esgotados. Recentemente, o casarão ganhou ainda um novo ambiente destinado a oficinas, encontros, aniversários, casamentos e eventos privados, ampliando a capacidade de ocupação do espaço. 
Às vésperas de completar quatro anos, o Café Mal Assombrado também vive um momento de expansão. Além da operação na Fernando Machado, os sócios passaram a integrar o projeto de ocupação cultural do Viaduto Otávio Rocha, reforçando a atuação em iniciativas voltadas ao patrimônio histórico do Centro.
Para os próximos anos, o objetivo é consolidar o negócio como uma referência turística e cultural de Porto Alegre, fortalecendo ainda mais a conexão entre memória, arte e gastronomia. "A gente vê que isso já acontece naturalmente, mas quer ampliar cada vez mais. Queremos que quem venha a Porto Alegre, ou até quem mora aqui, encontre um lugar para conhecer melhor a história da cidade", afirma.

Endereço e horário de funcionamento

O Café Mal Assombrado POA está localizado na rua Fernando Machado, nº 513, no Centro Histórico de Porto Alegre. A cafeteria opera de quarta-feira a domingo, das 14h às 20h.